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terça-feira

Por Que os Cristãos Não se Arrependem nos Dias de Hoje? - Arquimandrita Gregórios (Estephan)




Arquimandrita Gregorios(Estephan) – Hegúmeno do Mosteiro da Dormição da Mãe de Deus - Bkefitine


Por que as nações se desintegram e novas nações surgem? Por que muitas nações cristãs desapareceram, sendo substituídas por nações pagãs? Nos últimos tempos, quando o mundo inteiro conspirar contra o Senhor e Seu Cristo, o cristianismo lutará pela sobrevivência. Isso exigirá a adesão à Verdadeira Fé em Jesus Cristo.


Por que Deus está abandonando Seu povo? Talvez porque Ele seja um Deus vingativo? Certamente que não! Pelo contrário, Ele é o Deus perfeito que deseja filhos perfeitos, que anseiam por alcançar a perfeição; filhos que guardam fielmente Seus mandamentos e se apegam à fé que foi colocada em suas mãos. Nosso Deus quer apenas uma coisa de Seu povo: fidelidade. Ou seja, Ele deseja que eles O obedeçam com fé e não mintam para Ele; que não finjam devoção enquanto vivem em pecado; que não falem sobre abnegação enquanto vivem egoisticamente com desejo de poder e vanglória; que não se orgulhem da Ortodoxia enquanto a traem em seus diálogos.


O Senhor pede que Seu povo seja fiel a Ele, e somente uma coisa preserva essa fidelidade na alma humana: o arrependimento. O arrependimento é o retorno incessante a Deus. Seus sinais são um espírito contrito e humilde, que abandonou todas as coisas terrenas e busca a misericórdia de Deus com toda a sua mente. Quando o povo se afasta de Deus, Ele o disciplina, não como um ato de vingança, mas para torná-lo consciente de seu pecado, para que possa se arrepender. Desde os tempos do Antigo Testamento, Deus tem dito ao Seu povo: Convertei-vos, agora, cada um do seu mau caminho, e fazei boas as vossas ações, e não sigais a outros deuses para servi-los (Jer. 35:15).


O cristão vai atrás de outros deuses de duas maneiras: quando aceita a heresia como verdade e quando segue o espírito do mundo e se rende à sua maneira de pensar.


Deus sempre desejou que tivéssemos uma fé pura nEle - a fé saudável que Ele revelou ao Seu povo e que leva à salvação. Entretanto, alguns distorceram essa fé e brincaram com ela. O surgimento de heresias e inovações dogmáticas está fortemente relacionado às paixões humanas corruptas, especialmente o orgulho. Desse orgulho maldito e da desobediência surgiram todas essas chamadas "igrejas". As paixões cheias de maldade e arrogância, como o orgulho - que se alimenta do amor-próprio - e as paixões de desejo de poder e vanglória, que são infladas pelo amor às coisas terrenas e obscurecem totalmente a alma, fazendo com que ela interprete os dogmas da fé pelas lentes de sua própria vontade e pensamentos. Essa escuridão espiritual afasta a alma do espírito de contrição e arrependimento. É exatamente por esse motivo que Deus despreza a heresia e a condena, chamando-a de blasfêmia imperdoável contra o Espírito Santo. Ela é uma reminiscência do orgulho primordial que desfigurou o caminho da salvação; ela também impede que a alma se arrependa e seja salva.


O espírito do mundo enfraqueceu a vontade do homem e dispersou sua mente, tornando-o incapaz de se lembrar de Deus no coração. Esse espírito substituiu os valores e as virtudes que eram usados para educar as crianças (como o autocontrole) por vícios (como a entrega a paixões imundas e a obediência aos desejos do corpo e às tendências animalescas). Esses vícios se tornaram deuses para o homem, substituindo o único Deus verdadeiro. Quando o homem adota o espírito da era moderna e permite que ele domine seu pensamento, sua vontade é despedaçada e sua mente fica paralisada: ele deixa de estar atento à Verdade e é incapaz de adquirir o espírito de arrependimento.


Em toda Escritura, Cristo insistiu em separar o espírito do mundo do Espírito de Deus. O espírito do mundo semeia o desdém pela Verdade eterna e suas coisas sagradas, enquanto incita subliminarmente o pecado e o ateísmo na mente do homem. Portanto, aqueles que se esforçam para modernizar a Igreja, seu phronema (mentalidade) e sua práxis (modo de vida), são os primeiros inimigos de Cristo, pois misturam a verdade com a ilusão, que Cristo se esforçou para separar.


A própria Igreja, que possui esse profundo senso da Verdade Divina transmitida ao longo de sua história, tem se rendido ao espírito do mundo ultimamente. Quantos, mesmo entre os fiéis, estão incentivando a adoção das reformas doutrinárias e morais produzidas pelo espírito do mundo! Pessoas como essas não reconhecem a existência de heresias, inovações ou mesmo demônios, nem acreditam em uma Igreja ou mesmo em um Deus.


Quem afirma que a Verdade é encontrada em todos os lugares, mesmo fora do cristianismo, está realmente cego, amortecido para a Verdade; ele se tornou um instrumento adúltero para o demônio da ilusão. Como esse homem pode se arrepender? Quando o senso da Verdade única morre em nós, o próprio Deus morre em nós.


O arrependimento requer muita humildade, para que o homem possa estar ciente de sua pecaminosidade e contemplar a Verdade Divina. É por isso que São João Clímaco diz que é impossível encontrar humildade nos hereges: Toda heresia, mínima ou flagrante, é fruto do orgulho e da arrogância demoníaca. O principal perigo do movimento ecumênico moderno é que ele reforça na alma humana o orgulho e as convicções, em vez de incentivá-la a se arrepender e buscar a verdade. O dom da verdade é concedido pelo Deus da Verdade aos penitentes que abandonam sua vontade própria e seus próprios pensamentos e buscam a Verdadeira Fé com oração incessante.


A Igreja não mente. Em vez disso, os mentirosos são aqueles que tentam misturar a verdade com a falsidade, justificando suas violações da fé. Os orgulhosos não se arrependem, não importa quão louváveis sejam suas ações terrenas ou quão grande seja sua benevolência, porque eles glorificam a si mesmos, e não a Deus. Quanto aos humildes, eles se arrependem porque se conhecem verdadeiramente e se entregam incondicionalmente a Cristo pela fé. O grande pecado do homem não está na transgressão de um único mandamento, mas em seu orgulho e insubordinação à Igreja e a seus ensinamentos verdadeiros.


Nem todas as pessoas orgulhosas são hereges, mas é possível que todos os hereges sejam orgulhosos. O Senhor não permite que os humildes se afundem na ilusão ou sofram a condenação eterna, mas fornece a eles os meios para conhecer a verdade e permanecer firmes nela. Todas as heresias ao longo da história e todos os ensinamentos opostos àqueles transmitidos à única Igreja não passam de uma aniquilação do Deus verdadeiro, substituindo-O por um falso. E que comunhão pode existir entre Cristo e esses falsos deuses demoníacos? Quando o nosso Cristo retornar à Terra, Ele encontrará uma infinidade de "igrejas", falsamente assim chamadas, que possuem uma fé desonesta, por isso Ele pergunta: Porventura [o Filho do homem] achará fé na terra? (Lc. 18:8) Isso se deve ao fato de que uma fé desfigurada e distorcida não é fé alguma. Uma fé fora da Igreja Una e Apostólica nunca pode levar a um conhecimento vivo do Deus Vivo e Verdadeiro.


Deus se afastou de Seu povo nestes últimos tempos; Ele está se afastando de Seu rebanho, que pastoreou, fortaleceu e multiplicou no passado, mesmo nas eras mais sombrias de perseguição e tirania dos obreiros do diabo. Nossa terra está se tornando desprovida de Cristo e de Seus verdadeiros ungidos; esta terra, cujo solo era santificado pela adoração incessante do Senhor e de Seu Cristo, tornou-se a terra da apostasia. Por quê? Porque as pessoas abandonaram a fé de seus antepassados e a simplicidade da vida de piedade. Eles pensaram que a sobrevivência nesta terra dependia de fazer alianças com os deuses de nações estrangeiras, em vez de se apegarem à Verdadeira Fé.


Esse povo pecou diante de Deus. Eles estão se fundindo gradualmente ao espírito do mundo e ao da globalização e não querem se arrepender. Onde estão os líderes da Igreja que estão se arrependendo de todas essas transgressões? Arrependendo-se por si mesmos e por seu povo? Onde estão aqueles que usam pano de saco e acrescentam jejuns sobre jejuns para serem um exemplo para seu povo em arrependimento, santidade e Ortodoxia? Os hereges - descendentes de Balaão - profetizam para nosso povo e o afogam ainda mais nas ilusões que estão por vir, enquanto os líderes permanecem em silêncio.


"E já ninguém há que invoque o teu nome, que se desperte, e te detenhas; porque escondes de nós o teu rosto, e nos fazes derreter, por causa das nossas iniquidades..." Não te ires demais, ó Senhor! Não te lembres constantemente das nossas maldades. Olha para nós! Somos o teu povo!
As tuas cidades sagradas transformaram-se em deserto. Até Sião virou um deserto, e Jerusalém, uma desolação! O nosso templo santo e glorioso, onde os nossos antepassados te louvavam, foi destruído pelo fogo, e tudo o que nos era precioso está em ruínas; e depois disso tudo, Senhor, ainda irás te conter? Ficarás calado e nos castigarás além da conta? (Is. 64:7, 9-12)

Tornai-vos para mim, e eu me tornarei para vós, diz o Senhor dos Exércitos (Malaquias 3:7, Zacarias 1:3). O arrependimento genuíno, que nos inspira a chorar por nossos pecados, é sempre um sinal de firmeza inabalável na Verdadeira Fé; somente o arrependimento é capaz de nos tornar uma descendência abençoada que Deus multiplicará.

quarta-feira

O Farisaísmo e a Adoração a Deus - Arquimandrita Gregórios (Estephan)

 



Arquimandrita Gregorios(Estephan) – Hegúmeno do Mosteiro da Dormição da Mãe de Deus - Bkefitine


Nestes quatro domingos que antecedem o Grande Jejum, que são preparatórios para a Grande Quaresma, a Igreja nos apresenta os princípios fundamentais sobre os quais devemos edificar o nosso jejum de quarenta dias.

No primeiro domingo, chamado domingo do Fariseu e do Publicano, a parábola bíblica nos revela o espírito com o qual devemos jejuar e orar durante a Quaresma. O significado essencial desta passagem bíblica gira em torno de dois temas essenciais: orgulho e presunção, por um lado, e humildade e arrependimento, por outro. Os dois primeiros nada mais são do que uma adoração podre e falsa a Cristo, enquanto os dois últimos são os fundamentos da salvação em Cristo. Nossa salvação depende de como adoramos a Deus. Nossa adoração a Deus pode nos justificar, mas também pode nos condenar. Na Igreja, adoramos o Deus Verdadeiro, mas nossa adoração pode se tornar egocêntrica.

Na Igreja, o farisaísmo tornou-se um símbolo de orgulho e altivez. Alguns o utilizam de um ponto de vista moralista para indicar uma epidemia na sociedade; outros o utilizam para descrever qualquer pessoa que não concorda com suas posições e pensamentos.

Cristo rejeitou o orgulho farisaico e o julgou, não apenas porque o orgulho destrói toda virtude no crente, mas porque destrói todo senso de verdade que existe nele. O início do orgulho aparece no julgamento aos outros, na autojustificação e na presunção. O pecado da autojustificação é a antítese do arrependimento; não apenas faz um homem julgar-se justo aos seus próprios olhos, mas também alimenta seu egoísmo e apego aos seus próprios pensamentos e vontades.

Essas paixões graves são um véu sobre nossos olhos espirituais. É precisamente por isso que o fariseu não viu a necessidade de buscar a misericórdia de Deus e o perdão dos seus pecados. E quem vê apenas a sua própria justiça julga os outros com facilidade e os despreza. É por isso que toda queda na história e toda heresia que cresceu (e cresce) no mundo foi causada, principalmente, pelo orgulho farisaico e a convicção da autojustiça.

O homem nunca se humilhará e sentirá o peso de seus pecados enquanto contar seus feitos e se orgulhar de suas grandes obras. A enumeração de feitos e o orgulho deles é o principal combustível para o orgulho. E a maioria dos cristãos vive uma espécie de “cristianismo social” que alimenta o espírito do egoísmo, de modo que facilmente caem nas paixões da presunção, da vanglória, do orgulho… e da heresia.

Cristo quis nos advertir de cair nessas paixões mortais quando Ele disse: Ai de vós, quando todos os homens falarem bem de vós! (Lucas 6:26)

Do ponto de vista da fé, o verdadeiro farisaísmo compreende essa escuridão em que a alma orgulhosa cai, de modo que ela não faz mais distinção entre o que é do Espírito de Deus e o que é do espírito do diabo. Essa alma torna-se incapaz de discernir a verdade da ilusão. Só os humildes são verdadeiramente espirituais, porque obedecem à Igreja, à sua fé e aos seus cânones, e Deus concede-lhes o dom do discernimento e a capacidade de separar o que é verdadeiro e o que são os falsos ensinamentos que desfiguram esta Verdade. Estes (humildes) são os mestres e Padres da Igreja e os defensores de sua Fé.

Esta é a luta constante entre orgulho amaldiçoado e humildade abençoada; farisaísmo e obediência; autoconfiança e arrependimento; essa luta aumentará à medida que avançamos para o fim. O pecado do fariseu não está somente na alma que se desvia da verdade, mas naquela alma a quem a verdade é revelada, mas continua insistindo em sua ilusão; e induz os outros ao erro enquanto sugere que eles estão certos. O farisaísmo é a cegueira diante da Verdade, quando a Verdade está totalmente presente diante de nós em sua plenitude. O farisaísmo não é a adesão firme à nossa fé Ortodoxa e a nomeação de hereges e falsos mestres. O farisaísmo é a adesão patológica às nossas convicções pessoais, que se opõem aos ensinamentos da Igreja e decorrem de um espírito mundano e das instabilidades da Nova Era.

Cristo não condenou o pecador, mas Ele mesmo condenou o herege, quando disse que todas as blasfêmias são perdoadas, mas aquele que blasfemar contra o Espírito Santo nunca terá perdão, mas corre o risco de condenação eterna (Mc 3:29 ). Nossos Santos Padres entendem estes "blasfemadores imperdoáveis" como hereges e falsos mestres.

O nosso Cristo é o Cristo dos humildes, que abençoa o que a Igreja abençoa e anatematiza o que ela anatematiza. Tais pessoas não pecam contra Deus, nem contra os homens, nem contra a fé, nem contra o amor.

O amor não unifica a humanidade – a fé Ortodoxa em Deus é o que unifica os homens, de uma forma interna e íntima. Quando crêem na mesma fé, tornam-se um, e o amor sela então esta unidade, mediante a participação no único Corpo e Sangue de Cristo. Quem lê sobre o caminho da Igreja em todo o Novo Testamento com uma mente humilde, vê claramente que é um caminho, com uma única fé, que nos une a Jesus Cristo – a única Verdadeira Fé que resiste a todos os ensinamentos distorcidos e tortuosos. O 'amor', como mencionam os Apóstolos do Novo Testamento, nada mais é do que a afirmação desta unidade, uns com os outros e com Deus, entre os que estão unidos pela Fé única, que se ativa na participação no Santo Corpo e Sangue de Cristo na Eucaristia.

Quanto ao amor que não se baseia nessa Fé única, é apenas um amor externo, farisaico, um amor hipócrita, como o amor que o fariseu demonstrava para com Deus e seus semelhantes na oração, no jejum e na esmola.

O fariseu pensou que era justificado por suas obras, então ele as enumerou e confiou nelas. Quanto ao publicano, ele confiava em sua fé em Deus; a força dessa fé é revelada quando ele busca a misericórdia de Deus com tal espírito contrito. A sinceridade da fé do homem é revelada pela franca confissão de seus pecados diante de um pai espiritual na Igreja, e sua fé é fortalecida ao buscar a misericórdia de Deus com inabalável insistência. E o publicano, parando de longe, não levantava sequer os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Deus, tenha misericórdia de mim, que sou pecador (Lucas 18:13).

Esses são os sinais do verdadeiro arrependimento e autoconhecimento; O profeta Davi os descreve da seguinte forma: Os sacrifícios que agradam a Deus são um espírito quebrantado;um coração quebrantado e contrito, ó Deus, não desprezarás (Sl 50:17).

O fariseu rezava como qualquer outra pessoa, mas uma oração como a dele, com um espírito altivo e inconsciente de seus pecados, é uma oração feita aos demônios, não a Deus. Aquele que ora verdadeiramente deve ser cheio de compaixão pelos outros e amor – não julgamento – pelos pecadores. O fariseu orgulhava-se de seu jejum, enquantoobjetivo do jejum é que a alma seja esmagada e humilhada, para crescer no controle dos caprichos do corpo, na purificação dos pensamentos e na renúncia às coisas mundanas. Ele se orgulhava de dizimar todos os seus bens, enquanto o objetivo do dízimo é transformar nosso egoísmo em sensibilidade para com os outros e nos libertar da avareza e do amor ao dinheiro. Este é o espírito farisaico que se opõe ao espírito humilde - que é um espírito que ama a Cristo mais do que a si mesmo. Este é o inicio de nossa jornada rumo à Páscoa. A Igreja nos ensina através desta parábola a acompanhar o jejum com humildade, para que possamos crescer na Fé, no autoconhecimento e na consciência de nossos pecados.

O objetivo do jejum é curar a alma de seus desejos corruptos, doenças espirituais e tendências perversas. Mas o jejum é estéril sem oração focada... e a oração sincera não existe sem humildade, suspiros e arrependimento.

Oração e Amor aos Pobres - Vida do Hieromártir Habeeb (Kheshy)


Jabal as-Saykh, "Monte Hermon". Local do Mártirio do Hiermártir Habbeb


A vida do HIEROMARTYR HABEEB KHESHY

 

O glorioso Hieromártir Habeeb nasceu na cidade de Damasco, Síria, no ano de 1894. Foi o primeiro de oito filhos do Padre Nicholas Kheshy, o hieromártir de Mersine. Ele foi criado em um lar que amava a Cristo, onde foi nutrido na fé com orações, jejuns e leitura espiritual, e foi educado no Horologion, no Saltério e na vida dos Santos.

Habeeb completou sua educação formal, primária e secundária, nas escolas de 'AinToura, no Líbano, e em 1914 ele se formou como bacharel em artes pela American University of Beirut. Além de seu amor pela teologia, pela vida dos mártires e pela música bizantina, Habeeb também estava muito interessado na história e nos sítios arqueológicos da Igreja no Oriente Médio. Ele dedicou muito tempo ao estudo deste assunto e realizou a documentação de muitos destes sítios.

Algum tempo entre sua formatura na universidade e a eclosão da Primeira Guerra Mundial, a família de Habeeb mudou-se para a cidade costeira mediterrânea de Mersine, na Cilícia (no que hoje é o centro-sul da Turquia), na Arquidiocese de Tarso e Adana, onde seu pai foi designado como pároco, posição que ocupou com distinção até terminar gloriosamente a sua vida como um hieromártir, durante uma violenta perseguição aos cristãos.

Após o martírio de seu pai, a família Kheshy fugiu da Turquia e se estabeleceu em Port Said, Egito, onde, em 1922, Habeeb se casou com uma jovem piedosa, Wadi’a Touma, filha de imigrantes cristãos ortodoxos vindos da Síria para o Egito. Entre os anos de 1922 e 1924, Habeeb trabalhou em Port Said como contador e tradutor para uma empresa de comércio de petróleo estrangeira. Em 1924, a empresa o transferiu para sua filial em Beirute.

Habeeb permaneceu nessa empresa até 1931, quando, finalmente atendendo ao chamado de Cristo que ardia em seu coração desde a infância, ele apresentou sua renúncia, retornou a Damasco, sua cidade natal, e caiu aos pés do Patriarca recém entronizado Alexandre III (Tahan) e professou seu desejo de seguir os passos de seu pai, servindo a Igreja no santo sacerdócio. Enquanto sua esposa Wadi'a se opôs inicialmente à ordenação de seu marido, ela, posteriormente, experimentou uma mudança em seu coração e em 1932 Habeeb foi ordenado ao diaconato e posteriormente ao sacerdócio por Sua Beatitude, na Catedral Patriarcal da Dormição da Santíssima Theotokos em Damasco (alMariamiyeh). Após sua ordenação, o Padre Habeeb serviu na paróquia da Catedral.

Então, iniciando em 1935, ele viajou frequentemente para Port Said e Cairo, mas em 1943 se estabeleceu permanentemente em Damasco e serviu a Catedral e cidades menores e vilas dentro da Arquidiocese de Damasco.

Em 16 de julho de 1948, enquanto fazia um retiro em um lugar isolado na aldeia de 'Aarnah, perto do Monte Hermon, na fronteira entre a Síria e o Líbano, o padre Habeeb deixou a aldeia no início da manhã e foi para uma encosta isolada próxima, onde ele poderia refletir, orar, ler e desfrutar da beleza natural da paisagem circundante.

De repente, ele foi atacado por um grupo de contrabandistas, que o capturaram e, por ser um padre cristão, zombaram dele e de sua fé e o espancaram severamente com tal ferocidade bárbara que resultou na morte do padre Habeeb.

 

Marido e pai

 

O Padre Habeeb e Khouriya Wadi’a eram pais de duas filhas e três filhos: Juliette, Marçel, Fadwa, Nicholas e Salem. Salem, o mais novo, nasceu durante o primeiro ano de sacerdócio de seu pai. Quando Salem tinha três anos, o segundo filho mais novo do casal Kheshy, Nicholas, morreu aos cinco anos; isso foi durante o período em que o Padre Habeeb estava frequentemente longe de casa e de sua família, ministrando aos imigrantes da Síria e do Líbano que viviam em Port Said. Quando soube da morte de seu filho Nicholas, o padre Habeeb voltou para Damasco. Ao entrar em casa, consolou a esposa, dizendo: “O Senhor dá e o Senhor tira. Bendito seja o Nome do Senhor! ” Khouriya Wadi’a era uma mulher fiel e humilde, conhecida entre todos por seu espírito generoso, amoroso e compassivo. Embora ela raramente fosse vista sentada e tomando alguns momentos para si mesma, quando o fazia, ela nunca ficava sem a Bíblia Sagrada ou seu livro de orações nas mãos. Diz-se que o Padre Habeeb sentiu-se atraído por ela porque reconheceu nela um grande amor pelo Senhor. Ela foi sua parceira em tempos de tristeza e tensão, uma co-sofredora com ele em tempos de tragédia e a guardiã de confiança de seus segredos. O padre Habeeb compartilhou todos os seus problemas com ela e buscou seu conselho na maioria das coisas; ele até mesmo confidenciou a ela o conteúdo de sua regra pessoal de oração.

Embora ela, a princípio, se opusesse à sua ordenação, o raciocínio de Wadi'a não tinha a ver com qualquer falta de amor por Cristo ou Sua Igreja, mas foi motivado pela preocupação com o bem-estar econômico de sua família. Na época em que o tópico da ordenação foi discutido pela primeira vez, Wadi'a era esposa de um contador bem-sucedido, bem visto e altamente respeitado com uma posição segura e bem remunerada, enquanto ela via padres e suas famílias vivendo em situações financeiras muito desesperadoras. Seu marido, abstendo-se de impor à força sua vontade sobre ela, pois sempre foi gentil e compassivo ao lidar com sua esposa, deixou-a nas mãos de Deus e esperou um ano. Em algum momento durante aquele ano, Wadi'a teve um sonho que a fez mudar de ideia.

O conteúdo do sonho foi o seguinte: Wadi'a viu um soldado - que parecia se assemelhar ao Arcanjo Gabriel, conforme ele é representado em seu ícone. O soldado veio em sua direção, olhou para ela e apontou primeiro para uma torneira de onde jorrava água. Ele então apontou para uma segunda torneira de onde a água estava pingando lentamente, quase nada, e disse para ela, "De agora em diante você deve se contentar com pouco!" Quando ela acordou, Wadi’a disse: "Aquele soldado foi o Arcanjo enviado por Deus!" A partir daquele momento ela se submeteu à vontade de Deus, consentiu com a ordenação de seu marido e se preparou para aceitar com um coração alegre e agradecido tudo o que acontecesse com sua família.

O padre Habeeb foi justo com sua família e seu ministério, fazendo um equilíbrio entre as necessidades de sua família e suas obrigações pastorais. Sua programação diária era geralmente bem organizada. Como todo pai, ele jantava regularmente com sua família, exceto em momentos de necessidade. Ele foi firme, mas gentil ao implementar a disciplina da Igreja sobre jejuns e orações. Ele gostava de excursões com sua família e tinha senso de humor.

 

Sacerdote do Altíssimo

 

Desde sua juventude, o Padre Habeeb aspirava à alta vocação do sacerdócio sagrado e orava para ser digno de seguir os passos de seu pai em direção ao martírio. Não se sabe muito sobre seu trabalho pastoral, mas o que se sabia é que ele amava sua paróquia, cuidava de seus paroquianos continuamente e com zelo, seguindo os passos de seu Mestre. Ele era conhecido, amado e admirado como um homem de oração fervorosa, liturgista piedoso e devoto, e amante abnegado dos pobres.

O povo testemunhou que o Padre Habeeb transfigurou muitas vezes durante a Divina Liturgia. Ocasionalmente, ele foi visto erguido no ar enquanto estava rezava diante do Santo Altar ou dos ícones. Depois de seu martírio, sua esposa Wadi’a disse "que ele havia revelado tais coisas a ela em segredo muitas vezes". Os pobres eram seus melhores amigos. Os ricos fiéis que amavam a Deus, ajudavam-no generosamente a auxiliar os pobres e estavam confiantes de que seus dons chegariam sempre aos mais necessitados. Mas tudo isso criou muitos problemas para ele, especialmente da parte de um clérigo ciumento, que o criticou dizendo: “O povo paga a ele mais do que a nós”, enquanto sua resposta sempre foi "Se isso é o que as pessoas me dão, o que isso tem a ver comigo?"

Um egípcio que o conhecia pessoalmente, certo dia respondeu espontaneamente a uma pergunta sobre os limites da generosidade do Padre Habeeb para com os pobres, dizendo: "É uma loucura como ele espalha seu dinheiro entre os pobres!" Sua família disse que uma vez uma mulher necessitada bateu em sua porta e implorou por comida para sua família. Olhando para a cozinha, o padre Habeeb viu no fogão uma panela cheia de rolinhos de repolho que sua esposa havia preparado para o jantar da família naquela noite. Ele imediatamente e sem qualquer hesitação pegou o pote e deu-o à mulher necessitada, juntamente com as suas bênçãos e votos de que lhe fosse concedida uma porção dupla de saúde.

Mas, como é comum com homens como o padre Habeeb, a maioria de seus atos de caridade foram feitos em segredo e conhecidos apenas por poucos. Entre aqueles que são conhecidos, o mais famoso é talvez a história do "Jibbee" (exorasson, o manto comprido do sacerdote, manto preto).

Seu irmão Youssef certa vez enviou ao padre Habeeb um novo Jibbee do Egito. Tendo negócios no Patriarcado, o Padre Habeeb o colocou e seguiu seu caminho ao longo da “rua chamada Direita.” Chegando ao Patriarcado, o Padre Habeeb foi conduzido para cumprimentar o Patriarca. Depois de abençoar o Padre Habeeb, o Patriarca comentou, dizendo: “Que belo Jibbee nova você está vestindo, Abouna. Que seja abençoado! ” Ele respondeu: “E que Deus o abençoe também, Sayedna! Meu irmão me enviou como um presente do Egito. ” "E o que, posso perguntar, você fez com o seu antigo jibbee?" perguntou o Patriarca. “Esta em em casa, Sayedna.” "Ótimo. Mais tarde, mandarei à sua casa um padre idoso de Houran. Se você tiver a gentileza, por favor, dê seu velho jibbee a ele, pois ele e sua congregação são muito pobres. ” O Pai Habeeb colocou a mão sobre o coração e inclinou educadamente a cabeça, dizendo "Como desejar, Sayedna." Mais tarde naquela noite, o padre idoso de Houran chegou à casa do Padre Habeeb. O padre, que estava usando seu velho jibee, deu-lhe as boas-vindas com alegria, deu-lhe o lugar de honra em sua sala de estar, serviu-lhe café e doces com as próprias mãos e deu-lhe um pacote lindamente embrulhado. Quando o sacerdote desembrulhou o presente, ele encontrou o novo jibbee do Egito!

Também se sabe que o Padre Habeeb costumava pedir dinheiro emprestado aos ricos, dizendo que tinha alguma necessidade pessoal. Mas, na verdade, ele pegava o dinheiro e discretamente emprestava aos pobres paroquianos que, por falta de dinheiro, não podiam casar suas filhas. Ele foi especialmente rápido em fazer isso quando descobria que uma garota de sua congregação estava sendo perseguida por um muçulmano.

Após seu martírio, sua família encontrou um caderno no qual ele listou os nomes das pessoas de quem havia emprestado dinheiro e o valor de sua dívida para com elas. Quando sua família procurou pagar essas dívidas, eles descobriram que todo esse dinheiro havia sido dado a ele para ajudar os pobres. Mas ainda assim ele os considerou como dívidas que ele deveria reembolsar.

 

Caráter e virtude

 

O padre Habeeb era puro, honesto, correto e sempre fiel a Deus; ele nunca desconfiou de ninguém. Ele tinha uma personalidade muito clara, descomplicada e elevada. Percebia e lia as pessoas como se fossem um livro aberto em suas mãos. Ele tinha um rosto esguio e brilhante, bem como um corpo esguio. Sua alma carregava seu corpo como um fardo, desejando deixá-lo para trás e ascender ao céu.

Ele sempre parecia estar admirado - mesmo quando confrontado com as coisas mais simples e naturais da criação de Deus. Sempre havia amor e carinho retratados em seu rosto e trabalhando por meio de suas mãos. E quando ele caminhava entre o povo de Deus e os necessitados, ele sempre tinha um presente em suas mãos, uma palavra de conforto em sua boca e uma oração humilde e fiel a oferecer.

Em sua bondade, ele nunca decepcionou ninguém e nunca rejeitou ninguém de mãos vazias. O Senhor Jesus sempre foi a plenitude de sua vida. Ele lutou o bom combate contra todas as tentações. Ele amava a vida ascética e se deleitava com a vida dos santos monásticos. Ele se tornou um verdadeiro templo para o Espírito Santo e viveu como se ferido pelo amor do Senhor Jesus e morreu como tal.

 

Partindo para o Martírio

 

Antes que o padre Habeeb deixasse Damasco e fosse até região ao redor do Monte Hermon, onde seria martirizado, algo anormal aconteceu com ele e ele informou sua esposa sobre isso.

Posteriormente, ela relatou que ele disse: “Hoje, enquanto rezava, senti que fui elevado acima do solo mais do que nunca”. Por alguma razão, com essas palavras seu coração queimou como se estivesse em chamas. Ela implorou que ele não fosse, pois ele insistia em ir mesmo depois que aqueles que haviam prometido acompanhá-lo na viagem haviam recuado. Quando ele se recusou a reconsiderar, ela fechou a porta na cara dele. Ele começou a rir e disse: “O que há de errado com você hoje, Khouriya? Não é comum que você me proíba de ir. Não é a primeira vez que vou para a montanha. ” Por meia hora ela tentou convencê-lo a não ir sozinho, mas não adiantou. Ela não conseguia faze-lo mudar de ideia.

Tudo isso aconteceu na frente de toda sua família, mas ele ainda insistiu em ir embora. Ela finalmente cedeu, aceitou sua bênção e se despediu dele. Quando ele partiu, ela o abençoou com o sinal da cruz e o recomendou à Mãe de Deus.

 

Uma testemunha gloriosa


Durante toda a sua vida, o Pai Habeeb rezou para ser considerado digno de glorificar a Deus por meio do martírio, como seu pai, e Deus concedeu-lhe que ele fosse Sua testemunha gloriosa em 16 de julho de 1948. Enquanto rezava naquele dia, em um local remoto fora da vila de 'Aarnah, o padre Habeeb foi atacado por um bando de contrabandistas, que, quando descobriram que ele era cristão e um padre, zombaram dele e o torturaram brutalmente, o espancando por mais de quatro horas, quebrando todos os ossos de seu corpo. Depois de saciarem sua fome torturando-o e perseguindo-o, eles jogaram o padre Habeeb de um penhasco do alto da montanha. Assim, este piedoso sacerdote se tornou um glorioso Hieromártir de Cristo. Quando seus assassinos foram pegos, eles tentaram se defender dizendo que pensaram que ele era um espião israelense.

Mas durante o julgamento, essa alegação se revelou uma mentira e a verdade foi esclarecida: eles haviam o matado porque sabiam que ele era cristão e sacerdote. É a partir da transcrição oficial do julgamento do tribunal - da própria boca de seus assassinos - que ficamos sabendo da tolerância do padre Habeeb e das circunstâncias precisas de seu glorioso fim. Mesmo sendo violentamente espancado e chutado por horas a fio, o Padre Habeeb nunca parou de pregar o Evangelho do amor aos seus torturadores, abençoando-os enquanto amaldiçoavam a ele e a seu Cristo, e pedindo a Deus que os perdoasse. No final, um desses homens, Ahmed Ali Hassan Abi-Alhassan, foi considerado culpado do assassinato do padre Habeeb e foi executado pelo governo sírio na manhã de 25 de setembro de 1948. O corpo do Hieromártir de Cristo, o sacerdote Habeeb Kheshy, foi enterrado no Cemitério de São Jorge, localizado a leste da muralha da cidade de Damasco.

Santo Hieromárir Habeeb, pai paciente e amigo dos pobres, rogai a Cristo Deus por nós!

 

(Embora ele ainda não tenha sido canonizado pela Igreja Ortodoxa de Antioquia , uma veneração popular existe entre os fiéis das Arquidioceses de Damasco e Haurun , onde é chamado de "o Novo Hieromártir Habeeb". Este procedimento é totalmente comum ao ethos Ortodoxo. Para maiores esclarecimentos sobre o processo de glorificação de um Santo na Igreja Ortodoxa, ler A Glorificação dos Santos na Igreja Ortodoxa)

sábado

Santo Elian de Homs, Anárgiro e Mártir (6 de fevereiro)

 






6 DE FEVEREIRO - DIA DE SANTO ELIAN DE HOMS


por Pe George Alberts


Santo Elian aceitou a fé cristã, embora seu pai e sua família não fossem cristãos. Por causa disso, ele e sua família estavam em conflito constante.

Quando Santo Elian se tornou cristão, ele fez um balanço dos talentos que Deus havia lhe dado. Ele ouviu o Evangelho de nosso Senhor sobre a parábola dos talentos e decidiu usar seus talentos para beneficiar outras pessoas. Santo Elian é descrito por seus biógrafos da seguinte maneira:


“Tendo depositado suas esperanças em Jesus Cristo, ele não foi tentado pela glória deste mundo efêmero. Ele orava dia e noite, praticava o jejum, visitava prisioneiros e os confortava. Dava uma grande esmola do que sobrava na casa de seu pai. Elian estudou e praticou medicina com habilidade. Ele se esforçou para curar as doenças do corpo e da alma.  Curou enfermos pela graça de Cristo e pela fé dos Apóstolos, enquanto pregava a Palavra de Deus e os exortava a seguir o caminho da virtude.  'Não é', diz ele, 'com remédios que você será curado de sua doença, nem graças aos seus ídolos que levam à perdição todos aqueles que se ajoelham diante deles, mas pelo poder do nome de Jesus Cristo que foi crucificado pelo Judeus sob Pôncio Pilatos em Jerusalém, que foi sepultado e ressuscitado no terceiro dia. '”

 

Por causa de seu domínio das artes da cura e do fato de que ele não apenas curou efetivamente o corpo, mas também a alma, ele despertou ciúme no coração de seus colegas médicos que não eram seguidores de Cristo.  Houve uma grande perseguição aos cristãos naquela época e eles usaram sua fé cristã contra ele. Primeiro, eles apelaram para seu pai, que ocupava uma posição de poder na cidade.  Eles pediram que ele forçasse o filho a parar o que estava fazendo, a abandonar a prática da medicina e a parar de curar em nome de Jesus Cristo.   Mas Santo Elian recusou-se a ouvir esses homens, ou seu pai, sabendo que ele teria que prestar contas a Seu Mestre Celestial sobre o que ele fez com os muitos talentos que Deus lhe deu.  Quando descobriram que ele não daria ouvidos a eles ou a seu pai, apelaram ao governador de Homs para que aprisionasse Santo Elian junto com o bispo de Homs, Silouan, o diácono Lucas e o leitor Mocime.

Santo Elian sentiu-se indigno e muito feliz por estar em sua companhia e beijou e reverenciou as correntes que os prendiam.  Quando esses homens estavam prestes a morrer, Santo Elian orou a Deus e um anjo apareceu a ele e disse: “Não te aflijas, Elian, uma coroa foi preparada para ti. Você conquistará seus inimigos e os truques do diabo. Não tema a tortura, pois estou com você! ”

Santo Elian sofreu muitas dificuldades. Ele sofreu prisão e torturas, o tempo todo pregando e curando os enfermos.  Finalmente, ele foi executado nas mãos de seu próprio pai, e  teve doze longos pregos cravados em sua cabeça. Santo Elian foi dado como morto, mas ele não havia morridoQuando seus algozes partiram, ele conseguiu rastejar até a caverna de um oleiro. Quando o oleiro chegou à caverna e descobriu o corpo de Santo Elian, levou-o à noite para a igreja dos Apóstolos e de Santa Bárbara, onde foi sepultado a Leste do Altar.

Mais tarde, uma Igreja dedicada a Santo Elian foi construída no local da caverna onde ele morreu e seu corpo foi colocado em um caixão de mármore. Muitos milagres atribuídos às intercessões de Santo Elian ocorreram após sua morte e continuam a ocorrer até hoje. Antes de ser condenado à morte, o próprio Santo Elian abençoou aqueles que celebram seu dia de festa ao oferecer esta oração a Deus:

“Ó meu Senhor Jesus Cristo, ouve minha oração e aceita meu pedido nesta hora.  Dá paz a quem se lembra de mim no dia do meu martírio e perdoa os seus pecados. Proteja-o das armadilhas de seus inimigos e destrua o poder do diabo. Defenda seus cordeiros contra os lobos! "

Existem apenas duas Igrejas dedicadas a este grande santo: greja original de Santo Elian, em Homs, Síria, e a Igreja de Santo Elian em Brownsville, PA. Santo Elian é frequentemente citado como Santo Julian de Homs. Hoje, muitos levam seu nome em uma dessas duas formas. Santo Elian é considerado um Santo Anárgiro, um médico que não aceitava dinheiro para as curas do corpo e da alma. Muitos que estão doentes continuam a pedir suas intercessões e muitas vezes são ungidos com óleo abençoado com uma oração especial em seu dia de festa.

No dia da sua festa, rezemos as palavras do seu Tropário:  "Ó Santo paladino e médico Elian, interceda junto ao nosso Deus misericordioso, para conceder o perdão dos pecados às nossas almas."

quinta-feira

O Significado das Festas e dos Jejuns na Ortodoxia - Arquimandrita Gregorios(Estephan)

 



 

Por Arquimandrita Gregorios(Estephan) -Pai Espiritual do Mosteiro da Dormição da Mãe de Deus - Bkeftine

 

Grandes jejuns existem antes das grandes festas, cada um de acordo com a grandeza de cada festa. Cada jejum é uma oportunidade para lembrarmos de nossos pecados e nos arrependermos, e cada festa é uma oportunidade de entrarmos no mistério do evento que está sendo celebrado. Na Natividade, temos a oportunidade de participar no mistério de Deus que, antes de julgar, amou e Se sacrificou pelos seus entes queridos. Se jejuarmos e lutarmos contra o inimigo, que tenta nos arrastar para longe de Cristo afogando-nos nas preocupações mundanas e nos preparativos da festa, então Cristo revelará Sua existência dentro de nós - nem na Terra visível, nem no céu invisível, mas na pequena manjedoura de nosso coração visível e invisível.

 

Quem realmente jejua, com arrependimento e lágrimas, aguarda pela festa para celebrá-la com vigílias, orações e louvores. Assim, os verdadeiros cristãos são dignos de celebrar suas festas e de entrar no mistério da economia de Cristo para nossa salvação. As festas são para os que jejuam; aqueles que não jejuam são incapazes de perceber qualquer coisa da essência dessas festas - não porque Deus não os aceita, mas porque eles próprios são incapazes de encontrar a Deus. Como tal, Deus não se escondeu de Adão, mas sim, Adão não foi capaz de enfrentar Deus, porque ele foi negligente e submeteu-se às suas paixões. Jejuar com conhecimento e discernimento significa apenas uma coisa: uma luta incansável contra o pecado que reside em nós, contra as paixões e desejos que nos separam de Deus. Este é o sacrifício que o homem oferece a Deus na preparação de suas festas: uma alma laboriosa que ama os jejuns e odeia as paixões e os desejos. É por isso que dizemos que quem não jejua nunca entenderá o significado de uma festa.

 

O Jejum da Natividade entrou na vida da Igreja em um estágio posterior, após a própria festa ter sido introduzida no século IV, porque a Igreja organizou sua vida litúrgica gradualmente. Nada na Ortodoxia desceu do céu como está, mas tudo nela é verdadeiramente inspirado do Céu. A graça do Espírito Santo está sempre presente na Igreja, mas é concedida a quem dEla participa dignamente. Certamente sabemos que Deus envia uma graça especial durante as festas da Igreja, uma graça abundante para aqueles que participam dessas festas com jejum e arrependimento. Tal deve ser verdadeiramente com Cristo durante Suas festas e as celebrações de Seus santos.

 

A comemoração destas festas não atinge o seu significado profundo, exceto na Liturgia. Aqui, a comemoração é elevada de sua forma intelectual desprovida à verdadeira comunhão do homem na graça divina que governa a festa. É um grave erro quando algumas paróquias encurtam os serviços litúrgicos e celebram a festa da Divina Liturgia à noite, por cerca de uma ou duas horas, e após terminar o que pertence a Cristo, as celebrações mundanas começam. Claro, reuniões familiares com comida e bebida não são um impedimento para a celebração - o que está errado é transformar o objetivo da festa neste encontro mundano, em vez de viver o evento da Natividade com vigília e oração noturna a Cristo, que nasceu para nós. Qual o sentido da festa quando ela começa com uma rápida Divina Liturgia, onde os fiéis participam sem preparação, como se fosse um compromisso social, e termina com festividades mundanas que duram a noite toda? Esta festividade não deve ser celebrada à noite - a noite não é um momento de festividade. Nem é preciso dizer que a ideia de uma Divina Liturgia noturna* está totalmente errada. Este é um pecado da Igreja que não será perdoado - quando ela começa a se submeter ao descuido de seus membros, sustentando seu estilo de vida mundano que é destruído por paixões e fraquezas. A Igreja, preocupada com a salvação do povo, que será uma minoria, um remanescente, não deve ceder nem mesmo uma letra de sua lei espiritual, que livra seus fiéis de estarem imersos nos cuidados mundanos, direcionando-os a desejar apenas o que pertence a Deus. As necessidades pastorais não permitem abdicar das regras da vida litúrgica. O objetivo da Igreja neste mundo não é reunir uma multidão de pessoas que se contentam com uma dose menor do que é essencial na vida da Igreja, mas produzir santos por meio da vivência da plenitude da experiência espiritual litúrgica.

 

Cristo encarnou para cumprir esse objetivo, para direcionar toda a nossa jornada de vida para o céu. O perigo real que a Igreja enfrenta hoje não se limita apenas às celebrações mundanas da Natividade de Cristo, mas é mais grave: o mundo tenta leva-la a apagar toda a verdade e o objetivo da Encarnação de Cristo, à semelhança do que aconteceu no Ocidente cristão, onde o cristianismo foi transformado em disciplina moral, destinada a estabelecer a sociedade ideal, ao invés do novo homem unido à Ressurreição de Cristo.

 

A humanidade esperou milhares de anos por esta noite. Toda a jornada do Antigo Testamento se completa nesta noite, quando Deus está encarnado, assumindo a forma de um homem. A história testemunha que Deus suportou as fraquezas, pecados e iniquidades das pessoas com grande paciência, para que fossem aceitos como filhos em vez de escravos. Isso é o que significa plenitude dos tempos. Anjos vieram do céu para pregar a toda a criação sobre este evento. Os magos do Extremo Oriente vieram; eles certamente viram o anjo que pregou a concepção de Cristo no ventre da Virgem, de modo que eles chegaram no dia de Sua Natividade. Eles jejuaram e trabalharam, então celebraram com o próprio Cristo. Suas vidas eram uma expectativa desse grande acontecimento. Eles virão nEle o Senhor dos planetas e das estrelas, vindo para sua salvação. Quanto a nós, ao nos apressarmos em uma rápida Divina Liturgia, estamos de alguma forma dizendo a Cristo: “Você tem as suas festas e nós temos as nossas”. A Igreja deve lembrar a seus fiéis que o Reino de Deus não é comer e beber, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14:17); e isso é realizado unicamente na Igreja, em seus jejuns e em todos os detalhes de viver sua fé e sua vida litúrgica.

 

Os cristãos se esqueceram que a Divina Encarnação revelou como Deus busca o homem, não para amarrar sua liberdade, mas para dar-lhe o Seu próprio Ser. Ele não veio como um poderoso deste século; Deus se revelou desta forma humilde, não para mostrar que Ele é realmente manso e humilde de coração, mas porque esta é a única maneira que não afeta negativamente a liberdade do homem em sua fé em Deus. Por meio desta humilde Encarnação, Deus manteve a oportunidade do homem de descobrir livremente a Deus.

 

Deus não nos criou para a morte, mas para a vida. O objetivo da Encarnação é nos gerar novamente desta morte eterna que aceitamos voluntariamente: Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o que estava perdido (Lc 19,10). Os hinos festivos nos ensinam como nos preparar para a salvação vindoura: “Venham, fiéis inspirados por Deus, levantem-se e vejam a descida de Deus do alto! Ele se manifesta a nós em Belém! Vamos limpar nossas mentes e oferecer a Ele, em vez de mirra, uma vida de virtude. Vamos nos preparar com fé para celebrar Sua Natividade, acumulando tesouros espirituais e clamando: Glória a Deus nas Alturas! ”

 

*Como apresentado anteriormente no texto, Abouna Gregorios fala da Divina Liturgia celebrada isoladamente, sem as orações e vigílias que deveriam precede-la. No Oriente, estas vigílias são chamadas “Sehraniyye” e costumam ter entre seis e onze horas de duração(geralmente Mosteiros).

**Por motivos de saúde, ou alguma impossibilidade incontornável, a não realização de um jejum prescrito pela Igreja deve ser tratado diretamente com o pai espiritual, que vai conduzir a pessoa da melhor maneira possível, de modo que ela não tenha prejuízos espirituais pela não realização deste jejum.


Tradução: Hipodiácono Paísios

Vida de São João Damasceno





Por São Dimitri de Rostov
Nosso venerável pai João nasceu na grande cidade de Damasco, Síria, de pais nobres e piedosos, cuja fé ardente em Cristo, testada pelas tentações, era mais preciosa do que o ouro experimentado pelo fogo. Eles viveram em tempos perigosos, pois os sarracenos haviam conquistado aquela terra e tomado a cidade, trazendo terrível calamidade sobre os cristãos. Alguns foram mortos, outros vendidos como escravos e não era permitido que ninguém confessasse a Cristo publicamente. Os pais de João, no entanto, guardados pela providência, permaneceram ilesos e sua propriedade foi deixada intacta. Eles se apegaram à santa fé, e Deus os concedeu que ganhassem o favor dos sarracenos, como outrora José havia conquistado o favor dos egípcios e Daniel dos babilônios. Assim, os ímpios Hagarenos não proibiram os pais do santo de acreditarem em Cristo ou de glorificarem Seu nome. O pai de João foi nomeado magistrado da cidade e comissário de edifícios públicos. Desfrutando da confiança dos governantes, ele foi capaz de beneficiar seus irmãos cristãos grandemente, resgatando cativos, libertando os aprisionados e encarcerados, comutando as sentenças daqueles condenados à morte, e estendendo uma mão amiga a todos os que sofriam. Os pais de João brilhavam entre os hagarenos de Damasco como faróis durante a noite, ou brasas ardendo entre as cinzas. Eles foram preservados por Deus, assim como a linhagem sagrada de Davi em Israel, porque o Senhor os escolheu para serem os pais de um filho que se manifestaria como uma luz brilhante, iluminando o mundo inteiro.
Embora os muçulmanos proibissem que alguém nascesse da ‘água e do Espírito’, os pais de João, ansiosos para torná-lo um filho da luz, não hesitaram em batizá-lo. Quando o filho (o homônimo de graça) cresceu, seu pai teve o cuidado de educá-lo bem: não lhe ensinando os costumes dos sarracenos, nem as artes militares, nem como caçar, nem aprendizagem mundana de qualquer tipo, mas mansidão, humildade e temor de Deus, familiarizando-o também com as divinas Escrituras. Além disso, ele orou fervorosamente a Deus para que Ele enviasse um professor sábio e devoto que instruísse seu filho mais perfeitamente nas virtudes. Deus ouviu sua oração e concedeu-lhe seu desejo da seguinte maneira:
Os bárbaros que viviam em Damasco realizavam incursões frequentes por terra e mar contra outros países, levando cristãos cativos para sua cidade, alguns para serem vendidos como escravos nos mercados, outros para serem submetidos à espada sem piedade. Certa vez, eles capturaram um monge da Itália chamado Cosmas, um homem de aparência nobre e ainda maior era a nobreza de sua alma. Como Cosmas estava sendo oferecido à venda no mercado com outros cativos, aqueles que deveriam ser mortos caíram a seus pés, suplicando que orasse a Deus por suas almas. Vendo a honra em que ele foi abordado por aqueles que iam para a morte, os sarracenos perguntaram a Cosmas que status ele possuía entre os cristãos em sua terra natal. Ele respondeu: "Eu não possuía posição e nunca fui considerado digno do sacerdócio. Sou apenas um monge pecador, embora um estudante de filosofia, tanto cristã quanto pagã". Então ele começou a chorar, derramando lágrimas amargas.
Não muito longe estava o pai de João, que reconheceu o ancião como um monge por conta de sua roupa. Desejando consolá-lo, ele se aproximou e disse: "Por que, ó homem de Deus, você chora? É porque você perdeu sua liberdade terrena? Mas seu traje proclama que há muito tempo você renunciou ao mundo e morreu para ele".
"Eu não choro porque perdi minha liberdade", respondeu o monge. "Eu morri para o mundo há muito tempo, como você diz, e não me importo com isso. Eu sei bem que há outra vida, melhor que esta, imortal e eterna, preparada para os servos do Senhor, que eu espero herdar com a graça de Cristo meu Deus, eu lamento porque deixarei esta vida sem filhos, sem um herdeiro ".
O pai de João disse surpreso: "Você é um monge, pai, e se consagrou a Deus, prometendo preservar sua castidade. Não é permitido gerar filhos. Você não deve se entristecer com isso".
"Você não entende minhas palavras, senhor", respondeu o monge. "Eu não falo de filhos de acordo com a carne ou de uma herança material, mas de coisas espirituais. É claro que eu não possuo nada; no entanto, eu possuo uma grande riqueza de conhecimento, que trabalhei arduamente desde a minha juventude para adquirir. Com a ajuda de Deus, dominei todas as ciências do mundo, incluindo a retórica e a dialética, a filosofia de Aristóteles e Platão, a geometria e a teoria da música. Eu me familiarizei completamente com os movimentos dos corpos celestes e os rumos das estrelas, de modo que através da beleza da criação eu possa chegar a uma compreensão mais clara do sábio Criador. Eu finalmente aprendi bem os mistérios da Ortodoxia como expostos pelos teólogos gregos e romanos. Embora eu possua tal conhecimento, eu não consegui entregá-lo a outro. Agora já não há qualquer possibilidade para que eu ensine o que aprendi. Eu não tenho discípulo, e pouco tempo resta para mim, pois estou certo de que vou morrer aqui pela espada dos Agarenos. Então, eu vou aparecer diante do Senhor e ser comparado à árvore que não deu frutos e ao servo que enterrou o talento de seu mestre no chão. É por isso que eu choro e lamento. Como um homem casado que não tem filho, não deixo nenhum herdeiro espiritual para herdar a riqueza do meu conhecimento ".
O pai de João se regozijou quando ouviu isso, porque estava certo de que encontrara o tesouro pelo qual procurara por tanto tempo. Ele confortou o ancião: "Não se entristeça, Pai; porque Deus ainda pode conceder-lhe o desejo do seu coração". Então, ele se apressou ao califa dos sarracenos e, caindo a seus pés, implorou seriamente para ser dado o monge em cativeiro. O califa não o recusou, e o pai de João alegremente levou o precioso dom do governante, o abençoado Cosmas, para sua casa, onde lhe ofereceu hospitalidade e a oportunidade de descansar. Ele procurou consolar o monge, que havia sofrido muito nas mãos dos muçulmanos, dizendo: "Pai, minha casa é sua e desejo que você compartilhe todas as minhas alegrias e tristezas". Ele acrescentou: "Deus não só lhe concedeu a liberdade, mas também o desejo do seu coração". Então ele apresentou seus dois filhos e disse: "Eu tenho dois filhos, meu filho João e um menino que, como você, leva o nome de Cosmas. Ele nasceu em Jerusalém e ficou órfão quando ainda era um bebê e eu o adotei. Tu, Pai, instrui-os nas ciências e na boa conduta, ensinando-lhes todas as virtudes, serão teus filhos espirituais, gerados de novo pelos vossos ensinamentos, trazendo-os e tornando-os herdeiros das vossas riquezas espirituais, riquezas que ninguém pode roubar. "
O bendito ancião Cosmas se alegrou, glorificou a Deus e começou a instruir os jovens com toda a diligência. Desde que os meninos eram inteligentes, eles progrediram rapidamente em seus estudos. Como uma águia pairando no ar, João alcançou a compreensão de elevados mistérios, enquanto Cosmas, seu irmão espiritual, em um curto espaço de tempo percorreu as profundezas da sabedoria, atravessando rapidamente o mar da aprendizagem como um barco impulsionado por um vento favorável. Estudando assiduamente, como Pitágoras e Diofanes, eles dominaram a gramática, a dialética, a filosofia e a aritmética. Tão profunda era sua compreensão da geometria, que eles poderiam ter sido chamados de novos Euclides. Os hinos e versos eclesiásticos que eles compuseram, atestavam sua habilidade na poesia. Eles também estavam bem familiarizados com a astronomia e os mistérios da teologia. Além de ensiná-los em todos esses assuntos, seu professor os instruiu em boa moral e vida de virtude. Em uma palavra, ambos adquiriram perfeita compreensão da sabedoria espiritual e externa, especialmente João, que fez seu professor maravilhar-se. João superou até mesmo seu tutor em certos campos do conhecimento, tornando-se um grande teólogo, um fato que seus livros divinamente inspirados e sábios atestam. No entanto, ele não se tornou orgulhoso por causa de sua aprendizagem: como uma árvore frutífera que se inclina para o chão à medida que se torna mais carregada de frutas, então João, o abençoado amante da sabedoria, pensava cada vez menos em si mesmo em seu coração, quanto mais se destacava em seus estudos. Ele sabia como extinguir as vaidosas imaginações e pensamentos apaixonados da juventude, e se acendeu dentro de sua alma, radiante com a sabedoria espiritual, o fogo do desejo divino, que brilhava como uma lâmpada cheia de óleo.
Certo dia, o professor Cosmas disse ao pai de João: "Meu senhor, o seu desejo foi cumprido. Seus filhos estudaram bem, superando-me em conhecimento. Graças à boa memória e trabalho diligente, eles sondaram as profundezas da sabedoria. Deus concedeu aumento para os dons concedidos a eles, e eles não podem aprender mais nada de mim. Na verdade, eles estão prontos para ensinar aos outros. Por isso peço-vos, meu senhor, conceda-me partir para um mosteiro, onde eu possa me tornar um discípulo de monges que alcançaram a perfeição e podem me instruir em sabedoria superior. A sabedoria externa que dominei me conduz [em direção] à filosofia espiritual, uma sabedoria mais pura e mais honrosa do que qualquer ciência mundana, pois beneficia a alma e a leva à salvação. "
O pai de João ficou triste com isso, porque ele estava relutante em se separar de um instrutor tão sábio e digno. Ele, no entanto, não se atreveu a impedir o                                                 ancião de fazer o que desejava, ou lhe deu motivo para tristeza. Recompensando-o generosamente, ele permitiu que o ancião partisse em paz. Cosmas se instalou no Mosteiro de São Sabbas(Mar Saba), onde permaneceu, levando a vida de virtude até o dia de sua partida para Deus, a mais perfeita Sabedoria.
Algum tempo depois, o pai de João também morreu, já bastante idoso. O califa convocou João, desejando torná-lo seu principal conselheiro, mas João recusou, tendo outro desejo: trabalhar pelo Senhor em silêncio. No entanto, ele foi forçado a aceitar a posição e foi revestido de uma autoridade ainda maior que a de seu pai na cidade de Damasco.
Naquela época, Leão, o Isauro, reinou sobre o Império Grego[Romano do Oriente]. Ele se levantou contra a Igreja de Deus como um leão que ruge, expulsando os santos ícones das Igrejas do Senhor, convertendo-os em chamas e destruindo impiedosamente aqueles que os veneravam. Ouvindo isso, João foi despertado com zelo pela piedade, como Elias, o tisbita e precursor de Cristo. Ele pegou a espada da palavra de Deus e cortou os argumentos heréticos do imperador inumano, escrevendo muitas epístolas em defesa dos ícones sagrados. Estas ele distribuiu entre os Ortodoxos, demonstrando sabiamente, a partir das antigas tradições dos Padres teóforos, que é apropriado honrar os ícones sagrados. Ele pediu a seus leitores que mostrassem as cartas a outros irmãos Ortodoxos e as confirmassem na fé. Assim, o abençoado João viajou o mundo inteiro, não a pé, mas por meio de suas cartas divinamente inspiradas, que foram lidas em todos os lugares do Império Grego[Romano Oriental], confirmando os Ortodoxos em piedade e revolvendo os hereges como se estivessem com um aguilhão. A notícia disso chegou ao impiedoso Imperador Leão, que, incapaz de suportar essa denúncia de sua impiedade, convocou outros hereges que compartilhavam de suas opiniões e ordenou que inquirissem aos Ortodoxos por uma cópia de uma carta escrita de próprio punho por João. Se um dos agentes do Imperador descobrisse tal carta, ele a tomaria sob o pretexto de que desejava lê-la. Depois de muito esforço, uma carta escrita pelo próprio João foi encontrada e levada diretamente ao imperador. Ele, por sua vez, entregou-a aos seus escribas habilidosos, ordenando-lhes que copiassem a caligrafia e escrevessem uma carta que se propunha ser uma mensagem de João para ele. A carta forjada dizia o seguinte: "Salve, ó imperador! Em nome de nossa fé comum eu me regozijo em seu poder, prestando devida homenagem à sua Majestade Imperial. Quero lhe dar a conhecer que nossa cidade de Damasco, que é mantida pelos sarracenos, é mal defendida por eles, com uma guarda fraca e desprezível, por isso peço-lhe, pelo amor de Deus, que mostre compaixão e envie seu valente exército para nosso resgate. Se ele fingir estar indo para outro lugar, e então de repente cair sobre Damasco, a cidade pode ser tomada sob sua regra sem dificuldade. Eu farei muito para ajudá-lo nisso, pois a cidade e todo este país estão sob minha administração. "
Em seguida, o imperador desonesto ordenou que uma carta sua para o Califa sarraceno fosse escrita. Esta carta dizia: "Nada, creio eu, é mais abençoado do que viver em amizade e desfrutar de relações amistosas com os vizinhos, pois manter um voto de paz é algo muito louvável e agradável a Deus. Realmente, desejo sempre manter a paz, que eu concluí ser convosco muito honrosa e fiel. No entanto, um cristão notável que vive em seu domínio, muitas vezes me envia cartas pedindo-me para atacá-lo sem aviso e prometendo entregar a cidade de Damasco em minhas mãos, sem uma grande batalha, e que devo ir com o meu exército. Como sinal da minha amizade e para que você possa saber a verdade do que eu escrevo, eu estou lhe enviando uma das cartas escritas por aquele Cristão. Assim informado de sua traição audaciosa, você irá saber como recompensá-lo. "
O imperador enviou as duas cartas ao Califa. Depois de lê-las, o príncipe bárbaro convocou João e mostrou-lhe a carta forjada, que ele supostamente havia escrito. João examinou-a cuidadosamente, dizendo: "A caligrafia é parecida com a minha, mas não fui eu quem a escreveu. Nunca me ocorreu escrever ao imperador ou lidar falsamente com meu mestre!"
João entendeu imediatamente que se tratava de uma trama dos hereges maliciosos e astutos, mas o Califa enfureceu-se e ordenou que a mão direita de João fosse cortada. João implorou ao governante que lhe permitisse explicar o motivo do ódio do imperador maligno em relação a ele e lhe dar um pouco de tempo para estabelecer sua inocência, mas isso foi recusado. O Califa não permitiria demora, de modo que a mão direita de João, que tanto fortalecera os Ortodoxos e os ajudara a permanecer fieis a Deus, foi cortada. Aquela mão que censurara com grande vigor aqueles que odiavam o Senhor, estava agora manchada, não com tinta da caneta usada para defender os santos ícones, mas com seu próprio sangue.
Depois da amputação, a mão de João foi pendurada no mercado da cidade, e o santo, fraco pela dor e pela perda de muito sangue, retornou à sua casa. Pouco antes da escuridão cair, o santo foi informado de que a ira do Califa havia diminuído; João enviou-lhe este pedido: "Minha dor continua a aumentar, dando-me um tormento indescritível. Permita que minha mão seja devolvida do mercado, meu senhor, para que eu possa enterrá-la e assim aliviar minha dor".
O Califa atendeu ao pedido e, quando a mão foi trazida, João entrou em sua sala de oração e caiu no chão, diante de seu ícone da Puríssima Theotokos. Pressionando a mão decepada em seu pulso, ele suspirou e chorou, rezando do fundo do seu coração: "Ó Senhora, a mais pura Senhora e Mãe de Deus, eis que: minha mão direita foi cortada pelo tirano Leão, por causa dos santos ícones! Tudo o que quiseres, tu podes realizar, pois através de vossas santas orações, a mão direita do Altíssimo, Que foi Encarnado através ti, faz numerosos milagres, portanto vem rapidamente ao meu auxílio, para que Ele cure a minha mão. Por tua intercessão, ó Theotokos, que seja novamente permitido a mim defender a fé Ortodoxa, que minha mão escreva uma vez mais em louvor a ti e a teu Filho!”



Deste modo João adormeceu e contemplou, em um sonho, a Puríssima Theotokos olhando para ele do ícone, com olhos calorosos e compassivos. Ela disse: "Sua mão foi restaurada. Não se preocupe mais, mas retorne ao seu trabalho e trabalhe diligentemente, como um escriba que escreve rapidamente, como você me prometeu."
João levantou-se do sono, sentiu a mão direita e percebeu que de fato fora curado. Seu espírito se alegrava em Deus, seu Salvador, e na Puríssima Mãe do Senhor, que havia realizado um grande feito para ele. Ele se alegrou durante toda a noite em sua casa, cantando um novo hino: "Tua mão direita, ó Senhor, é gloriosa em poder. Tua mão direita curou minha mão decepada e esmagará Teus inimigos, que não reverenciam Tua preciosa imagem, ou aquela de Tua Puríssima Mãe. Destruirá aqueles que destroem os ícones e multiplicará a Tua glória! "
Os vizinhos de João ouviram ele e os outros cantando canções de alegria e agradecimento, e ao saber o motivo de sua alegria, maravilharam-se grandemente. Não demorou muito para que o Califa soubesse disso também. Ele convocou João e ordenou que ele mostrasse sua mão decepada. Ao redor do pulso direito de João havia uma marca como um fio vermelho, que a Mãe de Deus permitiu permanecer como testemunho do fato de que sua mão fora realmente cortada. Vendo isso, o Califa perguntou a João que médico havia voltado a mão ao pulso e que tratamento havia sido usado para curá-lo. João não hesitou em proclamar ousadamente: "Foi o meu Senhor, o Poderoso médico que me curou! Ele deu ouvidos à minha fervorosa súplica, oferecida por meio de Sua Puríssima Mãe, e restaurou a mão que você cortou".

"Ai de mim!" lamentou o Califa. "Eu te condenei, um homem bom, injustamente, sem investigar a acusação feita contra você. Suplico-lhe que me perdoe por julgar tão apressadamente e imprudentemente. Concorda em aceitar sua antiga posição de conselheiro-chefe. Daqui em diante nada será feito no reino sem seu conselho ou consentimento! " Mas João caiu aos pés do Califa e implorou para ser libertado do serviço. Ele implorou ao governante que não o proibisse de seguir o caminho que sua alma desejava, que permitisse que ele seguisse ao Senhor com aqueles que renunciaram a si mesmos e ao mundo, e tomaram o jugo de Cristo. O Califa não queria concordar, pois desejava manter João como superintendente de seu palácio e de todo o seu domínio. Cada um continuou suas tentativas de persuadir o outro, mas finalmente João prevaleceu.
Voltando para casa, João imediatamente distribuiu suas posses entre os pobres, libertou seus servos e partiu para Jerusalém com Cosmas, seu irmão adotivo. Depois de venerar os Lugares Santos, ele foi ao Mosteiro de São Sabbas(Mar Saba), onde implorou ao abade que o aceitasse como ovelha perdida e o admitisse em seu rebanho escolhido. O superior e os irmãos sabiam de João, já que ele era famoso até na Palestina devido aos seus escritos e à alta posição que ele possuía. Regozijando-se porque tal homem tinha vindo a ele em pobreza e humildade, o abade o recebeu com amor. Ele pediu por um irmão experiente no ascetismo, para confiar o noviço aos seus cuidados na formação em filosofia espiritual e nas tradições do monaquismo, mas o monge se recusou a aceitar João, não querendo ser professor de um homem que superou tantos em conhecimento. Então o abade convocou outro, mas este também recusou. Um terceiro e um quarto monge foram trazidos, mas eles e todos os demais declararam que eram indignos de instruir tal homem. Todos estavam assustados com o amplo aprendizado de João e com o antigo posto exaltado. Finalmente, um ancião simples, porém sábio, foi convocado e concordou em ser o guia de João. O ancião recebeu João em sua cela, e desejando estabelecer para ele o fundamento de uma vida de virtude, primeiro impôs a ele as seguintes regras: nunca fazer nada de acordo com sua própria vontade; oferecer a Deus seus esforços e fervorosas súplicas como sacrifício; e derramar lágrimas para lavar os pecados de sua vida anterior, já que Deus considera as lágrimas como uma oblação mais preciosa do que qualquer incenso. Essas regras, considerava o ancião, eram a base para as obras superiores, que são aperfeiçoadas pelos trabalhos do corpo. Além disso, ele exigiu que João não cultivasse pensamentos mundanos; que ele não se detivesse em imagens impróprias, mas preservasse sua mente pura, intocada por todo apego vão; e que ele não se gabasse de sua aprendizagem ou considerasse que, pelos seus estudos, ele havia alcançado um perfeito entendimento. Ele também proibiu João de buscar revelações ou a compreensão de mistérios ocultos, ou imaginar que sua razão permaneceria inabalável até o fim de sua vida, e que ele nunca se afastaria do caminho da verdade. Pelo contrário, ele o avisou que os pensamentos dos homens são fracos e seu entendimento prejudicado pelo pecado. Por essa razão, ele disse para João não permitir que seus pensamentos vagassem, mas que tivesse o cuidado de controlá-los, de modo que sua mente fosse iluminada por Deus, sua alma santificada e seu corpo purificado de toda impureza. Ele ordenou ao santo que se empenhasse em conciliar corpo, alma e mente, como uma imagem da Santíssima Trindade, e não se deixar ser governado nem pelo corpo nem pela alma, mas pela faculdade noética. Desta forma, é possível que um homem se torne completamente espiritual. Tais foram as regras dadas a seu filho e aluno por este pai e professor, que acrescentou a eles estas palavras: "Não escreva a ninguém, e não dialogue com nenhuma das ciências seculares. Mantenha um silêncio discreto. Lembre-se de que não são apenas os nossos sábios que ensinam o valor de uma vida tranquila; Pitágoras também fez com que seus discípulos mantivessem um longo silêncio. Preste atenção a Davi, que disse: "calava-me mesmo acerca do bem", e entenda que não é proveitoso falar fora de ocasião. E que ganho ele obteve do silêncio? Ele diz: "Meu coração ficou quente dentro de mim;" isto é, o fogo do amor divino foi aceso nele pela reflexão sobre Deus ".

Mosteiro de "Mar Sabba", Palestina
As instruções do ancião caíram como sementes em solo fértil no coração de João, enraizando-se ali. João viveu por muito tempo com o ancião divinamente inspirado, cumprindo cuidadosamente suas ordens e submetendo-se a ele sem pretensão, contestação ou murmuração. Mesmo em seus pensamentos ele nunca contradisse os mandamentos do ancião, e ele escreveu em seu coração esta frase como em tábuas de pedra: "Todo mandamento dado pelo pai deve ser obedecido sem ira e sem dúvida, como o Apóstolo diz." De fato, como um novato se beneficia ao cumprir uma tarefa com as mãos, enquanto resmunga com os lábios? Que ganho há em fazer o que é ordenado, ao mesmo tempo em que contradiz a língua e a mente? Como tal homem pode alcançar a perfeição? Nunca alcançará seu objetivo. Ele trabalha em vão, pois ao pensar que alcançou a virtude através da obediência, ele apenas escondeu uma serpente no peito ao reclamar. Mas o abençoado João, que era verdadeiramente obediente, nunca resmungou, não importando quais tarefas ele tivesse que executar.
Um dia, o ancião, desejando testar a humildade de João, ordenou que ele trouxesse um grande número de cestas, que eles fizeram para vender. Ele disse a João: "Eu ouvi, meu filho, que as cestas vendem muito mais em Damasco do que na Palestina. Como você vê, nós estamos carentes de necessidades de todo tipo e estamos precisando de dinheiro. Vá sem demora para Damasco e venda nossas cestas lá. " O ancião estabeleceu um preço para as cestas muito acima de seu valor, e insistiu que João não aceitasse nada menos, mas o verdadeiro filho da obediência não protestou em palavras ou pensamentos. Ele não se opôs a ser enviado em uma viagem tão longa, nem se envergonhou de vender cestas em uma cidade onde ele era conhecido por todos e tinha sido um homem de grande autoridade, porque ele estava determinado a imitar o Mestre Jesus Cristo, que foi obediente até a morte. Ele pediu a bênção do pai e carregou as cestas em seus ombros. Chegando em Damasco, ele começou a caminhar pelos mercados, oferecendo seus bens à venda. Aqueles que desejavam comprá-los perguntavam o que custavam e, ao ouvirem seu alto preço, riam de João, insultando-o ironicamente. Vestido como ele estava em farrapos, o abençoado não foi reconhecido por ninguém, uma vez que o povo de Damasco sempre o viu usando vestes bordadas a ouro. Além disso, seu rosto estava gasto pelo jejum, suas bochechas estavam afundadas e sua bela aparência desapareceu. Mas finalmente um cidadão, que fora servo de João enquanto o santo estava em posição de autoridade, reconheceu-o depois de ficar olhando por algum tempo. Atônito ao ver João vestido em frangalhos miseráveis, ele foi movido do fundo do seu coração. Fingindo não o conhecer, o homem aproximou-se de João e deu-lhe o preço total estabelecido pelo ancião; não porque precisasse de cestas, mas porque sentia compaixão por seu antigo mestre, que, tendo desfrutado de grande fama e riqueza, chegara a tal pobreza e humildade pelo amor a Deus. Aceitando o dinheiro, João retornou ao seu ancião como um vencedor da batalha, tendo lançado ao chão seu inimigo, o diabo orgulhoso e vanglorioso, pela obediência e pela humildade.
Algum tempo se passou e um dos monges da lavra adormeceu no Senhor. Ele tinha um irmão de sangue que se lamentava inconsolavelmente por ele. Embora João tenha falado demoradamente com o homem, tentando consolá-lo, ele não teve sucesso, pois o enlutado foi ferido por uma tristeza incomensurável. Então o monge começou a pedir a João que compusesse hinos funerários para consolá-lo em sua tristeza. A princípio, João recusou, não desejando transgredir a ordem dada por seu ancião, que o havia proibido de fazer qualquer coisa sem permissão, mas o irmão de luto não cessou suas súplicas, dizendo: "Por que você não terá piedade de minha alma triste? Por que você não deseja me dar um remédio para curar meu coração enlutado? Se você fosse um médico e alguma doença tivesse me atingido, e eu lhe pedisse para me curar, você me desprezaria e me deixaria morrer, embora você tivesse a capacidade de me tratar? Estou sofrendo muito de mágoa e buscar apenas uma pequena ajuda, mas você me rejeita! Se eu morrer de dor, você não terá que responder por mim diante de Deus? Se você tem medo de violar a regra do seu ancião, ocultarei o que você escreveu para que ele não o repreenda sobre isso ”. Por fim, João cedeu a tal persuasão e escreveu os seguintes tropários: "Qual a doçura da vida", "Como uma flor que seca", "Toda vaidade humana" e outros, que são usados ​​até hoje no serviço fúnebre. 

Um dia, enquanto o ancião deixara a cela, João cantava os hinos que compusera. Ao retornar, o ancião, aproximando-se da cela, ouviu João cantar. Ele correu e reprovou o discípulo com raiva: "Como é que você esqueceu seus votos tão rapidamente e se divertiu cantando para si mesmo em vez de chorar?" João contou-lhe o motivo e explicou que ele foi compelido pelas lágrimas do irmão a escrever os hinos que ele estava cantando. Implorando perdão, ele caiu no chão diante do ancião, que, no entanto, permaneceu inflexível e proibiu o abençoado de continuar vivendo com ele.
Expulso da cela, João lembrou a expulsão de Adão do Paraíso por causa da desobediência. Ele permaneceu por algum tempo diante da porta, chorando, como outrora fez Adão diante do portão do Jardim. Depois, ele foi a outros pais, que ele sabia serem perfeitos nas virtudes, e pediu-lhes para ir ao seu ancião e pedir-lhe para perdoar sua ofensa. Eles imploraram ao ancião que perdoasse João e permitisse que ele retornasse, mas seus pedidos eram inúteis. Um dos pais lhe disse: "Implica uma penitência sobre o pecador, mas não o proíba de morar com você".
Para isso, o ancião respondeu: "Esta é a penitência que eu lhe dou: se ele deseja ser perdoado de sua transgressão, deixe-o lavar todos os vasos da câmara na pia e limpar cada uma das latrinas".
Quando os monges ouviram isso, eles partiram em consternação, maravilhados com a crueza e a disposição inabalável do ancião. João saiu para encontrá-los quando voltaram e, curvando-se diante deles, como era o costume, perguntou qual era a resposta de seu pai. Contaram-lhe a dureza do ancião, mas não ousaram relatar o que ele havia estabelecido como penitência. João, no entanto, fervorosamente pediu-lhes que lhe dissessem o que seu pai exigia e, quando soube disso, ele se regozijou excessivamente e estava ansioso para empreender a tarefa vergonhosa. Preparando sem demora o equipamento necessário para a limpeza, ele começou o trabalho com diligência, tocando o excremento com os dedos uma vez perfumados com perfumes, e sujando a mão direita curada milagrosamente pela Puríssima Theotokos. Oh, a profunda auto humilhação daquele homem maravilhoso e verdadeiro filho da obediência! Vendo como João alegremente se permitiu ser humilhado, o ancião foi levado a compaixão e apressou-se a abraçar seu filho espiritual, beijando-o na cabeça, nos ombros e nas mãos. Ele exclamou: "Oh, que grande sofredor por Cristo eu gero! Verdadeiramente, ele é um filho de abençoada obediência!" Afobado pelas palavras do ancião, João caiu a seus pés, chorando. Ele não permitiu que sentimentos de orgulho tivessem acesso ao seu coração por causa dos elogios de seu pai, mas se humilhou ainda mais, implorando para ser perdoado por sua ofensa. O ancião pegou-o pela mão e levou-o de volta à cela. Tão exaltado foi João com isso, que lhe pareceu estar sendo levado para o paraíso. Depois disso, ele viveu com o pai em pleno acordo.
Logo depois, a Senhora do mundo, a Virgem mais pura e abençoada, apareceu ao ancião num sonho, dizendo:  "Por que você bloqueou um riacho que derrama uma abundância de água doce, uma água preferível à que brotou da rocha no deserto ou da água que Davi desejava beber? Esta é a água que Cristo prometeu à mulher samaritana. Não atrapalhe o fluxo desta primavera que regará o mundo inteiro, afogando heresias e sua amargura! Deixe a sede apressar-se a esta água, e deixe aqueles que não possuem a prata pura de uma vida imaculada vender suas paixões e conquistá-la imitando João, um homem radiante de pureza e boas ações, e grandemente instruído nos dogmas da Igreja. Ele assumirá o saltério dos profetas e a harpa de Davi para cantar uma nova canção ao Senhor Deus, que ultrapassará os cânticos de Moisés e Miriã. As lendas de Orfeu serão contadas como nada quando comparadas às suas obras, pois ele cantará um hino espiritual e celestial como o dos Querubins. Ele fará as igrejas de Jerusalém como donzelas tocando o tamboril, cantando uma canção a Deus e proclamar a morte e ressurreição de Cristo. Ele expõe por escrito os dogmas da Ortodoxia e denuncia os ensinamentos perversos dos hereges; seu coração derramará uma boa palavra, e ele falará das maravilhosas obras do Rei."
Na manhã seguinte, o ancião convocou João e disse-lhe: "Ó filho da obediência a Cristo, fala o que está guardado no teu coração! Deixa a tua boca declarar sabedoria, anunciando as coisas que Deus revelou à tua mente. Abre a boca e proclame, não lendas e fábulas obscuras, mas as verdades da Igreja e seus dogmas. Fale ao coração da Jerusalém que verdadeiramente contempla Deus, isto é, a Igreja que Ele reconciliou consigo mesmo, mas relacione o que o Espírito Santo inscreveu em seu coração, eleve o sublime Sinai da visão de Deus e a revelação dos mistérios divinos: ascenda por meio de sua grande humildade, que é um abismo sem fim, até o cume do Igreja, e ali proclame o Evangelho à Jerusalém. Erga sua voz poderosamente, pois a Mãe de Deus me disse coisas maravilhosas de você. E perdoe-me, eu oro, pois minha crueza e ignorância foram um obstáculo para você ".
A partir desse momento, o abençoado João retomou a escrita de livros sagrados e compôs hinos melodiosos. Ele escreveu The Ochtoechos que, como uma flauta espiritual, encanta a Igreja de Deus até hoje. João começou este livro com palavras que ele cantara uma vez quando sua mão foi restaurada: "Tua destra vitoriosa, de maneira piedosa, foi glorificada em força." O hino "Em ti exulta toda a criação, ó Tu que és cheia de graça", ele também cantou primeiro, ao exultar a maravilhosa cura. João sempre usava sobre sua cabeça o lenço que usara para envolver sua mão decepada, em lembrança do milagre operado pela Puríssima Theotokos. Ele também escreveu as vidas de vários santos, composta de homilias festivas e várias preces compassivas. Ele denunciou os hereges, especialmente os iconoclastas, expondo os dogmas da verdadeira fé e os mistérios da teologia, e até hoje os fiéis são espiritualmente nutridos por seus tratados edificantes, dos quais eles bebem como de um fluxo doce.
O venerável João teve como ajudante em seus trabalhos o abençoado Cosmas, que foi educado com ele e estudou com o mesmo monge instruído. Cosmas, que mais tarde foi consagrado Bispo de Maiuma pelo Patriarca de Jerusalém, pediu que João escrevesse livros sagrados e compusesse hinos, e ele mesmo ajudou neste trabalho.
O mesmo Patriarca que consagrou Cosmas ordenou João Presbítero; mas João, não desejando permanecer no mundo e ser elogiado pelos leigos, retornou à sua cela no Mosteiro de São Sabbas, como um pássaro para seu ninho. Lá, ele se dedicou à leitura e escrita de livros sagrados, e à busca por sua salvação. Coletando todos os livros, homilias e sermões que ele havia escrito anteriormente, ele os editou cuidadosamente, para que nenhum erro permanecesse neles. João passou muito tempo nesses trabalhos, o que beneficiou muito sua alma e toda a Igreja de Cristo. Ele alcançou a perfeita santidade e, tendo agradado a Deus em todas as suas obras, partiu para Cristo e Sua Puríssima Mãe. Ele agora presta homenagem a eles não diante de Seus ícones, mas, ao invés disso, ele olha para Seus semblantes na glória do céu. Além disso, ele ora para que também sejamos dignos da visão divina pela graça de Cristo, a quem, com a Sua Puríssima e Abençoada Mãe, devemos toda honra, glória e adoração para sempre. Amém.
Segundo Teófanes, São João tinha dois sobrenomes: Crisórolo e Mansur. Ele foi chamado Chrysorolus porque a Graça do Espírito Santo brilhava como ouro nele e era evidente tanto em seus escritos como em sua vida. Mansur era o nome da família que ele herdou de seus ancestrais.


 

"Panagia Tricherousa", ícone que, segundo a Tradição, São João fez sua suplica em meio a dor e sofrimento. Após ter sua mão restaurada, São João anexou uma mão de prata ao seu ícone. A Tricherousa encontra-se no Mosteiro de Hilandar, Monte Athos.