Introdução ao Livro do Apocalipse
- Livro I -
Ancião Atanásios(Mitilinaios)
[série de palestras traduzidas e organizadas pelo teólogo
Constantine Zalalas]
Pela graça de
nosso Deus Triúno chegamos novamente ao mês de outubro, o mês em que se iniciam
as atividades para muitos de nós[NdoT: época de outono na Grécia, Hemisfério
Norte]. Nos preparamos para o inverno e nossos agricultores aprontam os
campos para plantar. Do mesmo modo que nossos agricultores vão para seus
campos para plantar trigo, é necessário que a Palavra de Deus venha adiante e
seja plantada. Segundo o Evangelho de São Lucas: Um semeador
saiu para semear sua semente.(Mat.13: 3) A palavra de Deus vem
adiante não para lavrar ou cultivar, mas apenas para semear. A preparação
do campo é de responsabilidade do homem. Agora, se chegamos a ouvir a
palavra de Deus, como a ouvimos e a percebemos, e como isso afeta a vida pessoal,
é algo que depende totalmente de nós. No entanto, o Semeador vem e semeia
constantemente. Este é o êxodo de Deus, que é um êxodo do amor d’Ele para
com Sua criação. Deus queria andar junto ao seu povo. Ele fez isso
através de Sua Encarnação, e continua a semear a palavra de Sua Divina
Verdade. No entanto, como eu lhe disse, o modo como ouvimos a Palavra de
Deus depende de nós. Durante esta série de homilias, vamos ouvir a Palavra
de Deus. Temos um ano inteiro à nossa frente e iremos ouvir esta Palavra.
Porém, a Palavra de
Deus às vezes cai em terreno pisoteado e duro, intacto e não cultivado; por
esse motivo, o solo do coração permanece indiferente; alguém entra e ouve, mas
não se comove. A palavra de Deus também cai sobre corações inconstantes,
aqueles que se tornam facilmente entusiasmados. Eles sentem alegria interior
diante da palavra de Deus, mas quando saem pela porta, esquecem tudo. Outras
sementes caem em corações que prometem muito, que mapeiam uma bela vida
espiritual; mas mil e uma preocupações desta vida aparecem e sufocam estas
mudas de Deus, e no final esses corações permanecem infrutíferos! Rezemos para
que ninguém pertença às categorias acima.
Não, meus amados, a palavra de Deus deve cair em solo bom e fértil para
que possa dar frutos - fruto da santidade. No entanto, esses corações devem
aceitar a Palavra de Deus com temor e humildade, e, ao fazê-lo, produzirão
trinta, sessenta, cem vezes! Espero e
rezo mais uma vez para que não haja um único coração nas três primeiras
categorias infrutíferas, mas que todos os corações provem ser de boa
terra. Minha oração é que a palavra de Deus que cai em nossos corações
produza grandes frutos.
Este ano, a Graça
de Deus nos oferece a grande oportunidade de semear Sua palavra do livro do
Apocalipse. É o último livro do Novo Testamento e de todas as Sagradas
Escrituras. Este livro constitui a conclusão das Escrituras Sagradas e
corresponde consideravelmente ao primeiro livro, o livro de Gênesis. Esses
dois livros formam o eixo da queda e salvação. Agora, se o livro de
Gênesis se refere à história da queda do homem, o livro do Apocalipse se refere
à história da restauração e salvação do homem. No livro de Gênesis, temos
a descrição da criação do mundo e do homem. É o belo crepúsculo do mundo visível
criado. Infelizmente, o homem e a mulher caíram no pecado por instigação
do diabo e, desde então, além do pecado, a morte e a corrupção foram
introduzidas no mundo. Para todas as aparências, o belo plano de Deus[para
o homem] – de ter a sua natureza próxima a Deus, unir-se a Ele e ser deificado
e santificado - foi negado. No entanto, aquilo que Deus cria não pode ser
anulado ou negado. Para renovar o mundo visível criado, a economia de Deus
produziu a Encarnação da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Jesus Cristo.
O mundo não
aceitou Jesus Cristo e O crucificou. Ainda assim, o plano de salvação não
foi negado. Por Sua morte na Cruz, Cristo esmagou o diabo; e por Sua
Ressurreição, a morte e a corrupção foram derrotadas. Assim, a Igreja, o
Corpo de Cristo, continua a viajar pela história, enfrentando muitas
tribulações, tumultos e martírios dos poderes opostos a Deus, que lutam contra
Deus, que crucificam continuamente a carne de Cristo. No final, a Igreja
será vitoriosa, triunfante, porque Cristo derrotou o diabo, o mundo e a
morte! A Igreja santifica a natureza e leva-a ao Reino de Deus. Portanto,
se o livro de Gênesis nos dá um relato da criação do homem e de sua queda, o
livro do Apocalipse descreve apocalípticamente
a jornada da Igreja, dos fiéis através da história da criação e, mais
especificamente, do renascimento, criação, e glória eterna do homem e da
criação visível. O livro do Apocalipse, que estamos apresentando hoje,
contém todo o mistério da dispensação divina, da economia divina,
na forma de um resumo - da Encarnação do Verbo de Deus até a Segunda Vinda de
Cristo, o Dia do Julgamento e a aparição do Reino de Deus.
Para lhes dar
uma visão panorâmica, eu lhes digo isso; apenas em uma cena do livro do
Apocalipse, o Mistério da Encarnação se manifesta. No capítulo doze, lemos
sobre a mulher que tem um filho do sexo masculino. Antes de ela dar à luz,
a besta estava esperando a mulher grávida para que pudesse pegar a criança
recém-nascida e devorá-la! No entanto, quando a criança nasceu, a mulher
foi levada para o deserto, e a besta correu atrás da mulher vomitando água da
boca como um rio para varrê-la com o dilúvio. No entanto, a besta não
alcança a criança porque ela ascende ao céu. Meus amigos, esta é toda a
história da Encarnação. O diabo, de acordo com um de nossos Pais da Igreja,
estava procurando as virgens desde o Antigo Testamento para ver qual delas
daria à luz ao Messias. No entanto, de acordo com São Inácio de
Antioquia, o menino escapou da atenção do príncipe deste mundo. O diabo
não foi informado sobre o nascimento do Filho de Deus através da Virgem. O
diabo não tinha ideia. O diabo não é onipresente. Ele também não sabe
tudo. No entanto, ele manteve uma vigilância atenta. Vemos isso muito
claramente no livro do Apocalipse, E o dragão estava diante da mulher que estava prestes a ter um
filho, para que ele devorasse seu filho quando ela o trouxesse! (Apocalipse
12: 4)
Agora, a
mulher varrida pela torrente representa a Mãe de Deus(Theotokos), ou a
Igreja. A pessoa da mulher aqui tem dois aspectos, duas aplicações – A Mãe
de Deus, ou a Igreja. Certamente a Igreja, porque a Igreja é o corpo de
Cristo, corpo que Cristo recebeu da Mãe de Deus, a
Panagia. Consequentemente, Theotokos e a Igreja são a mesma coisa, com
duas visões ou aspectos. Então aqui temos dois lados da mesma
moeda. A Igreja é perseguida, os discípulos e a Mãe de Deus são
perseguidos, mas a criança foi arrebatada para o céu. Em outras palavras,
temos a Crucificação, a Ressurreição e a Ascensão de Cristo. O diabo não
pode mais fazer nada com a criança. Ele não pode ir para o céu; então
ele persegue a mulher no deserto. Ele se volta contra a Igreja, dia após
dia, e podemos ver apenas nesta cena a seção transversal do mistério da
santa economia de Deus. Cenas como essa permeiam o livro do
Apocalipse. Portanto, o livro do Apocalipse se refere ao estabelecimento e
à expansão da Igreja de Cristo; o Reino de Deus na terra, que é a
Igreja; o desenrolar da batalha entre a Igreja (ou a mulher) e a besta, ou
os poderes opostos a Deus. Veremos quais são esses poderes oponentes a
Deus. No final, as pragas ocorrem contra a besta, contra o mundo
incrédulo. A Igreja é triunfante. Cristo vem, julga o mundo, o diabo
está preso e o Reino de Deus resplandece! Este é o diagrama geral do livro
do Apocalipse. O tema central do livro é a Segunda Vinda de Cristo como
Juiz e Rei! O livro começa e termina com o mesmo tema. Venha Senhor
Jesus ! E a resposta é: sim, estou chegando em breve!
Isso descreve
o estado de expectativa, característico do livro e da Igreja. A Igreja
está esperando por Cristo; espera-O como juiz e como Rei para afastar todo
o mal - expulsar o diabo para que o pecado deixe de existir, para que a
corrupção e a deterioração deixem de existir, para que a morte deixe de
existir. A ideia central do livro é Jesus Cristo, a Segunda Vinda de
Cristo, Cristo voltando como Juiz e Rei. Também notaremos, à medida que
progredimos, o uso repetido de um sistema de sete unidades. Isso ficará
mais óbvio durante a análise do livro. Novamente, o tema central é a
batalha entre o Reino de Deus e o poder oponente a Deus, com o triunfo
resultante da Igreja de Cristo. O objetivo do livro do Apocalipse é tanto
a preparação dos fiéis para enfrentar a tribulação que os espera, quanto o
consolo e o fortalecimento dos fiéis, para que possam lutar o bom combate até o
fim. Todas essas coisas a que me refiro em poucas palavras estão
registradas no livro do Apocalipse com visões, imagens e descrições que compõem
sua linguagem simbólica. Certamente, o livro do Apocalipse é
principalmente um livro profético. No entanto, a profecia não apenas
revela eventos futuros, mas também o presente! Portanto, temos aqui
profecia em seu sentido amplo. O próprio Senhor instrui João: "Escreva, pois, as coisas que você viu, tanto as presentes como as que
estão por vir”(1:19)

caverna onde São João escreveu o Livro do Apocalipse, Patmos
Segundo a
nossa tradição, São João foi exilado na ilha de Patmos, a caverna do
Apocalipse. A caverna ainda está lá nos dias de hoje. João costumava
orar ali sem cessar. Segundo a tradição, em um determinado domingo - como
ele nos dirá no início do livro - ele estava no Espírito e teve essas
revelações e visões que registrou, seguindo o mandamento de Cristo. "Escreva, pois, as coisas que você viu, tanto as presentes como as que
estão por vir” (1:19) A partir disso, vemos que o livro do
Apocalipse é profético. Mencionamos que a profecia em seu sentido amplo
não se limita ao futuro, mas pode conter ou incluir o futuro, o presente e até
o passado. Nós vamos explicar. Quando uma profecia diz respeito ao
futuro, ela revela algo que acontecerá no futuro e que é desconhecido para todo
ser criado. O futuro não é conhecido por nenhum homem ou anjo, nem mesmo
pelo diabo! Na realidade, o futuro é conhecido por Deus e por mais
ninguém! Portanto, a profecia é apenas um privilégio do Verdadeiro Deus e,
se você desejar, é um privilégio da nossa Verdadeira Fé Ortodoxa. A
profecia também pode pertencer ao presente - a qualquer coisa ou evento que
escapa à atenção das pessoas naquele momento. Por exemplo, quando São João
Batista é chamado de profeta, o que você acha; ele profetizou o
futuro? Não! São João profetizou o presente! Ele não profetizou
o futuro, nem profetizou o passado. São João Batista profetizou apenas o
presente, e o núcleo de sua profecia era: “Aqui está o Messias! Aqui está
o cordeiro de Deus! Os líderes do povo perguntaram a ele: “Quem é
você? Você é o Messias? Não, eu não sou o Messias! Eu sou a voz
de quem clama e clama no deserto! Estou aqui para testemunhar pelo
Messias. Aquele que esteve diante de mim no tempo, está agora na minha
frente! Aquele que é mais poderoso que eu, cujas tiras de sandálias não
sou digno de desatar! (João 1: 23-29). João está profetizando sobre
Cristo, mas Cristo já está presente! João Batista é um grande profeta, mas
ele está profetizando apenas o presente.
Finalmente,
uma profecia também se refere ao passado, se a profecia se refere aquelas
coisas que o olho humano não viu. Quando Moisés, por exemplo, registra no
livro de Gênesis a criação do homem e do mundo, como ele sabe essas
coisas? Ele está escrevendo profeticamente! Portanto, ele é um
profeta que se refere ao passado. Para adicionar outra dimensão ao
significado da profecia que expusemos acima, a profecia tem o elemento de
ensino. É aconselhável - levar as pessoas a caminhos retos e
arrependimento, trazer consolo e encorajamento para aqueles que estão lutando
na dura luta da vida espiritual, e assim por diante. Muitas vezes os
profetas vêm para fortalecer e ajudar as pessoas e levá-las ao arrependimento e
elevar aqueles que os ouvem. Portanto, a profecia não se limita ao que
aconteceu e ao que acontecerá, mas também vem ensinar ao povo de Deus como
eles devem andar. Por esse motivo - enfatizo isso -, faça uma anotação
mental; não devemos olhar para o livro do Apocalipse no sentido estrito da
profecia, como um livro que nos revelará o futuro! Não é assim, meus
amigos! O livro do Apocalipse nos levará de volta ao passado e ao
presente. Nosso Senhor disse: O que é agora - essas coisas que existem agora -
não necessariamente as imagens simbólicas que João estava vendo em suas visões. Não,
quando João escreve sobre Babilônia, a grande prostituta, representando Roma,
Roma não se limita a esse período de dois mil anos atrás. " O que é agora "
também é válido para hoje, portanto, não devemos limitar nossa interpretação
apenas aos fatos históricos. Assim, "o que é agora "
é para hoje e para amanhã - refere-se ao presente.
Precisamos
entender que o livro do Apocalipse transcende o passado, presente e
futuro. Chega a consolar, elevar, restaurar, advertir, chamar, apontar o
Anticristo, e isso em todas as épocas, em todas as estações, mas especialmente no
tempo em que a consciência espiritual é muito baixa. O livro do Apocalipse
é um livro muito gráfico, com muita graça e frescor inexprimíveis, apesar de
algumas dessas imagens horríveis. Este livro tem um frescor - uma certa
ternura. É uma verdadeira obra-prima do Espírito Santo, e se torna
verdadeiramente agradável para a pessoa que pode entender e ver algumas de suas
maravilhas. Está escrito no dialeto comum dos tempos helenísticos. O
escopo de sua literatura é tão interessante, que estudiosos estrangeiros
afirmam que o livro do Apocalipse emprega sua própria
gramática, e isso o torna muito gracioso. Não é extremamente
rico em seu vocabulário. Nisso, é semelhante ao Evangelho de São João,
que, embora tenha o vocabulário mais pobre dos quatro Evangelhos, voa na
estratosfera da teologia. É o mais teológico de todos os
Evangelhos. São João imita a kenosis (esvaziamento) de Deus, o Verbo, que
assume a pobreza da existência humana. A própria Palavra de Deus tornou-se
pobre e, através dessas palavras humildes e pobres que São João usa, a riqueza
da teologia se manifesta - a riqueza do Reino de Deus. Essa riqueza é tão
abundante que ultrapassa o significado das próprias palavras. É algo tão
fantástico, tão surpreendente, que somente a pessoa que se familiariza com este
livro do Apocalipse pode descobrir todos esses elementos e maravilhas de uma
maneira que nunca se esgote. Novamente, é uma verdadeira
obra-prima. Tem unidade, simetria, ótimo ritmo, uma redação poderosa,
apesar da pobreza das palavras. Tem riqueza - riqueza de cores e
tons. Possui uma grande variedade de tópicos, uma certa flexibilidade e
uma vivacidade. Seu charme magnetiza a pessoa que lê e estuda.
Não há outro
livro na história da humanidade que tenha tantos comentários, escritos e
referências quanto este livro. Um grande número de livros foi escrito,
está sendo escrito e será escrito sobre o livro do Apocalipse. É um grande
tesouro, um livro de grande profundidade que desperta a consciência das
pessoas! Surpreende as pessoas com suas maravilhosas imagens e
paisagens. A cena principal é o céu e a terra. Seu local de
referência é o universo inteiro. Seu período de tempo não se limita à
história da Terra, mas vai além da história universal e da eternidade. É
por isso que estaríamos cometendo um erro de interpretação se desejássemos
interpretar o livro do Apocalipse com base em uma certa topografia, em uma
determinada geografia como os Estados Unidos, Grécia ou
Constantinopla. Muitos de vocês que estudaram literatura apocalíptica
saberão exatamente do que estou falando. A tendência é querer interpretar
os eventos deste livro no espaço estreito de Nova York ou Iraque ou
Constantinopla, ou no espaço limitado da Grécia. O livro do Apocalipse não
é apenas para gregos ou americanos. É um livro universal, como mencionamos
- seu estágio é o Céu e a Terra. Seu período é a história do universo e da
eternidade.
Por
conseguinte, como gregos, não tentemos limitá-lo aos nossos sonhos e aspirações
nacionais! É muito ruim tentar fazer isso, e é por isso que todos aqueles
que tentam interpretar dessa maneira tacanha não entenderam o livro. Meus
amigos, as alegações de todos os que escreveram livros e comentários dentro
desses limites estreitos eram falsas e obviamente envergonhadas! Na
história grega dos intérpretes, mencionarei Apostolos Makrakis, que desejava
sempre interpretar o livro do Apocalipse na limitada área geográfica da Grécia,
tendo Constantinopla como centro. Não é preciso dizer que, quando tentamos
interpretar de acordo com a corrente de cada século, não seremos precisos. No
início do século, Makrakis tentou interpretar o livro do Apocalipse usando
o maometismo como o poder das trevas ou o espírito do anticristo! Não há
dúvida de que a expansão do maometismo está incluída em todo o espectro deste
livro. Exceto que não podemos dizer que o livro do Apocalipse trata
exclusivamente dessa corrente. Isto é um erro! - Nem o comunismo, nem
o ateísmo, nem o materialismo - podem ser um tema central no palco deste
livro. Eles são simplesmente elos da cadeia. Eles são grandes fatores
e estão incluídos neste livro porque esses sistemas assumem dimensões
universais. No entanto, o livro do Apocalipse não se limita apenas a esses
sistemas. Portanto, nunca digamos que a Besta é comunismo ou maometismo! Isto
não é assim! Estes são os precursores da Besta, não há dúvida sobre isso,
mas eles não são a verdadeira Besta apocalíptica.
Estamos muito satisfeitos por vocês terem preenchido todo o espaço, de toda a Igreja,
aqui esta noite. A introdução do livro visa atrair o interesse do público
e esperamos que você traga o dobro de pessoas aqui com você na próxima vez,
para que possamos superar o espaço e realizar nossa próxima conversa em algum
parque. No entanto, tenhamos cuidado. Não espere ouvir neste lugar -
ao interpretar este livro - não espere saber ‘se’ e ‘quando’ a Terceira Guerra
Mundial ocorrerá, ou quando o Anticristo virá, ou quando a Segunda Vinda de
Cristo ocorrerá! Por favor, não espere essas coisas!
Santo André de Cesareia
Precisamos
seguir a linha reta da nossa Igreja. Este caminho, meus amigos, foi
traçado por três pessoas inspiradas por Deus, três Santos Padres inspirados por
Deus: Santo André de Cesaréia do século VI, que escreveu um
comentário; São Arethas, Arcebispo de Cesareia, do século IX (tenho as
duas mãos, glória a Deus!); e São Ecumenios, arcebispo de Tryki do século
VI. (Eu não tenho este.) Tenho dois comentários completos do livro do
Apocalipse, nos quais podemos ver a linha Ortodoxa da nossa Igreja, como nossa
Igreja interpreta o livro do Apocalipse. Não é mera coincidência - e
analisaremos isso na medida em que prosseguimos - novamente, não é por acaso
que nossos Pais da Igreja não se ocuparam tanto com o livro do
Apocalipse. Panayiotis Trembelas, por exemplo, interpretou e publicou
comentários sobre todos os livros das Sagradas Escrituras, com exceção do livro
do Apocalipse. Trembelas foi um grande, grande erudito grego do século XX.
Veremos isso
em nossa jornada de assuntos. Eu direi apenas isso; meus recursos
básicos incluem o grande comentário do professor Bratsiotis - o único na
literatura teológica neo-helênica - junto com os Santos André e
Arethas. Estes servem como meus guias. Todos os outros têm alguns
perigos ocultos. Estou lhes dizendo tudo isso porque não gostaria de me
desviar, nem gostaria de enganá-los. Portanto, os exorto a não deixar sua
imaginação enlouquecer sobre o que vai acontecer e as coisas novas que estamos
prestes a aprender. Não, é necessário vigilância! Aprenderemos em
nossa longa jornada através deste Livro Sagrado, de que modo devemos entender
essa Escritura. Certamente tentarei lhes dizer algo neste momento - esse
"algo" não se esgotará, mas continuaremos a aprender à medida que
avançamos na análise deste livro. Apesar de todas as coisas que acabamos
de mencionar, não podemos dizer que não precisamos olhar para os sinais dos
tempos! Não, precisamos observar os sinais, porque o próprio Senhor nos
instruiu sobre isso. Ele nos falou sobre os sinais do fim dos
tempos. Ele disse, Assim que os galhos da figueira ficam macios e as folhas brotam,
você sabe que o verão está próximo (Mat.24: 32) Ele continua nos
dando vários sinais no Evangelho. Ele nos diz que você saberá
que o fim está próximo. Qual fim, Senhor? Aqui, há uma
imagem dupla, o fim de Jerusalém e o fim do mundo. O livro do Apocalipse é
um livro muito difícil. A profecia é insondável. É
profundo. Santo Inácio instrui São Policarpo em uma carta, enquanto estava
a caminho de Roma para ser martirizado e se tornar alimento para os
leões. “Estude
os tempos com muito cuidado. Antecipe Aquele que está acima do tempo, o
Atemporal - o invisível, mas para nós visível. ” Portanto,
estude, preste muita atenção aos [sinais dos]tempos e, ao longo do caminho,
continue esperando Aquele que está acima do tempo; Jesus Cristo, o Filho
pré-eterno e Verbo de Deus. Continue esperando por Ele. Esta
exortação de Santo Inácio é muito importante.
No entanto,
isso não deve nos lançar à confusão da curiosidade e às consequências de uma
imaginação doentia. Devemos mencionar que nem todas as pessoas têm uma
imaginação saudável. As pessoas também têm uma imaginação doentia e
selvagem e podem fazer de uma montanha uma cordilheira! Alguns de vocês
podem sair, usar essa imaginação, citar mal o que dissemos aqui e começar a
dizer que Pe. Athanasios anunciou que a Terceira Guerra Mundial ocorrerá
em alguns anos, ou ocorrerá em tal e tal momento! As pessoas trarão isso à
minha atenção. Eles vão me perguntar e eu não tenho ideia! Por que
tudo isso? Porque essas imaginações selvagens exageraram algumas coisas
que eles pensavam ter ouvido e as expressaram de acordo com sua
imaginação. Santo Irineu disse algo excelente, "É mais seguro e
menos perigoso aguardar o cumprimento de uma profecia do que continuar tentando
adivinhar, estimar e prever o que está prestes a acontecer." Santo
André de Cesareia também nos diz algo muito importante: "O Tempo e a
experiência serão revelados aos vigilantes." O tempo irá revelar esses
eventos. Agora, você perguntará: “Por que devemos nos preocupar e qual é o
valor se as coisas acontecerem no futuro? É importante que eu saiba com
antecedência o que este livro diz, para que eu saiba como permanecer. ”
Especificamente,
vamos falar sobre a presença do Anticristo. Quando ele vier, ele
hipnotizará as massas. Ele será sábio, atencioso, filantropo, extremamente
civilizado. Ele será uma personalidade incrível! Ele vai encantar o mundo
inteiro! É o que dizem os Pais. As pessoas se gabarão de suas
habilidades de governar, de sua sabedoria. Ele será um rei
universal. As associações que estão se realizando geograficamente, um dia
solidificarão em uma grande união, e então o Anticristo surgirá. Pode parecer
estranho, mas é verdade! Este é o aviso que temos da Palavra de Deus. Naqueles
dias, os profetas Elias e Enoque aparecerão. Esses dois profetas não
provaram a morte. Servirão como profetas do presente, não do futuro! Eles
dirão que este é o Anticristo, e as pessoas ficarão estupefatas. "O
que? Ele é o maior governador que este mundo já conheceu! "Não,
ele é o anticristo!" Eles profetizarão o presente. Aqueles que
são vigilantes, com um coração puro, que vivem uma vida espiritual, o
reconhecerão instantaneamente! O resto das massas apreenderá os profetas e
os pendurará no centro de Jerusalém na árvore mais alta! Agora, quando
todas essas coisas acontecerão? Quando elas acontecerem! Quando
saberemos? Quando eles estão acontecendo!
Reconheceremos
cada evento no momento de suas consequências. Portanto, como você pode ver, o
modo como abordamos e estudamos o livro do Apocalipse é muito
importante. Quando abrimos o livro do Apocalipse, sentimos que estamos
diante de alguma desordem, ou diante de um abismo, sem começo nem fim - um
abismo de visões, representações e imagens. No entanto, na realidade, não
há abismo, nada desse tipo! Há ritmo e ordem com base em um sistema de sete
unidades. Isso é verdade em todo o livro, o que é realmente
incrível. É como olhar para o céu e tentar mapear de maneira ordenada de
seis a sete mil estrelas, as que são visíveis. Isso é possível para
nós? Não, está fora de questão! Isso é caótico! No entanto, não
é caótico para o astrônomo! Ele mapeou essas estrelas. Ele estuda e
sabe como procurá-las.
Consequentemente,
o livro do Apocalipse não é caótico. Podemos facilmente encontrar o
começo, o meio e o fim. No entanto, este é o ponto principal; nós não
sabemos como interpretá-lo. Este é o problema! Como interpretamos o
livro do Apocalipse sem sair pela tangente? Devo dizer que quatro teorias
ou métodos de interpretação diferentes foram apresentados. Vou mencionar
apenas alguns. Isso apresenta um dilema sobre qual teoria usar e você verá
isso à medida em que prosseguimos com nossa interpretação. A primeira teoria,
que foi aceita por muitos Pais da Igreja, é chamada de “cíclica” ( kyklyki) Em
outras palavras, quando lemos as Escrituras Sagradas, perguntamos sobre o que é
relatado pelo profeta: “Essas coisas são para o tempo dele, para a jornada da
Igreja através da história ou para o fim dos tempos?” Nesse caso, temos o
método progressivo ou escatológico. O método cíclico afirma isso: é
preciso uma série de visões, um círculo ou combinação de sete eventos e diz
que esses sete
se aplicam aos eventos desse período. A segunda combinação
de sete se aplica aos eventos de um período subsequente até chegarmos ao fim
dos tempos. A segunda teoria é a teoria cronológica, que não é repetitiva ou cíclica, e não se refere à
combinação de sete vezes. É uma jornada em que podemos dizer: estamos
agora no primeiro capítulo, ou, se preferir, no terceiro capítulo, onde é feita
referência às sete Igrejas da Ásia Menor. Com esse método, podemos dizer
que os três primeiros capítulos se referem ao tempo de São João; os
capítulos além disso, até o último capítulo, referem-se ao período que se segue a São
João até o fim da história. Em outras palavras, de acordo com a teoria
cronológica, poderíamos dizer que todo capítulo corresponde a um pedaço da
história.
Nenhum desses
métodos de interpretação é completamente preciso. Santo André de Cesaréa
prefere o cíclico, mas ele usa todos os
métodos de interpretação. Em outras palavras, devemos usar um método
seletivo. Em algumas áreas, usaremos o cíclico, em algumas áreas o
cronológico e, em alguns, o escatológico. Espero não ter confundido todos
vocês. No entanto, você deve entender que é difícil compreender tudo
isso. Novamente, alguns Padres usam uma combinação desses métodos e essa
combinação é chamada de método "espiral". Para entender isso,
digamos que estou pronto para escalar uma montanha redonda em uma estrada
sinuosa. Depois de escalar um grande círculo, me vejo um pouco mais alto,
mais um círculo, e ainda mais alto e, quando subo a montanha, os círculos se
tornam menores. Posteriormente, aqui tenho a combinação da circular e da
reta - começo na base e acabo no topo. Assim, uma profecia pode
começar no inicio - quando o livro do Apocalipse foi escrito - e essa profecia
pode realmente continuar até o fim dos tempos, até a Segunda Vinda de Cristo. Consequentemente,
como vemos aqui, tenho a interpretação cíclica, mas também a linha reta que
progride para o topo. Chamamos essa combinação de interpretação em espiral.
Vamos observar
como os Pais da Igreja usam tudo isso em suas interpretações. Vejamos dois
ou três exemplos. São João diz em sua Primeira Epístola, “Filhos, esta é a última hora; e, assim como vocês ouviram que o anticristo está
vindo, já agora muitos anticristos têm surgido. Por isso sabemos que esta é a
última hora.” (2:18)
É a última hora. No entanto, o que significa a última hora? Significa
que a Segunda Vinda de Cristo está próxima - não há nada além disso. É a última
hora porque vocês ouviram que o anticristo está vindo. Assim, o Anticristo
é um sinal da última hora. Muitos outros anticristos surgiram e é assim
que sabemos que esta é a última hora. Agora parece que estamos todos
confusos e atrapalhados. Como podemos entender tudo isso? É realmente
simples. Temos o Anticristo, o principal, com uma letra maiúscula
'A.' Todos os outros são pequenos anticristo. Eles são todos os seus
precursores. No entanto, quando é a última hora? A última hora começa
a partir do momento em que São João escreveu o livro do Apocalipse! São
Paulo registra: “Sabe, porem, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos.” (II
Timóteo, 3: 1) Santo Apóstolo Paulo, a que últimos dias você se
refere? São João Crisóstomo interpreta: "Os últimos dias começam no momento
em que São Paulo escreve sua Epístola".
Aqui está
mais um exemplo, para que possamos entender ainda melhor. Cristo disse que
Jerusalém seria destruída; Pedra não será deixada sobre pedra. Então os poderes do céu
serão abalados. O sol e a lua perderão o brilho. O que temos
aqui? - Uma imagem que tem dois níveis. O primeiro nível ocorrerá
alguns anos após essa profecia em 70 dC - a destruição total de
Jerusalém. O segundo plano dessa mesma imagem é a Segunda Vinda de Cristo
e o fim dos tempos. Esse é o grande final desta profecia. A primeira
fase foi, por assim dizer, a semifinal; e este é o
final. Consequentemente, a cada momento da história, temos a última hora -
a todo momento. O que vemos aqui são círculos cada vez mais amplos, e no
centro desses círculos cada vez mais amplos temos a procissão da
profecia. Na primeira circunferência do círculo, temos a interpretação da
profecia. Numa segunda circunferência mais larga, temos a interpretação
novamente, e uma terceira circunferência. No final, a grande circunferência
de um círculo enorme tocará o próprio final dos tempos, a Segunda Vinda de
Cristo. Portanto, é assim que estudaremos o livro do Apocalipse, o que
significa que este livro não é algo que era, ou algo que será, mas algo que sempre
é. O livro do Apocalipse não se esgota em um determinado momento. É
um livro universal que entra até no próprio Reino de Deus.
Santo André
de Cesaréia diz algo muito bom sobre isso: “Os profetas do Antigo Testamento
foram interpretados por muitos intérpretes. No entanto, muitas profecias
permanecem não cumpridas, sem atingir o fim ou a profundidade da profecia.
” Você pode dizer: "Mas os profetas do Antigo Testamento não se
referem a Cristo?" Sim, mas eles também se referem ao além de
Cristo , a Sua Segunda Vinda e ao Reino de Deus. Meus
amigos, nunca digamos que todas as profecias do Antigo Testamento foram
cumpridas! A vinda de Cristo não esgota as profecias do Antigo
Testamento. Sobre isso, Santo André de Cesaréia diz mais uma vez: “Eles
não ficarão exaustos, nem mesmo no Reino de Deus, porque é no Reino de Deus,
especialmente, onde poderemos entender toda a profundidade dessas profecias.
"
Então, agora
você pode começar a entender que o livro do Apocalipse é um livro tremendamente
profundo e insondável, e precisamos abordá-lo com muito respeito. Agora,
no encerramento desta introdução breve, vou pedir-lhes para que não desanimem
se soamos de modo um tanto complicado. Uma introdução é sempre difícil. Uma
introdução é sempre difícil. A introdução foi feita para esclarecer um
pouco esse assunto, e espero não ter confundido todos vocês. No entanto,
peço que você tenha um pouco de paciência. Continue ouvindo e veremos com
que beleza este livro nos refrescará - como obteremos maior entendimento por
meio dessa análise. Este livro tem muitas coisas excelentes a oferecer,
por isso, ao chegarmos ao final desta introdução, devemos ter em mente alguns
preceitos básicos sobre como permanece ao ouvir sobre este livro de Deus.
Primeiro, nunca devemos esquecer que temos em seu conteúdo a palavra viva de
Deus, a palavra de Deus, já que este livro é inspirado por Deus, como todos os
outros livros das Escrituras Sagradas.
Segundo, essa
palavra de Deus é profunda e difícil de interpretar. Para obter
entendimento, é preciso ter humildade, oração, atenção, lágrimas e
persistência. Vamos usar o exemplo de São João Evangelista, onde ele
diz: ouvi
uma voz: 'Ninguém pode abrir este pergaminho', e comecei a chorar, porque
ninguém podia ler sobre o conteúdo deste livro . (Ap 5: 3-4)
O anjo que o guiava veio e disse-lhe: Não chore, o livro foi aberto pela Estrela da Manhã, o Filho de
Deus, a Palavra encarnada de Deus, Jesus Cristo.[1] Então não chore. Por
que ele abriu o livro? - Porque São João estava chorando!
Um terceiro
ponto, e algo que precisamos ter cuidado; todas as conclusões que
tiraremos deste livro - sejam éticas, morais ou espirituais - não devemos usar
apenas para instruir os outros. Vamos aplicar esses pontos primeiro a nós
mesmos! Quando Cristo diz: “você não é frio nem quente... você é morno! É por
isso estou a
ponto de vomitá-lo da minha boca!” Não digamos que Ele cuspirá ou vomitará os
outros! Não, precisamos analisar e criticar as nossas almas, a nós mesmos
em primeiro lugar. Devo questionar: “Eu também sou morno? Talvez eu
seja! ” E
então descobrirei, se tiver alguma sinceridade, que sim, sou morno e Cristo
está falando diretamente comigo!
Meus amigos,
é assim que seremos capazes de obter alguma compreensão com o livro do
Apocalipse, para que sua verdade possa ser revelada a nós, pelo menos o quanto
for humanamente possível! Dessa maneira, podemos percorrer essa jornada
dourada e brilhante de nossa Igreja diante das espadas dos poderes ímpios, que
derramam sangue e ceifam vidas por toda a história.
[1]Aqui
o Ancião Athanasios cita livremente durante a palestra. Ele utiliza os diversos
nomes pelos quais Jesus Cristo é chamado no decorrer do Livro do Apocalipse. A
passagem que dá sequência a abertura do pergaminho, do modo como temos
registrada é: “ “Não chores, pois o Leão
da tribo de Judá, a raiz de Davi, venceu para abrir o livro e romper os sete
selos”(Bíblia King James)
Capítulo 1
Apocalipse 1: 1
Análise dos termos: "Revelação", "deve"
e "em breve"
“Revelação de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu, para mostrar aos seus
servos as coisas que brevemente devem acontecer; e pelo seu anjo as enviou, e
as notificou a João seu servo; O qual testificou da palavra de Deus, e do
testemunho de Jesus Cristo, e de tudo o que tem visto. Bem-aventurado aquele
que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela
estão escritas; porque o tempo está próximo.”
Meus amigos, este livro
começa com um maravilhoso esboço introdutório, no qual podemos observar vários
elementos essenciais. Primeiro, ele se distingue pelo tom oficial, que nos lembra
algumas das inscrições dos livros do Antigo Testamento. Seu começo pode ser
comparado à grandeza do início do livro de Isaías, por exemplo: A visão de Isaías, filho de Amoz, que ele
viu sobre Judá e Jerusalém nos dias de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias, reis de
Judá. (Isaías 1: 1) Segundo, o caráter do livro é conhecido pelo seu nome ‘Revelação’[NdoT:
do grego “Apokálypsis” ]e o santo
escritor nos chama a atenção para que o que temos diante de nós é um livro
profético! Terceiro, a validade e a autenticidade deste livro são declaradas,
porque a fonte deste livro é o próprio Deus, Jesus Cristo, quer Ele fale
pessoalmente ou através de um anjo. Quarto, o objetivo da redação deste livro é
pontuado onde Ele diz, para mostrar aos Seus servos o que deve acontecer em
breve.
Portanto, temos um registro
do propósito da escrita do Livro do Apocalipse. Novamente, o objetivo é mostrar
aos servos de Deus aquelas coisas que devem acontecer em breve! Uma quinta
observação é a identificação do escritor, que não é outro senão Seu servo, São
João Evangelista. Este é o discípulo que Jesus amou, o escritor do Evangelho
segundo João e das Três Epístolas Católicas(Universais). Um sexto ponto, é que
o conteúdo do livro é revelado: o qual comprovou tudo quanto viu da Palavra de Deus e o testemunho de
Jesus Cristo. Portanto, São João presta testemunho da Palavra de Deus;
então o livro do Apocalipse é a palavra de Deus, o testemunho de Jesus Cristo e
todas as coisas que São João viu. Ele não irá adicionar ou subtrair. No final
do livro, o próprio João notará: quem acrescentar algo às palavras deste livro,
Deus acrescentará a ele as pragas descritas neste livro! E se alguém tirar as
palavras deste livro de profecia, Deus tirará dele sua parte na Árvore da Vida,
o que significa que ele não entrará no Reino de Deus. São João tem muito
cuidado para registrar apenas o que viu e ouviu e nada mais!
O tema central deste livro é a Segunda Vinda de Cristo, que
inclui a guerra dos poderes ímpios contra a Igreja, a grande derrota que lhes
foi dada por Cristo e o glorioso reinado de Cristo até os séculos dos séculos.
Um sétimo ponto, é que o objetivo deste livro é esclarecido pelas bênçãos
concedidas àqueles que lêem, aos que ouvem e aos que guardam a palavra de Deus. Bem-aventurados os que lêem, bem como os que ouvem, as palavras desta
profecia e obedecem às orientações que nela estão escritas; Por fim, o que
também é registrado aqui é que o tempo de cumprimento do conteúdo deste livro é
curto… pois o tempo está próximo. O
tempo está próximo! Então, todas essas coisas que vemos no esboço introdutório
deste livro compreendem uma grande quantidade de informações em apenas algumas
linhas! Agora, pela Graça de Deus, continuaremos a interpretar esta Santa
Escritura, palavra por palavra e frase por frase! Há tanta beleza que, mesmo
que nos dissessem para nos apressarmos, como podemos nos apressar?! Quando a
própria escrita impede, ela nos detém rapidamente; Isso nos surpreende. Exige nossa
atenção!
A Revelação de
Jesus Cristo! - Revelação ou Apocalipse em grego. Com essas palavras, este
grande livro do Novo Testamento começa. No entanto, qual é o significado da
palavra "revelação?" Inicialmente, significa que este livro é
profético. É o único livro profético do Novo Testamento, embora os outros
livros do Novo Testamento também tenham elementos proféticos. Se eles têm um
caráter histórico, como os Evangelhos, ou um caráter de cartas[NdoT: recomendações],
como as Epístolas dos Santos Paulo, Pedro, João, Tiago e assim por diante, e
mesmo estando cheios de referências proféticas, eles não são essencialmente proféticos.
Eles são históricos, consultivos e assim por diante. O livro do Apocalipse é
especialmente profético, o único do gênero no Novo Testamento, apesar de estar
cheio de conselhos espirituais também.
De acordo com Santo André
de Cesaréia, "Revelação é a declaração de mistérios ocultos que ocorrem
pela iluminação do nous, seja por sonhos ou visões divinas, ou em estado de
vigília, como no caso de São João". São João não estava dormindo. Ele
estava bem acordado! Ele não estava sonhando. Daniel, no Velho Testamento, no
entanto, via essas coisas em seus sonhos enquanto dormia. Ele viu aquelas grandes
imagens, grandes visões, mas estava dormindo. São João aqui está bem acordado,
ele dirá, eu estava na ilha de Patmos
.... E, no dia do Senhor,
achei-me exaltado no Espírito, quando ouvi atrás de mim uma voz forte... E
voltando-me vi...um semelhante ao Filho do homem(Jesus Glorificado)... E Ele me disse: Eu sou o quem anda entre os sete
candelabros ... o que você vê, escreve e
envia até as sete Igrejas. (Ap.1: 10-13 – Ap 2:1) Portanto,
São João está totalmente acordado.
No
entanto, a palavra revelação também tem um significado mais profundo. Muitas
vezes, usamos esse termo, “revelação”, sem conseguir entendê-lo completamente!
De um modo geral, revelação significa que Deus está Se revelando ao homem e
essa revelação é direta ou indireta, com o objetivo de sempre levar as pessoas
ao conhecimento de Deus. Deus não é desconhecido. Ele é conhecido e oculto ao
mesmo tempo! Ele é conhecido porque Deus quer estar em comunhão com a Sua criação.
Ao mesmo tempo, Ele é oculto porque Ele é o Insondável, o Intocável, o Incomensurável,
o Eterno, o Perene, Aquele acima da natureza sensível e criada, porque a Essência
de Deus sempre escapará ao conhecimento de todos os seres criados. É por isso
que Ele é o “Desconhecido-Conhecido”!
Essas
são expressões do que é chamado de "teologia apofática"; esta mesma
afirmação, por exemplo: "Não sei o que é Deus, e quanto mais aprendo sobre
Ele, mais certo fico de que não conheço a Deus!" Esta é uma posição apofática
em relação ao conhecimento de Deus, porém Deus gosta de Se revelar! Ele nunca
guarda para Si mesmo; Ele Se revela direta ou indiretamente, e a revelação de
Deus pode ser visualizada na revelação divina natural ou na revelação divina
sobrenatural. A revelação divina natural possui três esferas através das quais
Deus é revelado em Sua criação. Primeiro, Ele se revela através da própria
criação; segundo, através do próprio homem; e terceiro através da história
humana e da história da criação. Deus se revela através da criação, de acordo
com as palavras de São Paulo: “Pois desde a criação do mundo os
atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido
observados claramente, podendo ser compreendidos por intermédio de tudo o que foi
criado, de maneira que tais pessoas são indesculpáveis; 21porquanto, mesmo havendo conhecido a Deus, não o glorificaram como
Deus, nem lhe renderam graças “ (Romanos 1:20). Portanto, na
criação, reconhecemos as qualidades de Deus de maneira catafática, não
apofática como mencionamos anteriormente. Aqui o conhecimento se dá através da
própria criação, de maneira catafática. Nós temos um universo tão vasto; e este
universo é tão vasto que os cantos deste universo nunca foram alcançados por
nenhum telescópio. Mesmo nossa própria imaginação não pode viajar tão longe.
Hoje, a ciência fala sobre duzentos bilhões de sóis em nossa própria galáxia, a
Via Láctea! Eles estão falando de cem bilhões de galáxias! Andrômeda é a galáxia
mais próxima da nossa e está a 2,5 milhão de anos-luz de distância! O diâmetro
do universo é de 18 bilhões de anos-luz! Ficamos tontos apenas por contemplar
estas coisas! Da mesma forma, não somos capazes de imaginar um universo finito,
com limites, nem podemos entender isso; e, ao mesmo tempo, não podemos perceber
um universo sem fronteiras.
Agora,
se temos um universo tão vasto e incompreensível, o que podemos dizer sobre o
nosso Deus? Então Deus deve ser eterno, permanente, infinito. Deus é todo-poderoso,
onisciente! Onde observamos essas qualidades? Na criação de Deus! Então, Deus é
revelado através de Sua criação. É por isso, meus amigos, que nunca houve uma
nação sem Deus na história humana, precisamente porque Deus Se revelou através
de Suas criaturas! O fenômeno do ateísmo de nossos dias é o estado doentio do
homem contemporâneo, que precisa desesperadamente de um psiquiatra! Todo ateu
deve ser objeto de avaliação psiquiátrica! O estado do ateu não é natural. Deus
é revelado ao homem pela simples razão de que o homem é a imagem de Deus. O
nous, o nous dominante, a mente, revela e descobre Deus não apenas porque o
homem pode sentir Deus com seu nous, mas a própria presença da mente no homem
revela a Mente-Eterna, o Nous-Eterno. Falando por mim - ter uma mente e ser
capaz de pensar, o que obviamente não é uma obra minha - algumas pessoas devem
ser realmente tolas ao pensar que criaram suas próprias mentes. Eles devem ser verdadeiros
imbecis. Como tenho uma mente, posso concluir facilmente que a Pessoa que me
criou também tem uma mente. Isso é bem afirmado em um dos Salmos. Davi diz: Quem criou os olhos, não pode ver? Quem fez
os ouvidos, não pode ouvir? Ele não entende? Então, podemos observar agora
que, através dos seres criados, especialmente através do homem, a presença e
existência de Deus se manifesta.
Finalmente,
vemos a presença de Deus ao longo da história. Deus entra na história do homem.
Ele orquestra os eventos sem afetar a vontade humana. Deus sempre tem a palavra
final. Vou usar um exemplo para que você possa entender exatamente isso. Vamos
pensar em um barco, uma balsa comercial ou um cruzeiro; nele, temos passageiros
e pessoal(trabalhadores do navio). Passageiros e pessoal se movimentam, eles
cuidam de seus afazeres; um passageiro vai à cabine; outro decide dar um
mergulho na piscina; o terceiro vai tomar um café no convés principal; o quarto
vai para a sala de jantar; os mecânicos ficam na sala de máquinas; o capitão em
sua cadeira. Todo mundo se move de maneira independente, da maneira que deveria
e de acordo com sua própria vontade! Cada pessoa tem a liberdade pessoal de se
mover e continuar como quiser dentro do barco. Sua vontade não é restrita, por
si só, de forma alguma. No entanto, todo o navio está se movendo em direção a
um determinado ponto. Essa é a relação da história, das pessoas e Deus.
Enquanto as pessoas em geral são livres para escolher suas ações em sua viagem,
através da história, a realidade é que todo o navio de cruzeiro da história é
direcionado para um determinado objetivo, um determinado destino!
Então,
nesse sentido, Deus intervém na história. Ele interfere para liderar, dirigir,
punir, destruir, resgatar ou recompensar. Como mencionamos várias vezes, todo o
Antigo Testamento é uma teologia e uma revelação da história da nação de
Israel. Mesmo a Encarnação do Filho de Deus ocorre na história e ainda cobre
toda a pré-história humana. Quando Deus diz que um dos descendentes de Eva virá
para resgata-la(Gn 3:15), vemos que a Encarnação não é colocada em um momento
específico da história, digamos, dois mil anos atrás, mas que a entrada de Deus
na história através de Sua Encarnação cobre a toda a história da humanidade -
desde os tempos pré-históricos até o último dia. Essas coisas são inconcebíveis,
verdadeiramente inconcebíveis; e a pessoa que pode respeitar e viver com isso
torna-se cheia de reverência divina - diante de Deus, diante de Seu amor e Sua
Providência.
Portanto,
a revelação de Deus existe na história pessoal do homem e não apenas na história
universal. Gostaria que eu lhe contasse a história da minha vida? Eu não lhe
diria nada além de como Deus entrou na minha vida pessoal! Gostaria que eu
ouvisse sua história de vida? Eu podia ouvir a história da vida de todos aqui,
a história das pessoas que ouvem ou lêem essa homilia. Como todas essas pessoas
encontraram seu caminho, ouvindo ou lendo a palavra de Deus? Em resposta, é
claro, as pessoas vão contar a história de Deus em suas vidas. Então, Deus
entra não apenas em nossa história nacional(dos povos do mundo), mas também
entra na história de todo indivíduo, de todo ser humano, seja crente ou não,
piedoso ou ímpio, jovem ou velho. Não existe sorte! A sorte não existe, Deus
governa tudo! No entanto, Ele nunca restringe a liberdade do indivíduo. A
revelação divina sobrenatural cumpre e aperfeiçoa a revelação divina natural. O
Monte Sinai, os profetas, e, acima de tudo, a Encarnação do Filho de Deus,
compõem a revelação divina sobrenatural. A revelação divina sobrenatural pode
ser interna ou externa. A externa já está estabelecida pelo aparecimento de
Deus em nossa história, na Pessoa de Jesus Cristo. Já está estabelecida e não
há mais nada a esperar, nada além do que foi revelado na Pessoa de Jesus
Cristo.
Quando
digo que não temos mais expectativas, não queremos dizer que não esperamos a
Segunda Vinda. Sim nós esperamos! Mas na Pessoa de Jesus Cristo, a mesma
Pessoa; em outras palavras, não temos nada fora ou além da Pessoa de Jesus
Cristo. Os profetas predisseram e pregaram a palavra de Deus e Moisés viu a
glória de Deus, mas a história agora tem visto a Pessoa do Filho Encarnado de
Deus. Ela verá novamente, mas Ele será a mesma Pessoa. Consequentemente, não
teremos nenhuma nova revelação além do que já possuímos e é isso que queremos
dizer quando dizemos que a revelação externa ou exterior já está estabelecida.
O que resta é a revelação interior sobrenatural que continua na vida dos fiéis
- todos os fiéis – a fim de ajudá-los a entender e aceitar a revelação externa.
Em outras palavras, Deus se revela dentro de mim para que eu possa chamar Jesus
de Senhor! São Paulo expressa isso nessas palavras; ninguém pode dizer:
"Jesus é Senhor", a não ser pelo Espírito Santo(1 Coríntios 12:3).
Isso significa que o Espírito de Deus me ilumina para confessar Jesus como
Senhor, ou Deus. Ninguém vem ao Filho se não for atraído pelo Pai(Jo 6:44). O
oposto é verdadeiro, o que mostra a igualdade da Santíssima Trindade. Jamais
poderei me aproximar de Jesus Cristo se o Pai não me atrai para próximo dEle.
Como o Pai me atrai? Bem, isso é uma questão mística invisível. O Pai me atrai
e o Espírito de Deus me ilumina para confessar Jesus Cristo como Deus. Quem não
confessa que Jesus Cristo é Deus não tem o Espírito de Deus! É mais do que
óbvio. Aquele que confessa que Jesus Cristo é o Filho de Deus Encarnado, tem o
Espírito de Deus.
Se
não temos o Espírito de Deus - São Paulo é muito claro sobre esse assunto - sem
o Espírito de Deus não podemos fazer nada - não estamos nem perto e nem devemos
ter esperança de salvação. Portanto, temos essa revelação divina interior para
que aceitemos a revelação histórica externa, para aceitar o Filho de Deus Encarnado,
Jesus Cristo! Através desta última forma, da revelação interior, meus amigos,
somos chamados a estudar e entender o livro do Apocalipse. Não pensemos que,
enquanto folheamos as páginas deste livro, enquanto analisamos este livro,
seremos capazes de entender qualquer coisa nele na ausência de iluminação
divina! Não pensemos nisso, porque a compreensão não é acadêmica, gramatical,
poética ou filológica! O entendimento é espiritual. Um filólogo entende a
Bíblia do escopo da literatura, gramática e composição. Mas estes nada mais são
do que elementos externos e o que precisamos desesperadamente entender é que
esta é a palavra viva de Deus, que falará em nossos corações! Portanto,
precisamos desesperadamente dessa revelação interna para entender o livro do
Apocalipse.
São
João - e precisamos prestar atenção a isso- aceitou uma revelação interna direta. São João
viu Cristo diretamente, frente a frente. No entanto, devemos aceitar essa
Revelação através do mensageiro de Jesus Cristo, João, através da Tradição da
Igreja e dos dois mil anos de Sua história, através da palavra escrita, através
do livro que leremos e, se você desejar, através da audição da palavra de Deus,
através do orador. Portanto, devemos aceitar essa revelação, apesar de todas
essas “coberturas” contínuas: através do mensageiro João, através de dois mil
anos, através da Tradição, da palavra impressa e da voz do orador. Portanto,
preciso descobrir e despir todas essas coberturas para aceitar a Revelação de
Deus. Estas são coberturas ou camadas que são essenciais, no entanto, e se eu as ignorar, ficarei perdido! Eu os aceitarei e começarei a descobri-los. Para
dar outro exemplo, digamos que entro em uma sala, em um edifício. Ando pelo
corredor, vou até a porta, abro, atravesso e continuo andando até chegar ao meu
destino. Então, aqui devo percorrer estas “coberturas” até encontrar
pessoalmente a Revelação final, para encontrar Deus que falará em meu coração.
Agora, como isso vai acontecer? O único caminho é através da fé, através da
obediência e submissão à voz da Igreja! (Através de) Todas as coisas que
mencionamos, São João, a Tradição, o período de dois mil anos, a impressão, a
escrita, a voz do orador com submissão à igreja e com humildade, meus amigos! A
fé em essência é conceber o que é revelado através da palavra falada, junto a
impressão histórica penetrando nos "coberturas" que a própria
história e o Verbo, com Sua Encarnação, colocaram sobre eles. Todos esses
fatores que designamos como "coberturas", nós recorreremos para nos
revelar a Deus.
É
por isso que é necessária uma “nova revelação” para nos ajudar a entender a
revelação de Deus, e sem esse tipo de revelação o livro do Apocalipse permanece
selado. Um livro selado com sete selos! “Por que?”, você vai perguntar. Porque
é assim que Deus quer! Deus não tem o direito de fazer o que deseja? - Projetar
algo como Ele deseja? Ele não é o Senhor? É assim que Deus quer e escolhe as
coisas. Ele quer que essas “coberturas” existam para restringir a arrogância e
a altivez humanas! O homem não deve depender de si mesmo e dizer: “Vou
descobrir tudo isso sozinho!” ou “Sou especial o suficiente e o Espírito de
Deus fala comigo diretamente! Deus fala através de mim!” - Como muitos hereges
continuam dizendo. Não, você descobrirá as coisas através das palavras do
orador, através da palavra escrita, através de São João Evangelista que ouviu
tudo isso! Isso trará humildade e restringirá sua arrogância humana. Além disso,
o homem só pode ser salvo através de seus semelhantes! Um homem é salvo através
da Igreja e pela Igreja. A salvação individual não existe. Vamos reconhecer
isso! Alguém que gostaria de ser salvo sozinho, sem a ajuda da Igreja e a ajuda
dos irmãos e irmãs, vamos entender isso, que este alguém em particular nunca
será salvo!
-
A revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe concedeu. -
Portanto,
esta é uma revelação sobre Jesus Cristo, promulgada através de Jesus Cristo e
dada por Deus. Portanto, essa revelação é sobre Jesus Cristo e é apresentada
por Jesus Cristo. Antes, a fonte dessa revelação é O próprio Deus! O que é
significativo aqui é que a Escrita não diz “revelação do Filho de Deus”, porque
o Filho de Deus é de igual valor para o Pai. Uma Pessoa da Trindade não pode
revelar coisas para outra Pessoa da Santíssima Trindade; As Pessoas da Trindade
são Uma em Essência. Não há segredos entre as Pessoas do Deus Triúno. Todas as
três pessoas são infinitas, oniscientes e sábias - as três pessoas do Deus
Triúno! “Jesus Cristo” se refere à natureza humana de Cristo e a natureza
humana de Cristo não é infinita. No entanto, através da união hipostática ou
pessoal com o Verbo de Deus, a natureza humana de Cristo agora pode ser
considerada onipresente, presente em todos os lugares, não por seu próprio
mérito, mas pela união hipostática com Deus, o Verbo. Então, Deus concede essa
revelação a Jesus Cristo, que por sua vez a dará a João, e São João a
transmitirá à Igreja. Agora, como Cristo recebeu a revelação de Deus? E por
Deus queremos dizer o Pai, o Filho e o Espírito Santo? . Vemos isso em 5: 6-7
no próprio livro do Apocalipse que estamos estudando.
“Então vi um Cordeiro, que parecia ter estado
morto, de pé, no centro do trono, cercado pelos quatro seres viventes e pelos
anciãos. Ele tinha sete chifres e sete olhos, que são os sete espíritos de Deus
enviados a toda a terra. Ele se aproximou e recebeu o livro da mão direita
daquele que estava assentado no trono”.
Então eu vi no meio do trono e das quatro criaturas vivas, essas criaturas
vivas que são os querubins, vi um cordeiro morto, mas de pé! Morto, mas em pé!
É exatamente isso que Cristo dirá a São João em uma revelação direta: “Sou aquele que vive. Estive morto mas agora
estou vivo para todo o sempre”. Eis que eu vivo! O Filho de Deus não pode
ficar morto! A natureza divina obviamente não pode morrer, então o corpo humano
morreu por causa da crucificação e do sepultamento na tumba. Que bela imagem, o
cordeiro morto e em pé! A Igreja antiga tinha isso como o símbolo mais
precioso, o símbolo mais amado da Igreja original. O cordeiro morto de pé! Para
aqueles que estudam profundamente o livro do Apocalipse, a parte mais querida é
esse ponto do cordeiro morto de pé.
No
entanto, é preciso progredir, muito, para amar essas coisas. Então Ele veio e
pegou algo da mão direita dAquele que estava sentado no trono. Ele pegou um
livro, um pergaminho. Ele não especifica quem estava sentado respeitosamente.
Deus estava sentado, como veremos em nossa interpretação. Então, foi assim que
Jesus Cristo recebeu a revelação de Deus Pai, ou Deus, como falamos usualmente,
o Deus Triúno, Aquele que está sentado no trono. Agora, quem vai abrir este
pergaminho, este livro? O anjo dirá no quinto capítulo: “Quem é digno de abrir o pergaminho e de romper seus selos?” Ninguém
foi encontrado! Ninguém era digno de abrir este livro e João estava pranteando,
ele estava chorando. O anjo diz que não chore, alguém foi encontrado; o
cordeiro morto pode abrir o livro. Ele abrirá o livro. Em outras palavras, Ele
irá revelar. É por isso que o livro é a revelação de Jesus Cristo; significando
que revela e manifesta a Cristo e, consequentemente, a revelação ocorre através
de Jesus Cristo. Este é o significado das palavras a revelação de Jesus Cristo que Deus Lhe deu.
-
[Ele] lhe deu para mostrar aos Seus servos. -
Servos de quem? Os servos de Jesus Cristo;
para mostrar o que? Mostrar as coisas que definirão o conteúdo do livro. Também
expressa o propósito ou por que este livro foi dado. O que vai mostrar? Coisas
que devem acontecer em breve. Aquelas coisas que devem acontecer rapidamente;
que DEVEM acontecer! Este "devem",
meus amigos, tem uma grande dimensão teológica nas Sagradas Escrituras. Por
favor, permita-me usar o restante do tempo para observar esse
"imperativo" das Escrituras Sagradas. Nos deparamos com esse "devem"[NdoT em algumas traduções
como "há de"] com muita frequência. Vamos ver alguns versículos: Em
Daniel 2: 28,29: ... "mas há um Deus
no céu que revela mistérios e Ele fez saber ao rei Nabucodonosor o que deve
acontecer nos últimos dias." Em Mateus 16:21, lemos: A partir desse
momento, "Jesus começou a mostrar a
seus discípulos que ele deveria ir a Jerusalém e padecer muitas coisas com os
anciãos, e dos principais dos sacerdotes, e dos escribas, e ser morto, e
ressuscitar ao terceiro dia." Ele deveria! Por quê? Veja, quando
Cristo ressuscitou, Ele disse aos discípulos: "Porventura não convinha que o Cristo padecesse estas coisas e
entrasse na sua glória?" (Lucas 24:26)
Esse
"deve" meus amigos, é
difícil, cheio de mistérios e inconcebível! Poderíamos simplesmente perguntar:
"Por que era necessário que essas coisas acontecessem?" Essas coisas
que não são nada agradáveis, como a cruz, por exemplo, ou a perseguição da
Igreja e dos fiéis até a Segunda Vinda de Cristo. Meus amigos, a Igreja
precisava partir para um tipo especifico de jornada pela história, cheia de
tentações e perseguições do mundo. No entanto, vemos que esse "deve", essa necessidade da Igreja,
de empreender uma jornada cheia de tribulações e perseguições, é paralelo ao
"deve" da jornada de
Cristo. Não poderia acontecer de maneira diferente. Por quê? Porque a Igreja é
o próprio Corpo de Cristo. Então, quando Cristo diz isso, devo ser morto, devo
ser crucificado, então a Igreja também deve dizer que deve ser morta, deve ser
crucificada. Não entre em pânico! Você foi batizado? Nós fomos batizados?
Queremos ser cristãos? Vamos finalmente entender isso, Cristo foi crucificado.
Também devemos ser crucificados. Cristo foi perseguido. Seremos perseguidos
também! Provavelmente!
"Se a mim me perseguiram, também vos
perseguirão" e aqui
está o versículo paralelo. "Se a mim
me perseguiram", esta é a necessidade(deve) de Cristo; Eles também o perseguirão, esta é a
necessidade(deve) da Igreja. Cristo diz: devo ir a Jerusalém para sofrer muitas
coisas, para ser crucificado. Isso é paralelo ao versículo de São Paulo, "pois que por muitas tribulações."
Nos Atos dos Apóstolos, quando o apedrejaram em Listra e os discípulos foram
enterrar seu corpo à noite, encontraram-no vivo e bem. Ele se levantou para
dizer aos discípulos que, "pois que
por muitas tribulações, devemos entrar no Reino de Deus." Os
discípulos poderiam ter perguntado a ele: “Santo Apóstolo Paulo, por que
devemos? Você não conseguiu evitar o apedrejamento?" Não, isso era
necessário! Há um grande mistério e profundidade aqui. Portanto, a necessidade
de Cristo é subir a Jerusalém. A necessidade de São Paulo é que, através de
muitas tribulações, entraremos no Reino de Deus, e "essas coisas que devem ocorrer brevemente" no livro do
Apocalipse são paralelas. Por que é assim? Porque, tanto quanto isso é
necessário a Cristo, o povo se oporia à Pessoa de Cristo, teria se oposto à Sua
missão. Para que isso acontecesse, a obra da salvação precisava ser realizada
de qualquer maneira, então Cristo chegou à Cruz - e o órgão da negação da
salvação, a Cruz - se tornou o caminho da salvação. É por isso que o Senhor
disse: Eu "devo", e a
Igreja "deve" pela mesma
razão. O mundo não aceitaria a presença dEla e entraria em guerra contra Ela.
Enquanto falamos, meus amigos, você tem alguma ideia do que os poderes das
trevas estão orquestrando às custas da Igreja? Eles estão espumando pela boca.
Eles estão espumando pela boca e continuarão a fazê-lo! Então, a sina da Igreja
é estar em estado de guerra. A Igreja teve que permanecer, ser estabelecida e
aguardar a Segunda Vinda de Cristo. São Paulo não diz que o mistério da Santa
Eucaristia será oferecido continuamente e continuará sendo oferecido até a
volta de Cristo? Até que Ele volte! Então, a reação do mundo é irreconciliável!
Tenho certeza que você conhece esse termo, "diferenças
irreconciliáveis". Na maioria das vezes, esse termo é usado livremente,
quando um ou ambos os parceiros de um casamento ficam entediados. Mas neste
caso, sim, o mundo tem diferenças irreconciliáveis com a Igreja. Portanto, esse
"deve" da Igreja é
inevitável! Isso é tudo! Em outras palavras, essa incapacidade de evitar certos
confrontos nas relações entre a Igreja e o mundo é expressa pelo termo "deve"; essas coisas que devem ser.
Portanto,
isso não deve expressar a necessidade desses eventos ou confrontos. Muitas
pessoas podem argumentar e dizer que há uma certa força aqui, uma certa coerção
que pode vincular a liberdade de escolha de uma pessoa. Isso não deve expressar
a necessidade desses eventos, mas a necessidade da salvação da qual decorrem
todos esses diferentes eventos. A salvação é uma ação irrevogável do amor de
Deus. Vamos entender isso, irrevogável! Deus ama e quer salvar o mundo! Então,
e se os inimigos da Igreja estiverem espumando pela boca? E se o diabo reclamar
e delirar? E daí? Deus quer salvar o mundo e é assim que isso deve entrar em
cena. O diabo é irrevogável em suas ações e impenitente. A Igreja e a salvação
também são irrevogáveis. Portanto, o confronto é inevitável. É aqui que entra o
"deve"! O resultado final, os eventos do passado, presente e futuro
devem ocorrer. Mas você pode dizer: "Nós não entendemos exatamente essas
coisas!"
Meus
amigos, entendemos e não entendemos! É realmente um mistério. Agora, por que
Deus permite esse tipo desagradável de solução? Você dirá: "Deus não é
capaz de encontrar um método mais fácil?" Essa é uma grande tentação para
muitos cristãos: "Por que Deus não pode intervir?" No entanto, se Ele
intervir, meu irmão, você dirá a Ele que Ele está controlando você! Ele está
cercando sua liberdade! Por que Deus escolhe essa solução aparentemente pior? -
É porque Deus ama e Ele quer mostrar Seu amor. Ele oferece que Seu Filho seja
crucificado! Ele poderia ter usado outro método para salvar o mundo, mas Ele
quer salvar o mundo com amor; e a salvação movida pelo amor é um profundo
mistério. Constitui uma mera dobra do amor de Deus. Santo Isaac, o Sírio,
revela isso para nós. Quando o li pela primeira vez, não fiquei tão
impressionado. Receio que você também se sinta assim inicialmente. Agora, estou
totalmente satisfeito com isso. Vejamos sua homilia 81:
“Na
análise final de todas essas coisas, Nosso Deus e Senhor, devido ao Seu forte
amor por Sua criação”…… e esta é a chave: forte, grande amor, amor ardente. A
palavra grega é pothos. Ele deu Seu Filho à morte na cruz. "Porque Deus
tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito" para sofrer a morte por
ele. (João 3:16) Não porque Deus não poderia nos salvar de uma maneira
diferente, mas foi assim que Deus encontrou para mostrar e ensinar Seu imenso
amor. Nossa mente não pode entender isso!
Ele
nos tocou, Ele se aproximou de nós através da morte de Seu Filho para mostrar e
nos dizer o quanto Ele nos ama! Ele nos ama muito e, se tivesse algo ainda mais
precioso do que isso, Ele teria dado a nós. Tudo isso foi realizado para que
nossa raça humana pudesse encontrar o caminho de volta para Ele, para se
aproximar dEle. E por causa de Seu grande amor, Ele não desejou limitar nossa
liberdade. Mesmo que Ele pudesse fazer isso, Ele escolheu nos deixar ir até Ele
no espírito do amor. Todas essas coisas que, meus amigos, expressam o mistério
por trás daquelas coisas que devem acontecer.
Com
esta solução, o amor de Deus se torna óbvio. Ao mesmo tempo, a liberdade do
indivíduo é preservada! Deus é verdadeiramente maravilhoso! Esses dois
elementos, liberdade e amor, esposados e trabalhando juntos na vida do
indivíduo fiel, darão origem à santidade. Esta é a santidade que precisamos
para entrar no Reino de Deus. Essas coisas que devem acontecer brevemente.
Brevemente! Quão breve? Santo André de Cesaréia diz: “Algumas dessas profecias
estão à mão, prontas para acontecer, e se você quiser, elas começaram a
acontecer assim que o livro foi escrito!” E aquelas coisas que serão
profetizadas no fim da história não levarão muito tempo, porque mil anos para
Deus são como um dia, como ontem. No entanto, no registro do Apocalipse, meus
amigos, as coisas que acontecerão começam como uma corrente que se estende até
o fim da história. Isso, "brevemente", significa um começo rápido,
não necessariamente um cumprimento dessas revelações, mas uma revelação
constante e contínua e o cumprimento total dessa revelação será o fim.
O
início e o fim desses eventos são vistos, portanto, sob o espectro de uma e
mesma imagem. O que é significativo é que esse "deve" pré-cristão, que vimos em Daniel e nos outros profetas,
é indefinido em termos de tempo, enquanto o "deve" cristão é preciso e urgente em seu tempo. Por exemplo,
Deus diz a Abraão, dois mil anos antes de Cristo, que ele será pai de uma
grande nação, e por Revelação revela o Messias a Abraão. Quando lemos sobre
essas coisas no Antigo Testamento, temos a sensação de que esses eventos
ocorrerão em um futuro muito, muito distante. Não há prazo definido, por maior
que seja o tempo; é indefinido. No entanto, essas profecias não mostraram
urgência - nenhuma urgência, materializada em dois mil anos! Cristo veio dois
mil anos depois de Abraão! Agora lembre-se, o "deve" pós-cristão nos diz que essas coisas acontecerão
rapidamente, o que nos dá um sentimento de urgência. O professor Bratsiotis
diz: "É como se pudéssemos ouvir e sentir o galope dos próximos eventos,
como o galope de cavalos que podem ser ouvidos quando os cavaleiros se
aproximam de uma cidade". Agora entende-se que esses eventos estão a
caminho rapidamente e, no entanto, dois mil anos se passaram! Então podemos
fazer a pergunta: "O fim da história pode estar próximo ou pelo menos o
começo do fim?" Talvez, meus amigos.
Ancião Atanásios(Mitilinaios)
tradução:
Hipodiácono Paísios