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sexta-feira

Por que os cristãos do Oriente estão perdendo a terra de seus Santos? - Arquimandrita Gregorios (Estephan)

 



No Antigo Testamento aprendemos duras lições: por que Deus abandonou Seu próprio povo e o entregou nas mãos de seus inimigos, fazendo com que ele não apenas diminuísse, mas também fosse completamente exilado de sua terra, que passou a ser habitada por nações estrangeiras? 

A razão é dupla: Primeiro, a violação da fé, ou seja, o abandono da adoração ao Deus Único e Verdadeiro, e a queda para a adoração dos deuses das nações. Segundo, a violação dos Mandamentos divinos. E essa violação é a consequência inevitável do afastamento do Deus Verdadeiro. Quando as doutrinas que nos identificam quem é Deus são alteradas, os Mandamentos relacionados a Ele também mudam automaticamente.

No Novo Testamento, a questão do Deus Único e da pluralidade de deuses torna-se doutrinariamente encarnada no assunto da Igreja Única versus a multidão das chamadas igrejas. Cristo veio ao mundo e nos deixou uma Igreja e uma Fé; e essa tem sido a luta da Igreja até os dias de hoje: como preservar a verdade da Igreja Única, que é o Corpo de Cristo que não pode ser dividido. Se a Igreja não tivesse condenado diligentemente todo ensinamento distorcido e herético em seus Santos Concílios, ela não seria mais a Igreja. Cada pessoa acreditaria em um Cristo criado por ela mesma, e o cristianismo se tornaria uma religião pagã. Cristo está presente porque a Fé Apostólica ainda está presente e preservada na Fé Ortodoxa.

Assim, Deus abandona Seu povo quando Seu povo O abandona, porque Ele respeita a liberdade sagrada que deu ao homem. O principal problema é de fé, não de política ou economia. Os cristãos vendem a terra de seus pais e emigram porque seu senso de fé se enfraqueceu. Eles emigram devido à falta de fé, à falta de confiança em Deus e à falta de confiança em Sua providência - ou porque pensam apenas em riqueza material, não em riqueza espiritual. Uma Igreja espiritualmente fraca, que se rende ao espírito desta era, é completamente incapaz de fornecer qualquer alimento espiritual a seu povo. É por isso que a incredulidade se espalha entre as pessoas, que então migram, caem em muitos pecados e apostatam de Cristo.

Toda a corrupção, as doenças psicológicas e as influências demoníacas que estão aumentando de forma alarmante entre as pessoas - irresponsabilidade, aumento das taxas de divórcio, afastamento do casamento e, se elas se casam, deixam de ter filhos por medo do futuro - tudo isso é causado principalmente pela falta de fé. A Verdadeira Fé significa a entrega total a Deus diante dos obstáculos da vida. 

Quando nos arrependemos e obedecemos aos Mandamentos da Fé, essa certeza nasce dentro de nós: a de que Deus está conosco e em nós, e nunca nos abandonará. O arrependimento sempre esteve ligado à fé. Deus permite guerras e perseguições severas contra Seu povo, não para que eles temam e abandonem a terra de seus Santos, mas para provar sua fé e lembrá-los do arrependimento.

Ao longo da história, os cristãos deste Oriente sofreram perseguições muito mais severas do que as de hoje. Mas eles as enfrentaram com a simplicidade da fé e do arrependimento. Eles permaneceram em sua terra, não porque não pudessem emigrar - pois a conversão à religião de seus perseguidores muitas vezes vinha acompanhada de incentivos materiais e emocionais muito maiores do que a emigração moderna - mas porque sua firmeza não era fruto da força humana, mas de um poder divino invisível, da Graça de Deus. Nossos antepassados que nos transmitiram a fé nesta região eram humildes e gratos. Assim, eles aceitaram as perseguições como uma dispensação divina para conhecerem seus pecados e se arrependerem. Com profundo arrependimento e contrição, eles se voltaram para Cristo e para as intercessões de seus santos. Na simplicidade de sua fé e em sua firmeza nela, eles cresceram em arrependimento e amor a Deus, pois experimentaram em primeira mão a ajuda de seu Cristo, de sua Virgem e de todos os seus Santos, e a pronta resposta de suas orações.

Muitos bispos e padres de hoje, em vez de pregarem sobre fé e arrependimento, geralmente pregam contra o "fanatismo religioso." Consciente ou inconscientemente, eles matam a fé no coração de seu povo. A adesão persistente às doutrinas exatas da fé não é fanatismo - é um mandamento de Deus e dos Concílios da Igreja. Somente a fidelidade às leis da (Verdadeira) Fé pode nutrir a fé do povo e preservar a Igreja de erros e desvios. Os sermões que se concentram apenas na moralidade, negligenciando as questões da fé, espalham uma crença superficial entre as pessoas. A fé superficial em Deus não possui arrependimento algum e morre gradualmente na alma, pois não possui profundidade espiritual.

Esse arrependimento deriva da fé, não de nós mesmos. E a força da fé recebemos de Deus, não dos homens. O poder de Deus está presente exclusivamente em Sua Igreja. Na verdade, o Espírito sopra onde quer, mas não para levar ao erro ou ao desvio aqueles em quem Ele opera, e sim para conduzi-los à verdade e à única Igreja verdadeira, que detém a plenitude da verdade.

A Igreja é a primeira responsável por tudo o que acontece ao seu povo. A obediência do bispo e do padre à Igreja e sua fé, é o que ensina o povo a amar a Igreja e a ser-lhe obediente. O arrependimento do bispo e do padre ensina o seu povo a arrepender-se, e a amar a Deus e os Seus Mandamentos. Os verdadeiros fieis, quando veem seu bispo obediente às leis e à fé da Igreja, se alegram com ele e lhe obedecem com gratidão. Mas quando o veem transgredindo, sua confiança nele — e na Igreja — é abalada. Os bispos e os padres são aqueles que mais precisam de arrependimento. Eles devem chorar por seus pecados e pelos pecados de seu povo. Eles não são senhores desta era, mas penitentes. O arrependimento abre os olhos internos de sua mente (nous) e para conhecer a vontade de Deus: que [nos mostra que] a crise que os cristãos estão enfrentando neste Oriente está enraizada na fé e no abandono de Deus, não em circunstâncias opressivas ou na política mundial.

Por que os cristãos estão perdendo sua presença neste Oriente? Não é porque estão perdendo a Graça de Deus? E o que confirma essa perda da Graça é sua rendição ao espírito do ecumenismo e da modernização. Esse espírito ecumenista mata o arrependimento na alma humana, porque antes mata o amor pela fé Ortodoxa nessas almas. Na Ortodoxia, o amor de Deus vem de uma única fonte: a Igreja e sua fé. O amor de Deus não é emocional, como os racionalistas o retratam, mas divino — é o fruto da efusão da Graça Divina em uma alma que é fiel a tudo o que Deus revelou à Sua Igreja.

O Deus dos Ortodoxos não é deste mundo. Ele não busca números para se vangloriar em poder ou glória fútil. Ele busca testemunhas de Si mesmo e da Verdade eterna que confiou à Sua Igreja. Deus nos abandona - Seu próprio povo - porque nos tornamos um povo teimoso que se rende ao espírito dos tempos. Um povo que não quer preservar a fé que lhe foi transmitida ou prestar testemunho da Verdade. Não digam que nos tornamos poucos neste Oriente; nosso Cristo não trabalha por meio de multidões ou números, mas por meio da Verdade. É por isso que Ele disse: “Eu vim ao mundo para dar testemunho da Verdade”. A emigração de nosso povo indica abandono mútuo: as pessoas se afogam na globalização religiosa e não dão testemunho da Verdade, e o resultado inevitável é que Deus as abandona.

Quando o povo do Antigo Testamento temeu por sua existência e fez alianças com nações estrangeiras para garantir sua terra, Deus o abandonou e o dispersou. Mas quando eles reconheceram seu pecado e apostasia, arrependeram-se e confiaram somente em seu Deus, Ele os restaurou à sua terra e os multiplicou nela.

Será que nós, neste Oriente, voltaremos a confiar somente no Deus de nossa fé Ortodoxa - a única fé que nunca foi alterada ou transformada? Que nos seja concedida uma parte desse arrependimento, e que Deus se lembre de nós em nossa terra, preserve o remanescente entre nós e nos multiplique novamente nela.

Assim como a salvação eterna requer apenas fé Ortodoxa e arrependimento sincero, também nossa presença contínua neste Oriente depende desses dois elementos: fé Ortodoxa pura e arrependimento Ortodoxo.

Fortaleça seu povo em sua Ortodoxia, ó bispos e sacerdotes de Deus, para que Deus possa fortalecê-lo em sua terra. Não permitam que a fé e a salvação sejam reduzidas a conceitos sociais-humanistas, mas que permaneçam divinas, pois são do Senhor e para Ele. Não misturem nossa sagrada Ortodoxia com todos os desvios nascidos do orgulho humano. A Ortodoxia é Verdade e é Luz. Ela é uma Luz para as nações que buscam a Verdade. Que essa luz brilhe para o mundo. O mundo precisa dessa luz para contemplar o Verdadeiro Deus; o mundo precisa da Verdade como uma escada confiável para a salvação. Deus é Aquele que nos colocou neste Oriente, com muitos talentos espirituais, para prestarmos testemunho do verdadeiro Deus. Não os enterremos. Transformemos esta terra, na qual nos esforçamos para permanecer, de uma terra de apostasia em uma terra abençoada por testemunhar a Verdade e a fé de nosso Senhor Jesus Cristo.


terça-feira

Homilia do Domingo das Mulheres Portadoras de Mirra: Permaneceremos em Silêncio? - Arquimandrita Gregórios (Estephan)

 




Arquimandrita Gregorios(Estephan) – Hegúmeno do Mosteiro da Dormição da Mãe de Deus - Bkefitine



Domingo das Mulheres Portadoras de Mirra, 19 de maio de 2024

Cristo ressuscitou dos mortos, pisoteando morte pela morte e concedendo a vida aos que estavam nos túmulos.


Hoje, no segundo domingo após a Páscoa, comemoramos as Mulheres Portadoras de Mirra, que, como nos dizem as Escrituras Sagradas, dedicaram-se a servir ao Senhor Jesus Cristo. Elas O seguiram, O serviram e serviram a Seus discípulos.


Depois que Deus criou Adão e lhe concedeu autoridade, Ele criou Eva para ser a auxiliadora de Adão. Assim, Deus designou um serviço para o homem e outro para a mulher, de modo que eles se complementassem. A Igreja seguiu essa ordem que Deus determinou para Sua criação. Entretanto, em nossos dias, testemunhamos uma inversão dessa ordem e uma distorção do sistema que Deus estabeleceu desde o início da criação.


Hoje, vemos uma promoção dentro de círculos da Igreja em favor do sacerdócio feminino, tanto por parte de clérigos quanto de leigos. Recentemente, ouvimos falar da ordenação de uma diaconisa na Igreja Ortodoxa do Zimbábue, que está sob o Patriarcado de Alexandria. Essa diaconisa participa do serviço litúrgico, lendo súplicas e administrando o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo aos fiéis. Deve-se observar que as diaconisas na Igreja primitiva eram semelhantes às mulheres portadoras de mirra, e seu serviço se limitava a auxiliar os bispos no Batismo de mulheres e ungi-las com o Santo Crisma, para que o bispo não tocasse o corpo da mulher. Naquela época, muitos dos que se convertiam ao cristianismo eram adultos. Entretanto, à medida que o cristianismo se espalhou mais amplamente no império, a necessidade desse serviço diminuiu, pois o batismo infantil se tornou mais comum do que o de adultos. Desde então (já nos primeiros séculos), a ordenação de diaconisas cessou na Igreja.


Atualmente, há uma promoção de práticas estranhas dentro da Igreja que nunca fizeram parte de sua história ou tradição. Essas ordenações são inovações que beiram a heresia. Ouvimos vozes exigindo igualdade entre homens e mulheres, como se a Igreja tivesse prejudicado as mulheres ao atribuir-lhes um papel específico. Vemos uma inversão de papeis, uma inversão de funções. Deus, como eu disse no início, designou a cada um o seu papel, mas agora todos procuram assumir o papel do outro. Também vemos uma promoção significativa da homossexualidade, do transgenerismo e da ordenação de mulheres, por parte de clérigos e leigos ortodoxos. Os bispos e sacerdotes são nomeados por Deus como ministros de Sua palavra e administradores da Tradição da Igreja.


Qualquer bispo, sacerdote ou leigo que traia essa confiança e distorça a Fé e a Santa Tradição da Igreja é um servo de Satanás, não de Cristo. Não há meio-termo no cristianismo. Cristo disse: "Ou você está Comigo ou com o demônio". Qualquer um que distorça a fé e a Tradição, e profane os Santos Mistérios, como fez o bispo Ortodoxo da Arquidiocese americana, sob o Patriarcado Ecumênico, ao batizar uma criança adotada por um "casal" do mesmo sexo, é um servo de Satanás e um profanador dos Mistérios da Igreja.


Isso é o que está acontecendo em nossos dias, e espera-se que mais aconteça. Lemos na Bíblia sobre um tempo de apostasia. Essa apostasia é um afastamento da Verdadeira Fé em Jesus Cristo, o Verdadeiro Deus, e a promoção de um Cristo distorcido. Os bispos e sacerdotes que promovem um Cristo distorcido são servos dos governantes desta era, servos de uma nova ordem mundial que busca mudar toda a ordem da criação, e servos do espírito de uma era que deseja modernizar a Igreja, a Igreja celestial de Cristo, e transformá-la em uma instituição mundana, que em nada se diferenciaria de outras instituições, organizações e partidos do mundo.


A Igreja deve permanecer fiel a tudo o que recebeu de Cristo, assim como as Mulheres Portadoras de Mirra, que não se desviaram da obediência de Cristo e não inovaram em nada, mas serviram ao Senhor e a Seus apóstolos com todas as suas forças. Os apóstolos de Cristo pregaram e ministraram os Sacramentos, tornando-se o alicerce para a expansão da Igreja de Cristo.


Cada um de nós deve enfrentar esse espírito mundano e satânico que busca destruir toda a Tradição da Igreja e os fundamentos da fé. Atualmente, estamos testemunhando um perigoso afastamento da fé. Ainda mais perigoso é o silêncio. Qualquer bispo ortodoxo que permaneça em silêncio sobre o que está acontecendo é cúmplice dessa ação. A missão primordial de um bispo é preservar a fé e, se ele permanecer em silêncio, estará, voluntariamente ou não, sendo cúmplice dessa traição. Aqueles que são designados como guardiões da fé tornam-se profanadores da fé e dos Mistérios da Igreja, celebrando tudo o que contradiz a Santa Tradição da Igreja, tornando-se assim mercenários do espírito deste século.


Todos aqueles que contribuem para isso não conhecem a Tradição nem vivem de acordo com ela. Eles querem uma Igreja que aceite todas as heresias e transformações desta época. Assim, eles se tornam filhos de um espírito satânico e servos de Satanás, que busca enfraquecer a Igreja de Cristo para impor seu governo e sua lei neste mundo.


A Igreja é fortalecida por sua fé e pela preservação da Santa Tradição. É assim que ela permanece fiel a Cristo e enfrentará os governantes desta era. Mas se for permitidos que as heresias entrem e destruam a fé, as portas do inferno a dominarão. Isso é o que Satanás e seus agentes desejam dos bispos, sacerdotes e leigos que sucumbiram ao espírito deste século.


Não se deixe influenciar por todas essas coisas resultantes da lógica humana, que exige de nós um amor falso. O verdadeiro amor está em Cristo e é o fruto da Verdadeira Fé nEle. Quem não acredita em Jesus Cristo só pode amar a si mesmo. Quem ama a Cristo será fiel a Ele, aos Seus mandamentos e à Tradição da Igreja. É assim que amamos a Cristo e amamos uns aos outros, submetendo nossa vontade à vontade de Cristo e nos tornando servos fiéis.

   
milenar Mosteiro da Dormição da Mãe de Deus - Bkfitine - Líbano


Por Que os Cristãos Não se Arrependem nos Dias de Hoje? - Arquimandrita Gregórios (Estephan)




Arquimandrita Gregorios(Estephan) – Hegúmeno do Mosteiro da Dormição da Mãe de Deus - Bkefitine


Por que as nações se desintegram e novas nações surgem? Por que muitas nações cristãs desapareceram, sendo substituídas por nações pagãs? Nos últimos tempos, quando o mundo inteiro conspirar contra o Senhor e Seu Cristo, o cristianismo lutará pela sobrevivência. Isso exigirá a adesão à Verdadeira Fé em Jesus Cristo.


Por que Deus está abandonando Seu povo? Talvez porque Ele seja um Deus vingativo? Certamente que não! Pelo contrário, Ele é o Deus perfeito que deseja filhos perfeitos, que anseiam por alcançar a perfeição; filhos que guardam fielmente Seus mandamentos e se apegam à fé que foi colocada em suas mãos. Nosso Deus quer apenas uma coisa de Seu povo: fidelidade. Ou seja, Ele deseja que eles O obedeçam com fé e não mintam para Ele; que não finjam devoção enquanto vivem em pecado; que não falem sobre abnegação enquanto vivem egoisticamente com desejo de poder e vanglória; que não se orgulhem da Ortodoxia enquanto a traem em seus diálogos.


O Senhor pede que Seu povo seja fiel a Ele, e somente uma coisa preserva essa fidelidade na alma humana: o arrependimento. O arrependimento é o retorno incessante a Deus. Seus sinais são um espírito contrito e humilde, que abandonou todas as coisas terrenas e busca a misericórdia de Deus com toda a sua mente. Quando o povo se afasta de Deus, Ele o disciplina, não como um ato de vingança, mas para torná-lo consciente de seu pecado, para que possa se arrepender. Desde os tempos do Antigo Testamento, Deus tem dito ao Seu povo: Convertei-vos, agora, cada um do seu mau caminho, e fazei boas as vossas ações, e não sigais a outros deuses para servi-los (Jer. 35:15).


O cristão vai atrás de outros deuses de duas maneiras: quando aceita a heresia como verdade e quando segue o espírito do mundo e se rende à sua maneira de pensar.


Deus sempre desejou que tivéssemos uma fé pura nEle - a fé saudável que Ele revelou ao Seu povo e que leva à salvação. Entretanto, alguns distorceram essa fé e brincaram com ela. O surgimento de heresias e inovações dogmáticas está fortemente relacionado às paixões humanas corruptas, especialmente o orgulho. Desse orgulho maldito e da desobediência surgiram todas essas chamadas "igrejas". As paixões cheias de maldade e arrogância, como o orgulho - que se alimenta do amor-próprio - e as paixões de desejo de poder e vanglória, que são infladas pelo amor às coisas terrenas e obscurecem totalmente a alma, fazendo com que ela interprete os dogmas da fé pelas lentes de sua própria vontade e pensamentos. Essa escuridão espiritual afasta a alma do espírito de contrição e arrependimento. É exatamente por esse motivo que Deus despreza a heresia e a condena, chamando-a de blasfêmia imperdoável contra o Espírito Santo. Ela é uma reminiscência do orgulho primordial que desfigurou o caminho da salvação; ela também impede que a alma se arrependa e seja salva.


O espírito do mundo enfraqueceu a vontade do homem e dispersou sua mente, tornando-o incapaz de se lembrar de Deus no coração. Esse espírito substituiu os valores e as virtudes que eram usados para educar as crianças (como o autocontrole) por vícios (como a entrega a paixões imundas e a obediência aos desejos do corpo e às tendências animalescas). Esses vícios se tornaram deuses para o homem, substituindo o único Deus verdadeiro. Quando o homem adota o espírito da era moderna e permite que ele domine seu pensamento, sua vontade é despedaçada e sua mente fica paralisada: ele deixa de estar atento à Verdade e é incapaz de adquirir o espírito de arrependimento.


Em toda Escritura, Cristo insistiu em separar o espírito do mundo do Espírito de Deus. O espírito do mundo semeia o desdém pela Verdade eterna e suas coisas sagradas, enquanto incita subliminarmente o pecado e o ateísmo na mente do homem. Portanto, aqueles que se esforçam para modernizar a Igreja, seu phronema (mentalidade) e sua práxis (modo de vida), são os primeiros inimigos de Cristo, pois misturam a verdade com a ilusão, que Cristo se esforçou para separar.


A própria Igreja, que possui esse profundo senso da Verdade Divina transmitida ao longo de sua história, tem se rendido ao espírito do mundo ultimamente. Quantos, mesmo entre os fiéis, estão incentivando a adoção das reformas doutrinárias e morais produzidas pelo espírito do mundo! Pessoas como essas não reconhecem a existência de heresias, inovações ou mesmo demônios, nem acreditam em uma Igreja ou mesmo em um Deus.


Quem afirma que a Verdade é encontrada em todos os lugares, mesmo fora do cristianismo, está realmente cego, amortecido para a Verdade; ele se tornou um instrumento adúltero para o demônio da ilusão. Como esse homem pode se arrepender? Quando o senso da Verdade única morre em nós, o próprio Deus morre em nós.


O arrependimento requer muita humildade, para que o homem possa estar ciente de sua pecaminosidade e contemplar a Verdade Divina. É por isso que São João Clímaco diz que é impossível encontrar humildade nos hereges: Toda heresia, mínima ou flagrante, é fruto do orgulho e da arrogância demoníaca. O principal perigo do movimento ecumênico moderno é que ele reforça na alma humana o orgulho e as convicções, em vez de incentivá-la a se arrepender e buscar a verdade. O dom da verdade é concedido pelo Deus da Verdade aos penitentes que abandonam sua vontade própria e seus próprios pensamentos e buscam a Verdadeira Fé com oração incessante.


A Igreja não mente. Em vez disso, os mentirosos são aqueles que tentam misturar a verdade com a falsidade, justificando suas violações da fé. Os orgulhosos não se arrependem, não importa quão louváveis sejam suas ações terrenas ou quão grande seja sua benevolência, porque eles glorificam a si mesmos, e não a Deus. Quanto aos humildes, eles se arrependem porque se conhecem verdadeiramente e se entregam incondicionalmente a Cristo pela fé. O grande pecado do homem não está na transgressão de um único mandamento, mas em seu orgulho e insubordinação à Igreja e a seus ensinamentos verdadeiros.


Nem todas as pessoas orgulhosas são hereges, mas é possível que todos os hereges sejam orgulhosos. O Senhor não permite que os humildes se afundem na ilusão ou sofram a condenação eterna, mas fornece a eles os meios para conhecer a verdade e permanecer firmes nela. Todas as heresias ao longo da história e todos os ensinamentos opostos àqueles transmitidos à única Igreja não passam de uma aniquilação do Deus verdadeiro, substituindo-O por um falso. E que comunhão pode existir entre Cristo e esses falsos deuses demoníacos? Quando o nosso Cristo retornar à Terra, Ele encontrará uma infinidade de "igrejas", falsamente assim chamadas, que possuem uma fé desonesta, por isso Ele pergunta: Porventura [o Filho do homem] achará fé na terra? (Lc. 18:8) Isso se deve ao fato de que uma fé desfigurada e distorcida não é fé alguma. Uma fé fora da Igreja Una e Apostólica nunca pode levar a um conhecimento vivo do Deus Vivo e Verdadeiro.


Deus se afastou de Seu povo nestes últimos tempos; Ele está se afastando de Seu rebanho, que pastoreou, fortaleceu e multiplicou no passado, mesmo nas eras mais sombrias de perseguição e tirania dos obreiros do diabo. Nossa terra está se tornando desprovida de Cristo e de Seus verdadeiros ungidos; esta terra, cujo solo era santificado pela adoração incessante do Senhor e de Seu Cristo, tornou-se a terra da apostasia. Por quê? Porque as pessoas abandonaram a fé de seus antepassados e a simplicidade da vida de piedade. Eles pensaram que a sobrevivência nesta terra dependia de fazer alianças com os deuses de nações estrangeiras, em vez de se apegarem à Verdadeira Fé.


Esse povo pecou diante de Deus. Eles estão se fundindo gradualmente ao espírito do mundo e ao da globalização e não querem se arrepender. Onde estão os líderes da Igreja que estão se arrependendo de todas essas transgressões? Arrependendo-se por si mesmos e por seu povo? Onde estão aqueles que usam pano de saco e acrescentam jejuns sobre jejuns para serem um exemplo para seu povo em arrependimento, santidade e Ortodoxia? Os hereges - descendentes de Balaão - profetizam para nosso povo e o afogam ainda mais nas ilusões que estão por vir, enquanto os líderes permanecem em silêncio.


"E já ninguém há que invoque o teu nome, que se desperte, e te detenhas; porque escondes de nós o teu rosto, e nos fazes derreter, por causa das nossas iniquidades..." Não te ires demais, ó Senhor! Não te lembres constantemente das nossas maldades. Olha para nós! Somos o teu povo!
As tuas cidades sagradas transformaram-se em deserto. Até Sião virou um deserto, e Jerusalém, uma desolação! O nosso templo santo e glorioso, onde os nossos antepassados te louvavam, foi destruído pelo fogo, e tudo o que nos era precioso está em ruínas; e depois disso tudo, Senhor, ainda irás te conter? Ficarás calado e nos castigarás além da conta? (Is. 64:7, 9-12)

Tornai-vos para mim, e eu me tornarei para vós, diz o Senhor dos Exércitos (Malaquias 3:7, Zacarias 1:3). O arrependimento genuíno, que nos inspira a chorar por nossos pecados, é sempre um sinal de firmeza inabalável na Verdadeira Fé; somente o arrependimento é capaz de nos tornar uma descendência abençoada que Deus multiplicará.

quarta-feira

O Farisaísmo e a Adoração a Deus - Arquimandrita Gregórios (Estephan)

 



Arquimandrita Gregorios(Estephan) – Hegúmeno do Mosteiro da Dormição da Mãe de Deus - Bkefitine


Nestes quatro domingos que antecedem o Grande Jejum, que são preparatórios para a Grande Quaresma, a Igreja nos apresenta os princípios fundamentais sobre os quais devemos edificar o nosso jejum de quarenta dias.

No primeiro domingo, chamado domingo do Fariseu e do Publicano, a parábola bíblica nos revela o espírito com o qual devemos jejuar e orar durante a Quaresma. O significado essencial desta passagem bíblica gira em torno de dois temas essenciais: orgulho e presunção, por um lado, e humildade e arrependimento, por outro. Os dois primeiros nada mais são do que uma adoração podre e falsa a Cristo, enquanto os dois últimos são os fundamentos da salvação em Cristo. Nossa salvação depende de como adoramos a Deus. Nossa adoração a Deus pode nos justificar, mas também pode nos condenar. Na Igreja, adoramos o Deus Verdadeiro, mas nossa adoração pode se tornar egocêntrica.

Na Igreja, o farisaísmo tornou-se um símbolo de orgulho e altivez. Alguns o utilizam de um ponto de vista moralista para indicar uma epidemia na sociedade; outros o utilizam para descrever qualquer pessoa que não concorda com suas posições e pensamentos.

Cristo rejeitou o orgulho farisaico e o julgou, não apenas porque o orgulho destrói toda virtude no crente, mas porque destrói todo senso de verdade que existe nele. O início do orgulho aparece no julgamento aos outros, na autojustificação e na presunção. O pecado da autojustificação é a antítese do arrependimento; não apenas faz um homem julgar-se justo aos seus próprios olhos, mas também alimenta seu egoísmo e apego aos seus próprios pensamentos e vontades.

Essas paixões graves são um véu sobre nossos olhos espirituais. É precisamente por isso que o fariseu não viu a necessidade de buscar a misericórdia de Deus e o perdão dos seus pecados. E quem vê apenas a sua própria justiça julga os outros com facilidade e os despreza. É por isso que toda queda na história e toda heresia que cresceu (e cresce) no mundo foi causada, principalmente, pelo orgulho farisaico e a convicção da autojustiça.

O homem nunca se humilhará e sentirá o peso de seus pecados enquanto contar seus feitos e se orgulhar de suas grandes obras. A enumeração de feitos e o orgulho deles é o principal combustível para o orgulho. E a maioria dos cristãos vive uma espécie de “cristianismo social” que alimenta o espírito do egoísmo, de modo que facilmente caem nas paixões da presunção, da vanglória, do orgulho… e da heresia.

Cristo quis nos advertir de cair nessas paixões mortais quando Ele disse: Ai de vós, quando todos os homens falarem bem de vós! (Lucas 6:26)

Do ponto de vista da fé, o verdadeiro farisaísmo compreende essa escuridão em que a alma orgulhosa cai, de modo que ela não faz mais distinção entre o que é do Espírito de Deus e o que é do espírito do diabo. Essa alma torna-se incapaz de discernir a verdade da ilusão. Só os humildes são verdadeiramente espirituais, porque obedecem à Igreja, à sua fé e aos seus cânones, e Deus concede-lhes o dom do discernimento e a capacidade de separar o que é verdadeiro e o que são os falsos ensinamentos que desfiguram esta Verdade. Estes (humildes) são os mestres e Padres da Igreja e os defensores de sua Fé.

Esta é a luta constante entre orgulho amaldiçoado e humildade abençoada; farisaísmo e obediência; autoconfiança e arrependimento; essa luta aumentará à medida que avançamos para o fim. O pecado do fariseu não está somente na alma que se desvia da verdade, mas naquela alma a quem a verdade é revelada, mas continua insistindo em sua ilusão; e induz os outros ao erro enquanto sugere que eles estão certos. O farisaísmo é a cegueira diante da Verdade, quando a Verdade está totalmente presente diante de nós em sua plenitude. O farisaísmo não é a adesão firme à nossa fé Ortodoxa e a nomeação de hereges e falsos mestres. O farisaísmo é a adesão patológica às nossas convicções pessoais, que se opõem aos ensinamentos da Igreja e decorrem de um espírito mundano e das instabilidades da Nova Era.

Cristo não condenou o pecador, mas Ele mesmo condenou o herege, quando disse que todas as blasfêmias são perdoadas, mas aquele que blasfemar contra o Espírito Santo nunca terá perdão, mas corre o risco de condenação eterna (Mc 3:29 ). Nossos Santos Padres entendem estes "blasfemadores imperdoáveis" como hereges e falsos mestres.

O nosso Cristo é o Cristo dos humildes, que abençoa o que a Igreja abençoa e anatematiza o que ela anatematiza. Tais pessoas não pecam contra Deus, nem contra os homens, nem contra a fé, nem contra o amor.

O amor não unifica a humanidade – a fé Ortodoxa em Deus é o que unifica os homens, de uma forma interna e íntima. Quando crêem na mesma fé, tornam-se um, e o amor sela então esta unidade, mediante a participação no único Corpo e Sangue de Cristo. Quem lê sobre o caminho da Igreja em todo o Novo Testamento com uma mente humilde, vê claramente que é um caminho, com uma única fé, que nos une a Jesus Cristo – a única Verdadeira Fé que resiste a todos os ensinamentos distorcidos e tortuosos. O 'amor', como mencionam os Apóstolos do Novo Testamento, nada mais é do que a afirmação desta unidade, uns com os outros e com Deus, entre os que estão unidos pela Fé única, que se ativa na participação no Santo Corpo e Sangue de Cristo na Eucaristia.

Quanto ao amor que não se baseia nessa Fé única, é apenas um amor externo, farisaico, um amor hipócrita, como o amor que o fariseu demonstrava para com Deus e seus semelhantes na oração, no jejum e na esmola.

O fariseu pensou que era justificado por suas obras, então ele as enumerou e confiou nelas. Quanto ao publicano, ele confiava em sua fé em Deus; a força dessa fé é revelada quando ele busca a misericórdia de Deus com tal espírito contrito. A sinceridade da fé do homem é revelada pela franca confissão de seus pecados diante de um pai espiritual na Igreja, e sua fé é fortalecida ao buscar a misericórdia de Deus com inabalável insistência. E o publicano, parando de longe, não levantava sequer os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Deus, tenha misericórdia de mim, que sou pecador (Lucas 18:13).

Esses são os sinais do verdadeiro arrependimento e autoconhecimento; O profeta Davi os descreve da seguinte forma: Os sacrifícios que agradam a Deus são um espírito quebrantado;um coração quebrantado e contrito, ó Deus, não desprezarás (Sl 50:17).

O fariseu rezava como qualquer outra pessoa, mas uma oração como a dele, com um espírito altivo e inconsciente de seus pecados, é uma oração feita aos demônios, não a Deus. Aquele que ora verdadeiramente deve ser cheio de compaixão pelos outros e amor – não julgamento – pelos pecadores. O fariseu orgulhava-se de seu jejum, enquantoobjetivo do jejum é que a alma seja esmagada e humilhada, para crescer no controle dos caprichos do corpo, na purificação dos pensamentos e na renúncia às coisas mundanas. Ele se orgulhava de dizimar todos os seus bens, enquanto o objetivo do dízimo é transformar nosso egoísmo em sensibilidade para com os outros e nos libertar da avareza e do amor ao dinheiro. Este é o espírito farisaico que se opõe ao espírito humilde - que é um espírito que ama a Cristo mais do que a si mesmo. Este é o inicio de nossa jornada rumo à Páscoa. A Igreja nos ensina através desta parábola a acompanhar o jejum com humildade, para que possamos crescer na Fé, no autoconhecimento e na consciência de nossos pecados.

O objetivo do jejum é curar a alma de seus desejos corruptos, doenças espirituais e tendências perversas. Mas o jejum é estéril sem oração focada... e a oração sincera não existe sem humildade, suspiros e arrependimento.

terça-feira

"O Bom Sacerdote" - Arquimandrita Gregorios (Estephan)

 





O Bom Sacerdote

 

Arquimandrita Gregorios(Estephan) – Hegúmeno do Mosteiro da Dormição da Mãe de Deus - Bkefitine

 

O sacerdócio cristão é uma ocupação celestial, não terrena, porque o verdadeiro sacerdote é designado por Deus, não pelos homens, e o objetivo é, antes de tudo, conduzir o povo de Deus ao Reino dos Céus.

 

É dever de todo cristão buscar sua salvação, e isso requer um líder e um professor para liderá-lo e ensiná-lo a arte da salvação. O sacerdote Ortodoxo é este líder e mestre que é chamado, pela graça do sacerdócio que lhe foi confiado, a celebrar os Santos Mistérios e auxiliar os outros na sua salvação. Mas ele mesmo deve ter encontrado o caminho para sua salvação e trabalhar para isso com seriedade. Apesar da importância de todo o trabalho pastoral e do ensino do sacerdote, sua vida em Cristo e sua luta na vida de piedade e virtude precedem todo trabalho.

O trabalho principal do padre é espiritual, mas seu trabalho pode facilmente se transformar, de espiritual em atividade social, devido a dois fatores: o primeiro fator é a fraqueza em sua vida espiritual, especialmente em sua oração. O segundo fator, que vem como consequência do primeiro, é a influência de sua Paróquia, por causa da tirania do fator social sobre o espiritual, que pode ocorrer ali. É por isso que a seriedade do sacerdote de Cristo é demonstrada pelo seu empenho em santificar-se. Ele resiste não apenas a toda influência mundana e externa sobre si mesmo, mas afeta seu rebanho e dirige suas mentes e vidas de maneira espiritual, para a salvação de suas almas.

O Evangelho separou radicalmente o espírito de Deus e o espírito do mundo. É impossível resistir ao espírito do mundo na alma humana sem a vida ascética. O amor do sacerdote por Cristo é expresso por sua renúncia ao mundo e a tudo o que há nele, e também por seu desejo de oração e jejum, e sua vigilância na luta incansável contra suas paixões e pecados. A oração pessoal de um sacerdote não deve cessar, nem por um dia, nem ele deve quebrar o jejum, independentemente das circunstâncias pastorais que possa encontrar. Isso constitui um pecado e uma entrega ao espírito deste mundo e a todos os seus desejos, e uma pedra de tropeço para seu rebanho; também os encoraja a negligenciar o jejum. É por isso que o jejum é mencionado tão estritamente nos cânones sagrados.

Deus alegremente aceita o jejum de Seus sacerdotes como uma indicação de sua aversão a seus desejos pecaminosos. Ele ouve atentamente as orações daqueles que lutam por Ele, o que prova que eles O amam mais do que a si mesmos; tais sacerdotes agradam a Deus com fé e obras. Algumas pessoas pensam que nossas obras e serviço são suficientes para agradar a Deus, mas sem uma fé forte e reta em nosso Cristo, nossas obras, por maiores que sejam, não passam de um trapo de imundícia diante dEle.

O amor do sacerdote por Cristo é mais evidente no Mistério da Eucaristia. A participação neste Mistério requer pureza de corpo e alma. O padre se prepara para a Comunhão dos Mistérios através da oração e jejum da noite anterior. Ele se prepara com muito silêncio e sua regra (canon) de oração diária. O silêncio e a oração dão ao sacerdote um estado de vigilância interna, para poder examinar seus pensamentos todas as noites e purificar sua mente de todo pensamento maldoso ou ódio, especialmente em relação àqueles que o ofendem. O sacerdote deve rezar por aqueles que o ofendem e se reconciliar com eles, considerando que Deus lhe envia tais pessoas para preservá-lo na humildade. Só a humildade abundante permite ao sacerdote conhecer a si mesmo e ver suas transgressões como pecados, de modo que não as justifica, mas se arrepende delas. O arrependimento é a primeira condição para ser digno de participar dos Mistérios Divinos.

 

A Paróquia sente a virtude do padre e sua vida de piedade - se ele reza, jejua, se arrepende, perdoa e ama. Ao mesmo tempo, também sente sua ganância e todas as suas paixões. Pois a graça do sacerdócio não esconde as paixões do sacerdote. As mais perigosas entre essas paixões são os desejos da carne, o amor ao dinheiro, a ira, a vaidade, o egoísmo e o temperamento. Quanto mais fortes essas paixões estiverem dentro dele, mais inevitável será sua queda no pecado.

O início da queda de um padre é o seu afastamento gradual da confissão de suas paixões e pecados a um pai espiritual, e sua queda se cumpre quando ele se vê perfeito em tudo e não aceita nenhuma crítica de ninguém. Quando o padre perde a vida de filho, ele perde imediatamente a posição de pai. Quando os pecados se acumulam, ele não os vê mais como pecados porque satanás os justifica para ele e o faz esquecê-los, lembrando-o apenas de suas glórias. O orgulho cresce gradualmente no padre quando ele começa a aceitar pensamentos de superioridade e altivez sobre si mesmo, dados seus talentos e a honra e confiança de seus paroquianos. Recusar a honra do povo, ou mesmo desconsiderar e fugir dela é o princípio da salvação; quando (o sacerdote) se considera o menor entre os homens e indigno, sendo concedido, pela graça e compaixão de Deus, a sustentar as coisas sagradas em suas mãos e celebrar estes mistérios temíveis. Deus ama os humildes porque eles se arrependem. Ele resiste aos orgulhosos.

Na era do globalismo religioso e do sincretismo, o sacerdote não deve ceder nenhuma parte da verdade para agradar sua Paróquia, nem em termos de fé nem dos Mandamentos. Que o sacerdote confie que Deus iluminará os humildes para que possam mudar e abraçar a Verdade ensinada pela Igreja, junto com seus Santos Concílios, enquanto os orgulhosos que resistem a essa Verdade, acabam se tornando mais insistentes em suas opiniões e convicções pessoais inspiradas pelo espírito do sincretismo.

A imagem de Moisés, e das pessoas que reclamaram com ele no deserto por quarenta anos, é uma imagem das tentações que um padre que luta pela salvação de seu povo pode encontrar em qualquer Paróquia. Como o sacerdote precisa de uma alma fortalecida pela Graça, para não fraquejar e sucumbir, ele precisa rezar incessantemente para que o Senhor ilumine seu povo no conhecimento da Verdade, implorando com lágrimas [para] que [eles] se arrependam e que encontrem a salvação. A oração de arrependimento atrai a graça do Espírito Santo, de modo que Deus é o líder deste povo, enquanto o sacerdote nada mais é que um instrumento de Deus, como outro Moisés. O sacerdote deve sempre desenvolver sua fé em Deus e confiar somente nEle, e não em si mesmo, ao pastorear seu povo. O trabalho pastoral requer paciência, paciência requer oração, e oração requer negação do amor próprio. Ele deve amar os pecadores, não os julgar ou evitá-los.

O sacerdote não deve se cansar de comemorar os nomes dos vivos e dos adormecidos no Divino Sacrifício, suplicando o perdão de seus pecados. A oração e o Divino Sacrifício oferecido pela vida de todo o mundo, antes que venha o julgamento deste mundo, é o que mantém a Graça de Deus operando neste mundo em meio a todos esses males e transgressões. Estes nomes comemorados, juntamente com o nome da Mãe de Deus e dos santos, são misturados ao Sangue de Cristo que foi derramado para nossa salvação, sendo comemorados no Santo Altar, naquela Divina Liturgia, onde o Céu e a terra, vivos e mortos, estão unidos.

É por isso também que a Divina Liturgia deve ser celebrada em todos os lugares, em todas as Paróquias, também aos sábados*, que são dedicados aos adormecidos. É dever do sacerdote recordar sempre aos fiéis que rezem pelo repouso das almas dos seus irmãos adormecidos e pelos necessitados deste Santo Sacrifício. Pois eles ainda estão vivos e compartilham conosco no mesmo Corpo de Cristo. Que o sacerdote confie que ele contribui para a consolação e conforto dessas almas, comemorando-as no Santo Sacrifício. A Divina Liturgia de sábado é tão necessária quanto a de domingo, onde lutamos e rezamos pela ressurreição de nossos entes queridos.

- O Verdadeiro Sacerdócio -

Como o bispo e o sacerdote se tornam verdadeiros sucessores dos Apóstolos e membros dessa “nuvem de testemunhas”(Hebreus 12:1)? A imposição de mãos não é suficiente. A imposição de mãos e a própria sucessão Apostólica são anuladas por qualquer desvio, mesmo que leve, dos dogmas da Fé. A Verdade Ortodoxa está acima de tudo; é o dogma reto; é o próprio amor e todas as outras virtudes; é a única lei sobre a qual se fundamenta toda a salvação em Cristo. Ensinar e defender a fé é um dever inseparável da ordem sagrada do bispo e do sacerdote. É por isso que foi estabelecido — para pastorear o povo de Deus — mas nas pastagens da fé reta, e não nos desertos dos ensinos distorcidos e do espírito da época. O bispo é, antes de tudo, um zeloso guardião da unidade da Igreja dentro da fé Ortodoxa; no momento em que as heresias são legalizadas como uma perversão, a Verdade Ortodoxa é dissolvida nelas

São Teodoro o Estudita diz: “Pois é um mandamento do Senhor não ficar calado no momento em que a fé está em perigo. Fala , diz a Escritura, e não te cales (Atos 18:9)... É por isso que eu, o miserável, falo, temendo o julgamento de Deus”.

 

Conhecimento e graus acadêmicos não são uma medida do sacerdócio; são apenas fatores suplementares. A medida é a pureza interior do homem, sua luta espiritual em obediência e sua absoluta fidelidade à Fé Ortodoxa e à Tradição da Igreja. Estas são as condições gerais do sacerdócio de que falaram os nossos Santos Padres. Caso contrário, o padre será um fardo para a Igreja, enchendo-a de pedras de tropeço. O bispo será responsabilizado por cada ordenação que não cumpra essas condições, especialmente no que se refere à fé.

O sacerdote autêntico é identificado com Cristo por meio da obediência, não da autoridade. A autoridade é completa e canônica quando se baseia na obediência. A obediência limita-se à fidelidade absoluta aos dogmas e cânones definidos pela única Igreja de CristoOs mandamentos de Cristo e os cânones da Igreja são uma lei divina que deve permanecer sempre diante dos olhos do sacerdote, dia e noite. Esta é a sua luta em um mundo que aboliu todos os estatutos sagrados que Cristo estabeleceu para o Seu mundo; nesta última era que prega, aberta e persistentemente, a lei do anticristo.

O bispo não herda o dom de profecia que existia nos profetas do primeiro século do cristianismo? Ele é designado profeta para proclamar a Verdade e revelar a ilusão vindoura ao seu rebanho. Entramos nos últimos tempos e os fiéis a Cristo esperam que alguém lhes revele o espírito do anticristo, que está operando poderosamente no mundo agora.

O bispo ou padre iludido por esse globalismo religioso, difundido pelo movimento ecumênico contemporâneo, e que, em nome do amor, mistura a Verdade Ortodoxa com várias ilusões, que salvação oferecerá ao seu rebanho? Ele só será apresentado como sendo um mau exemplo e tendo uma fé corrupta. Tal bispo ou padre esqueceu que ainda carrega o Cordeiro que lhe foi confiado durante sua ordenação – um penhor a ser entregue do mesmo modo como O recebeu – o depósito de sua primeira Fé e seu primeiro amor.



Abouna Gregorios (Estephan)

 

* O sábado é o dia em que tradicionalmente se comemora e se reza pela memória dos adormecidos. É costume monástico a celebração da Divina Liturgia em cada sábado.  Essa tradição, de qualquer modo, infelizmente caiu em desuso na maioria das Paróquias.

quinta-feira

A Ressureição de Cristo e a Crença de Tomé - Arquimandrita Gregorios (Estephan)



Por Arquimandrita Gregorios(Estephan) – Hegúmeno do Mosteiro da Dormição da Mãe de Deus - Bkefitine

O "Domingo de Tomé" não trata isoladamente de Tomé, mas também diz respeito a Cristo. Ele trata da questão da crença de Tomé, mas também nos dá o testemunho da Verdade da Ressurreição de Cristo. Pois antes de sua confissão existencial na Ressurreição, Tomé também enfrentou a Verdade da Ressurreição de Cristo como uma interrogação, impossível de abordar com a lógica intelectual. Esta Verdade, portanto, chocou toda a sua capacidade de raciocínio quando ele encarou o Senhor ressuscitado (Jo. 20:28).

Esse choque é semelhante ao do profeta Isaías quando viu o Rei, o Senhor dos Exércitos (Is 6:5). Com esta visão, Tomé conheceu o pecado da sua incredulidade: porque se ele “não tivesse visto e ainda sim acreditado” (cf. Jo 20,29), teria conhecido o Senhor Ressuscitado com todo o seu ser, e não apenas com aquela parte que é regida simplesmente pela lógica.

O homem foi criado, desde o princípio, para conhecer a Deus. Esse não é um conhecimento intelectual e teórico, mas existencial, e o caminho para esse conhecimento é a fé. A Verdadeira Fé em Deus leva ao conhecimento vivo de Deus. Até mesmo a própria fé se transforma em conhecimento, e o conhecimento em comunhão de vida eterna. Este é o significado do que Cristo disse: Esta é a vida eterna: que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste (João 17:3). O conhecimento de Deus que nasce da fé, transcende totalmente o conhecimento nascido da convicção intelectual. O último nos revela questões sobre Deus, porque se baseia na sabedoria humana, enquanto o primeiro nos revela O próprio Deus, porque provem da iluminação divina.

A esmagadora maioria dos cristãos está contente com essa crença intelectual teórica. Esses cristãos têm um relacionamento externo com Deus, que não toca seu coração e seu ser interior. É uma espécie de conexão social com Deus baseada em princípios morais. O intelecto não é rejeitado na Ortodoxia, mas a confiança nele sozinho sempre constituiu um perigo real na jornada de fé de um cristão em direção a Deus.

A salvação do homem não é um assunto puramente intelectual, ou uma crença teorica em tudo o que Deus fez na dispensação da Cruz para nossa salvação. Pelo contrário: é uma fé absoluta, que contém uma experiência existencial da presença de Cristo.

O verdadeiro 'ser' do homem é o espírito, não o intelecto. Portanto, a resposta de Cristo a Tomé, de que "bem-aventurados são os que não viram e creram", mostra que Deus se compraze e revela Seus mistérios ao homem que se submete a Ele pela fé, de maneira sacramental, mística, transcendendo as limitações do intelecto, de modo que o homem tenha a oportunidade de conhecer a Deus com todo o seu ser e espírito.

Assim, o Apóstolo diz: Sem fé é impossível agradar a Deus (Hb 11:6). São Macários, o Grande, diz que o conhecimento que opera pela fé, por si só torna a alma digna de receber “o conhecimento dos mistérios divinos” e entrar, pela fé, na comunhão da vida eterna.

Em verdade, a majestade de Deus e a grandeza de Sua glória estão além da capacidade intelectual do homem. Portanto, a fé de que os Santos Padres falaram é a capacidade da alma de transcender o poder da compreensão humana e aceitar a experiência da presença divina dentro dela.

São Simeão, o Novo Teólogo, diz: “A divindade, que é a graça do Santíssimo Espírito, nunca se revela a um homem que está alheio à Fé” (Verdadeira).

Essa Fé viva não é algo estabelecido de uma vez por todas, como é o caso das inovações evangélico-protestantes, porque isso faz de Deus um ídolo, não um Deus vivo. A fé é uma jornada de crescimento na submissão humana à vontade de Deus, com uma confiança que transcende toda dúvida. Em Sua presença, providência e justiça.

É por isso que o objetivo final da Fé é o próprio Cristo – a Verdadeira Fé, de acordo com nossos Santos Padres: nada mais do que Jesus Cristo.

Santo Inácio de Antioquia diz: “A fé perfeita é Jesus Cristo”. É por isso que o homem está consciente de que a fé perfeita não tem limites e está além de todo o poder de sua compreensão intelectual.

O salmista diz: Tal conhecimento é maravilhoso demais e está além do meu alcance, é tão elevado que não o posso atingir. (Salmos 139:6)

Pois o conhecimento de Deus que procede da fé é a comunhão direta do homem com Deus; é a obtenção da perfeição para a qual ele é chamado. Este dogma constitui o fundamento da salvação do homem no caminho da fé Ortodoxa.

Uma fé viva ecoa em um coração que foi purificado de todas as paixões e pecados, e praticou todas as virtudes. O homem que possui tal coração pode encontrar seu Criador e conhecê-Lo através de conhecimento pessoal. São Gregório Palamas diz: “Pois se você estudar toda a filosofia natural, de Adão até o final, você permanecerá impuro, tolo, e não uma pessoa sábia”.

Pois o nível superior da clareza dos olhos não está oculto no brilho dos objetos externos que eles observam, mas na ausência de qualquer borrão interno ou escuridão escondido dentro deles.

A remoção do véu interno e da escuridão no 'olho da mente', requer luta espiritual contínua e crescimento na vida de ascetismo, piedade e abnegação. É a fé que leva ao conhecimento da verdade, e não pode encontrar seu fundamento sólido em nenhum lugar, exceto na piedade e na humildade. Assim, segundo São Gregório Palamas, para que o conhecimento transcenda toda a sabedoria humana e se torne caminho para a verdade e instrumento do amor, deve-se matar primeiro a serpente, isto é, “depois de vencer o orgulho que procede esta sabedoria. ” O orgulho torna o conhecimento suscetível às fantasias satânicas, de modo que mais tarde se tornará propenso a toda perversão dogmática.

Por esta razão, especificamente, a Fé Ortodoxa está ligada à teologia dos Santo Padres ensinada pela Igreja – a teologia dos humildes santos e comunicantes dos Mistérios de Deus. A teologia intelectual e escolástica gera conceitos teóricos rígidos da fé, que transformam essa fé em um estilo de vida moral e repleto de definições legais. Ao passo que uma Fé viva, que se baseia na teologia ascética, que purifica as paixões, leva à visão dos Mistérios de Deus. Quando o Apóstolo disse: Grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne (1 Tm 3:16), ele provou que a santidade e a piedade são a porta de entrada para os mistérios da fé, e para as verdades relacionadas às revelações de Deus sobre Ele mesmo.

A ausência de Tomé entre os Apóstolos (João 20:24-31) foi obra da providência; serviu para um objetivo essencial: é a vontade de Cristo curar a dúvida e a nossa falta de fé. É estranho que o Senhor peça que o homem acredite nEle sem ver, e que Ele insista nesse pedido, porque a fé é um dom e uma revelação do próprio Deus, quando o homem abre seu coração a esse dom divino e não apenas seu intelecto. É por isso que o homem será questionado sobre sua fé no Dia do Juízo, e é por isso que Deus é paciente com nossa falta de fé: para nos curar e nos salvar, não para Se submeter às nossas fraquezas.

Ao dizer: Coloque o seu dedo aqui; veja as minhas mãos (João 20:27), Cristo mostrou amor ilimitado e paciência ilimitada para nossa salvação. E Ele tomou a iniciativa antes que Tomé Lhe pedisse, oferecendo Seu corpo e Suas feridas. Cristo condescendeu com a fraqueza de Seu discípulo, assim como Ele continuamente condescende com as fraquezas dos homens e aceita que Sua obra salvífica seja posta em dúvida.

Com muita humildade, Ele aceitou a dúvida de seu discípulo que o acompanhava há três anos, dia e noite. Ele gentilmente o repreendeu e não o condenou, porque ele confessou e se arrependeu. E até hoje, se os cristãos não vivem a ressurreição de Cristo com um espírito vivo, oração, jejum e trabalho ascético, mas através de seu intelecto limitado, então eles vivem sem Cristo.

Até que chegue o momento em que clamamos do fundo de nossos corações: Senhor meu e Deus meu!  (Jo 20:28), nossa fé permanecerá teórica, sem a presença real do Senhor triunfante - uma fé morta, sem dons espirituais. Desprovida da Graça e da salvação. 




Arquimandrita Gregórios



Tradução : Pe Paísios

quarta-feira

"Quem são os Santos" - Arquimandrita Gregórios (Estephan)

 

QUEM SÃO OS SANTOS?






Por Arquimandrita Gregorios(Estephan) - Abade do Mosteiro da Dormição da Mãe de Deus - Bkefitine

 

Existe uma união sagrada entre os santos e o dia do Pentecostes. Pois os santos são aqueles sobre os quais a Graça do Pentecostes foi derramada, e por meio dos quais a Graça do Pentecostes continua ativa no mundo. Eles se tornam sacramentos vivos em Jesus Cristo; eles extraem toda Graça e verdade dos sacramentos da Igreja. A verdade Divina foi armazenada intimamente nas profundezas dos corações dos santos, gerando a teologia do conhecimento vivo de Deus. É assim que os santos, os portadores do Pentecostes, nascem. A imagem e semelhança Divinas são restauradas apenas neste nível de santidade. É por isso que Cristo nos ordenou: Sede santos; pois eu sou santo.

A virtude característica dos santos é sua busca incessante da perfeição Divina, tanto quanto eles são capazes. Eles não alcançaram este nível de perfeição Divina devido à sua perfeição moral ou social, mas Graças à sua transfiguração incessante em direção a perfeição; a transfiguração do nous e do coração por meio de um ato de eros* incessante ​em direção ao verdadeiro Cristo. Pelo amor de Cristo, eles abandonaram este mundo, todos os apegos mundanos e prazeres corporais, e realizaram uma jornada incessante para o Reino Celestial. Eles subjugaram seus corpos por meio do ascetismo e da abnegação, a fim de submetê-los ao espírito.

Os santos sabiam que a santidade é produzida através dessa atenção em guardar os mandamentos de Cristo - todos os mandamentos, mesmo os menores. Mas é impossível guardar os mandamentos antes de controlar as paixões. É por isso que (os santos) amavam o ascetismo - o jejum severo e as muitas prostrações, a oração focada, derramando lágrimas, e as vigílias incansáveis, com muita perseverança e humildade contínua. Santo Efraim, o Sírio, enfatiza a ação da Graça nas almas dos que lutam, dizendo: “Deus planta Suas sementes em corpos ascéticos”. Nosso santo então passa a dizer que sem luta e trabalho, “ninguém será coroado, nem nesta vida nem na próxima”. É impossível alcançar a santidade sem ascetismo, porque é este ascetismo que subjuga as paixões do amor próprio e as transforma no amor de Cristo. A perfeição dos santos, que não encontra um fim, é o amor de Cristo.

Os santos são aqueles que nasceram novamente, do arrependimento e do espírito. A jornada de um santo é a jornada de um penitente, que pode ter começado com todos os tipos de pecados, paixões e heresias. Os santos são aqueles que conheceram sua fraqueza espiritual e pobreza e assim entregaram suas vidas a Cristo em incessante arrependimento. Eles não se desesperaram por causa da multidão de aflições, demônios, tentações e quedas, mas por conta de sua fraqueza, eles receberam muita humildade, permitindo-lhes se levantar contra o pecado e resistir até a morte.

Sua forte resistência atraiu muita Graça; curou sua dureza de coração e ensinou-lhes a oração incessante. O que caracteriza os santos é que eles não notam suas virtudes, mas sentem profundamente seus pecados e sua necessidade de misericórdia Divina. Isso lhes concede arrependimento e luto por seus pecados, sabendo que são dignos do inferno e de toda condenação. Este é o mistério da ação da Graça na humildade dos santos. O arrependimento dos santos não cessa - eles se arrependem e não se desesperam, sabendo que seus pecados são perdoados pelo arrependimento; mas eles também sabem que se o arrependimento cessar, seus pecados voltarão, mais malignos do eram antes.

Com respeito à fé, os santos se recusam a se conformar com o espírito dos tempos (mundanismo) e lutam contra suas influências. Eles enfrentaram fortemente as heresias - todos os tipos de heresias - sabendo que estas carregavam o espírito de Satanás. A heresia é incompatível com a santidade; e as novas heresias têm várias faces: ecumenismo, sincretismo, modernismo, etc. Elas estão todas em conflito com a santidade. Aqueles que se entregam a este globalismo religioso, ao espírito dos tempos e aos esforços para renovar a vida da Igreja de acordo com os ditames da vida moderna, não podem ser santificados. Como pode ser santificado aquele que distorce a fé pura dos santos e a mistura com um ensinamento vindo do demônio da contradição e do intelecto orgulhoso?

Aqueles que colocam obstáculos aos fiéis, que fazem os filhos de Deus duvidarem dos Sacramentos e dos objetos sagrados, pois eles próprios duvidam da santa luz da Ressurreição e da Graça contida nas sagradas relíquias, rendem-se ao espírito da ilusão. O princípio do amor ao próximo é tirar-lhes as dúvidas e os obstáculos do seu caminho de salvação, através da firmeza na fé e pelo seu crescimento na esperança. Os santos desprezaram erguer barreiras, ensinando que isso traz grande condenação.

Os santos não são feitos por uma infinidade de teorias, orgulho e arrogância, mas através da submissão dos pensamentos e vontades a Cristo e Sua Igreja. Os santos nascem do cânone da fé Ortodoxa, que é a lei da vida eterna. Os santos são fruto da obediência à fé Ortodoxa, fruto da entrega de sua própria vontade à experiência comunitária que é, antes de mais nada, formada pela força da fé, depois pelo trabalho, jejuns e orações. Os santos nascem da Tradição da Igreja, da submissão de todos os seus pensamentos à Tradição da Igreja.

Os santos compreenderam que a obediência esvazia a alma de seu egoísmo e da confiança em seus próprios conceitos, de modo que ele se submete de bom grado à mente da santa Igreja, aos seus dogmas e aos seus cânones. Assim, a experiência dos santos continua completa e perfeita, imutável de século em século, por meio da obediência à fé Ortodoxa. Somente aquelas almas que, pela fé e obediência, uniram sua vontade à vontade de Deus, podem ser santificadas e santificar, ser iluminadas e iluminar, e estabelecer firmemente a Igreja na jornada de seus santos.

É assim que a Igreja se torna criadora de santos; do contrário, perderia o sentido de sua existência. Não foi esse o propósito pelo qual o Filho de Deus veio ao mundo? Uma igreja que não produz ascetas e santos, que passaram da fé intelectual para a experiência da revelação divina, facilmente se torna uma igreja de leis e moralismo, uma igreja mundana desprovida de espírito, caminhando livremente para a extinção e a destruição. Os santos são produtos da Graça divina, que está exclusivamente associada à fé verdadeira e correta. E fora desta verdade, não existe Graça nem santidade.

É por isso que a Igreja Ortodoxa não reconhece os santos de foranão há santos não ortodoxos. Este julgamento não é extremista, pois no que diz respeito à Igreja Ortodoxa, a santidade não é estabelecida por estados psicológico-emocionais, por uma vida moral louvável, ou por um ministério social distinto, como é o critério dos não ortodoxos. Antes, é uma participação existencial na fé correta e na Luz Incriada de Deus, após a completa libertação das paixões. Pois, sem a Graça, o homem não só é incapaz de ser santificado, mas também incapaz de apresentar uma obra agradável diante de Deus. É por isso que Santo Efraim, o Sírio, ordena que não tenhamos comunhão com os hereges - porque eles não têm boas obras, visto que se afastaram da Graça divina como consequência de seu afastamento da fé correta.

Todos aqueles que lutaram pela fé Ortodoxa ao longo da história, que “trabalharam e ensinaram”, foram santificados. Na era de apostasia, que prevalecerá nos últimos dias, muitos se tornarão obstinados; eles não apenas se conformarão e apostatarão da verdade, mas também perseguirão aqueles que se apegam a essa verdade. Não serão muitos aqueles que aceitarão a perseguição pela Cruz de Cristo. 

Não é a Ortodoxia a portadora da Cruz de Cristo neste mundo?

No entanto, sempre haverá santos neste mundo. Pois os santos, com sua fé viva, ascetismo, oração pura e sua vitória sobre os demônios imundos, santificam não apenas o lugar onde eles habitam em ascetismo, mas o mundo inteiro, que recebe também os raios da Graça que operam dentro deles. É por isso que o julgamento deste mundo atual não virá enquanto houver um número suficiente de verdadeiros santos Ortodoxos, como um fermento sagrado para este mundo miserável. Os santos Ortodoxos são a base da existência contínua do mundo. Esses santos se tornarão pouquíssimos com o passar do tempo em sua direção para o fim, embora possam ser mais radiantes na era da grande apostasia.



Geronda Gregorios


*NdoT:

Eros divino: O amor a Deus é de importância central na vida Ortodoxa. Quem ama a Deus, ama o próximo através do amor de Deus. Os Santos Padres referem-se a este amor como "eros" e, para o distinguir de todo falso eros, falam de "eros divino".

Nas palavras de São Paísios: “Eros divino pode amolecer até os ossos mais duros, a ponto de uma pessoa não conseguir mais ficar em pé, e então eles caem! Eles se parecem com uma vela de cera em um ambiente quente, que não pode manter-se em pé com firmeza. Cai para um lado, depois cai para o outro lado, alguém endireita, mas de novo ela dobra, e de novo cai, por causa do calor do ambiente, que é quente demais para ela aguentar. Quando uma pessoa está em tal estado e precisa ir a algum lugar ou fazer algo, ela não pode. Eles vão realmente lutar para sair desse estado

...

Você não viu como as pessoas que se amam são totalmente alheias? Eles mal conseguem dormir. Certa vez, um monge me disse: “Ancião, um irmão meu se apaixonou por uma cigana e não consegue dormir por causa dela. Ele fica repetindo o nome dela, sem parar: 'Minha doce Paraskevi, minha doce Pareskevi', ele diria. Ele está talvez enfeitiçado? Não sei! Há tantos anos sou monge e nem mesmo eu sinto tanto amor pela Panagia como meu irmão sente por aquela cigana! Eu não sinto meu coração pulando assim! ”

 

Infelizmente, existem pessoas que se escandalizam com o termo “eros divino”. Eles não perceberam o que "eros divino" significa, e estão tentando remover este termo do Menaion e do Parakliti (Ndot:  um livro de hinos para todos os dias da semana, sábado à noite até a manhã do sábado seguinte, nos Oito Modos / Tons, com base nas comemorações do dia), porque eles afirmam que escandaliza. A que ponto chegaram as coisas! Pelo contrário, se você falar a pessoas seculares, que experimentaram eros mundano, sobre eros divino, elas imediatamente dirão: "Isso deve ser algo muito superior." Tantos jovens experimentaram o eros mundano, que quando lhes mencionei o eros divino, eles puderam fazer a comparação mentalmente! Eu lhes pergunto: "Você já perdeu o equilíbrio ou não conseguiu fazer nada por causa do amor que sentia por alguém?" Eles então compreendem imediatamente como este deve ser um estado realmente superior, e nós nos entendemos perfeitamente depois disso e somos capazes de nos comunicar. Eles geralmente respondem com: "Se nos sentimos assim com eros mundano, imagine como deve ser esse sentimento celestial!"

 

P: Ancião, como alguém pode enlouquecer por amor a Deus?

Bem, fazendo companhia a outros malucos, que te contagiarão com sua loucura espiritual! Rezarei para que um dia o veja como um completo louco por Deus! Amém! (Counsels of Elder Paisios of the Holy Mountain, vol.5, pp. 205-206)

 

Tradução: Diácono Paísios