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sábado

A Tentação e o Nascimento da Filosofia - Arquimandrita Rafael (Karelin

 






Por Arquimandrita Rafael (Karelin)

Deus dá um Mandamento ao homem. Um Mandamento é uma revelação na forma de um imperativo. Deus revela Sua vontade ao homem, e ele deve acreditar que essa vontade é uma bênção. Um mandamento limita o homem externamente, mas internamente aprofunda seu ser e abre novas oportunidades de aperfeiçoamento moral, de obediência a Deus e, por meio da obediência, de unidade com Deus.

Em seguida, ocorre uma catástrofe na história do mundo - a tentação do homem pela serpente e sua queda. O demônio convence Eva de que o mandamento de Deus foi dado para privar as pessoas da chance de governar sua própria existência e (priva-los) de receber a dignidade, as prerrogativas e o poder de Deus. Eva vacila. Dois impulsos surgem em sua alma, dois princípios que se opõem e lutam entre si. Aqui está o início do dualismo moral. Eva rumina sobre as palavras da serpente. A fé na Revelação, dada na forma de um Mandamento, opõe-se ao ceticismo na forma de racionalismo (ou racionalismo na forma de ceticismo). A contemplação das primeiras pessoas é substituída pelo racionalismo analítico. Começa a ruptura do próprio espírito humano; a mente deixa de ver a essência dos objetos e se volta para o estudo das propriedades e qualidades, como se deslizasse por suas superfícies, analisando e sintetizando os fenômenos que ocorrem. Eva faz objeção ao demônio, mas a objeção em si é de natureza racionalista: Ela fala sobre as consequências dos pecados, mas não sobre sua essência. Aqui o racionalismo assume a forma de pragmatismo. O demônio promete aos nossos antepassados que eles serão como Deus. Essa sedução da igualdade com Deus é repetida em várias formulações por todos os sistemas panteístas. A mentira de Satanás sobre a igualdade do homem com Deus é ouvida em sistemas filosóficos e religiosos, nos quais se atribui ao homem a consubstancialidade, a unidade de natureza com a Divindade, ou o próprio homem é considerado uma modalidade de Deus. O chamado de Satanás encontrou uma resposta e uma resposta não apenas no coração de Eva, mas no falso misticismo, nas teurgias pagãs e nas orgulhosas alegações filosóficas.

Satanás diz a Eva: “Vocês serão como deuses”. Aqui está o primeiro indício de politeísmo - a existência de alguns deuses desconhecidos. Os falsos deuses são demônios, portanto, tornar-se “como deuses” significa tornar-se semelhante e até mesmo igual aos demônios por meio da desobediência a Deus e do pecado. O próprio paganismo surgiu da teomaquia e representa a história da demonologia.

Eva viu que os frutos da árvore eram bonitos e bons para comer. O que significa que ela “viu?” - ela olhou com olhos diferentes, desviando de Deus os olhos internos de sua alma, e viu o mundo fora de Deus, a criação fora de seu Criador. Se antes o cerne da vida do homem era o Mandamento de Deus, que definia sua vida interior e exterior, agora o próprio homem avalia o fenômeno do mundo e determina sua atitude em relação a ele. A árvore é adequada para a alimentação. Ela deixa de ser um símbolo de obediência, perde seu significado metafísico e se transforma em um simples objeto. Aqui vemos uma nova atitude em relação à vida - positivismo. Eva vê que a árvore é agradável aos olhos. Tendo se afastado de Deus, tendo perdido a contemplação da beleza divina, a alma busca a beleza nos objetos deste mundo. Aqui está o início de uma nova abordagem do mundo, uma nova visão do mundo, conhecida como esteticismo ou cosmofilia.

Eva colhe o fruto. O pragmatismo supera a fé, e esse pragmatismo mortal se torna um dos principais eixos da história humana. Deus amaldiçoa o demônio e o condena a rastejar no pó da terra sobre o próprio ventre. Aqui, por meio da maldição do demônio, a mais vulgar de todas as visões de mundo é revelada: o materialismo. O materialista vê apenas a materialidade - essa poeira e cinzas cósmicas nas quais sua mente gira. Ele “rasteja sobre seu ventre”, ou seja, ele não vê o céu: O mundo espiritual e transcendental está fechado para ele. Aqui a física devorou completamente a metafísica. O materialista rasteja sobre seu ventre, ou seja, ele busca um fundamento material em toda parte; para ele, a alma é apenas uma função do corpo - uma estrutura construída posteriormente sobre o estômago que surgiu no processo de evolução. Portanto, os materialistas, desde Epicuro e Marx até os dias atuais, carregam a maldição da serpente - rastejar pela terra e não ver o céu.

Assim, na narrativa bíblica sobre a tentação dos antepassados, temos a história dos principais sistemas de visão de mundo contidos, como em um código genético, com os quais o homem tentou e tenta preencher o poço sem fundo em sua alma - a perda de Deus

quinta-feira

"O que distingue a verdadeira compaixão do sentimentalismo" - Arquimandrita Rafael (Karelin)




por Arquimandrita Rafael (Karelin)



A verdadeira compaixão se baseia no amor ao próximo: o amor torna a outra parte, por assim dizer, outro “eu”, um com você. (Já) o sentimentalismo está fundamentado no amor próprio: ele nos entristece não como resultado do sofrimento da outra pessoa, mas sim por causa de nosso próprio humor arruinado; em vez de nos esforçarmos para acabar com o sofrimento no mundo, nos esforçamos para tirar as imagens do sofrimento de nosso campo de visão.


A arte e a literatura predispõem a alma humana à imitação, ao envolvimento emocional em uma determinada situação. Aquele que se acostuma a sentir o estado emocional dos personagens nos palcos, nas séries de TV e nos romances, começa a funcionar como ator, “representando a vida”. A arte incentiva o desenvolvimento de uma fluidez elevada no estado da mente - muitas vezes em um nível patológico - e a transferência emocional para a imagem que se está enfrentando. 


O amor sofre pela outra pessoa; ele sofre porque essa pessoa está sentindo dor. O sentimentalismo sente dor por si mesmo; sente dor porque uma imagem negativa do sofrimento de outra pessoa invadiu sua consciência e evocou emoções negativas e desagradáveis.


O amor é baseado em um desejo pelo bem do próximo, enquanto o sentimentalismo se baseia em um desejo de conforto emocional pessoal. A pessoa (sentimentalista) vê o sofrimento do próximo como uma dissonância desagradável em sua paz emocional pessoal. Uma pessoa sentimentalista não pode amar; ao contrário, ela pode se apaixonar, criar ídolos para si mesma, servi-los e, com eles, preencher sua alma. A outra face do sentimentalismo é a crueldade. Para uma pessoa sentimentalista, o que está além dos limites da experiência direta é estranho e inconsequente. Em “ O Pequeno Príncipe”, de Saint-Exupery, o autor desabafa: “Se minha pequena estrela se apagar, que me importa toda a Criação?”. Em outras palavras, aquela estrelinha pela qual me apaixonei é mais importante para mim do que toda a Criação.


Uma pessoa sentimentalista está pronta para chorar ao ver um cachorro doente e, ao mesmo tempo, permanece surda e indiferente ao sofrimento de milhões de pessoas, contanto que não tenha que ver o sofrimento delas. Sentimentalismo não é amor, mas sim impressionabilidade mórbida, histeria crônica e reprimida que toma o lugar do amor.