A Céla do Padre Isaac (Atallah): "O Céu na Terra"
Na noite da festa
de São Isaac, o Sírio (antigo calendário), fomos para o profundo deserto do
Monte Athos, em direção à cela
do repouso do Hieromonge Isaac (Atallah). Fomos até lá para
compartilhar a mesa de oração, a Vigília ( ar: Sehraniyye; gr: αγρυπνία ),
que vai das nove da noite até o nascer do sol da manhã seguinte. Nós
éramos um grupo de fiéis, onze pessoas, várias das quais estavam acostumadas a
ir até esta cela, exatamente nesta mesma data.
Eram sete e meia
da noite. Nós subimos em um veiculo de um Mosteiro próximo, transitando em uma
estrada não pavimentada, como todas as estradas nesta montanha. Após cerca de
meia hora, paramos em uma ponte e seguimos o resto do caminho a pé.
Estava muito
escuro. Nós caminhamos uns atrás dos outros, confiando em lanternas, o som de
grilos preenchendo o espaço ao nosso redor.
No início, fomos
assombrados por um sentimento extraordinário de fadiga. Como uma pessoa pode
passar a noite inteira levantando-se e abaixando-se (prostrando-se) sem ser
dominada pelo cansaço e a fadiga?
Em termos humanos,
isso pode ser verdade, mas aqui está a surpresa: se uma pessoa, desde o
primeiro momento, simplesmente se entrega nas mãos de seu Criador, ela acaba
descobrindo que é um "ser litúrgico", carregado nas palmas das mãos
dos anjos e dos santos desta montanha. Se essa pessoa decide se unir a Deus, a
intercessão da Santíssima Theotokos não se afastará dela por um único
momento.
Inicia-se a
beleza. Alguns momentos, antes de a oração começar, fileiras de ascetas entram
no lugar, como se tivessem descido do céu, um grupo após o outro, sombras
humanas como se tivessem vindo de outro mundo, andando em um ritmo rápido e
constante, um depois do outro. Você não pode vê-los bem, porque a cor de suas
vestes se mistura com o preto da noite. Você os distingue pelo flash de seus
rostos e suas longas barbas brancas, já que a cela está completamente
vazia de qualquer tecnologia moderna. Não há eletricidade e os carros não podem
seguir até lá. Algumas lâmpadas de querosene, que não excedem o número de dedos
em uma mão, são colocadas nos cantos para nos ajudar a nos mover.
Após a nossa
chegada, com a orientação e acolhida calorosa dos monges que vivem lá, ocupamos
um lugar simples para nos sentarmos, descansando um pouco antes da oração
começar.
Os assentos são
tábuas de madeira sustentadas por pedras e barro. Acima havia alguma madeira e
palha.
Nestes momentos,
as hostes celestes passam diante de vocês, os anciãos do deserto, movendo-se
rapidamente entre as sombras. Eles são recebidos com vozes calorosas e recebem
uma bênção daqueles que os precederam no ascetismo. Você sente a presença
angélica, a paz, a calma e a alegria que não são deste mundo.
Você olha para
eles, refletindo a luz de velas e a luz da lua, e você contempla rostos nos
quais são traçadas lutas ascéticas e orações, uma firmeza que não é desprovida
de misericórdia, rugas traçadas pelos dedos da graça e do brilho.
Total seriedade
envolvida. Felicidade e alegria, doação e sacrifício.
"Comandos"
que estão completamente prontos, recrutados sob a bandeira de Cristo, alertas e
temperados em batalha, paciência e vitória pela Graça de Deus. Seus rostos
exsudam um poder. Eles imediatamente expelem da sua alma qualquer sentimento de
frouxidão, hesitação ou fadiga.
Aqueles entre eles
que são avançados em idade, superam os jovens em entusiasmo. Entre eles, há uma
obediência a espiritualidade avançada, extrema humildade e coisas que superam
toda consideração ou analogia. Um ancião venerável recebe uma bênção de um
jovem sacerdote, enquanto o último se curva diante do mais velho como um filho
ao pai. Como não, quando ele é seu pai espiritual!
Eles são realmente
uma presença celestial. Eles incorporam o cristianismo e nos iniciam na
plenitude e profundidade da teologia, sem falar uma única palavra sequer. Seus
olhos estão cheios de lágrimas de arrependimento e consolação, cujo brilho é a
luz da Ressurreição e da vitória. Se você os abraçar, será tocado pela
santidade e pela doçura do céu.
São grandes
anciãos, ante os quais as cabeças se curvam e que sob os pés caem
todos os prazeres falsos e vazios do mundo. Percebemos que somos
verdadeiramente nada e tudo o que nos diverte é também nada; posses, posições,
títulos. De fato, tudo na vida que você considera belo e se esforça para
adquirir é "vazio e oco". O homem não tem glória ou honra a não ser
estar na presença de Deus, como um humano humilde e simples, mas ao mesmo tempo
rico em Cristo e em todos os dons e graças que Deus lhe deu.
O verdadeiro
cristão é essa presença divina, que toma a oração como alimento e a luta como
modo de vida.
Depois de ser
brevemente recebido com uma xícara de café e um pedaço de halva, em
jejum, o simantron (instrumento de madeira que substitui os sinos) é
uma pancada de oração e as vozes dos monges ascetas quebram o silêncio da noite
com as mais belas melodias e tons.
Você olha em volta
e ali os anciãos se espalharam ao redor da capela da cela, para a esquerda e
para a direita, com uma velocidade que seus olhos nunca viram. Eles se
dispersam e são indivisíveis, pois formam um corpo em harmonia com Cristo, a
Cabeça.
Cada um deles sabe
o que faz e o que deve fazer, prontos, como exércitos
de Cristo. Suas línguas ultrapassam a linguagem do corpo. Seres
celestiais, que testemunham com os olhos o Espírito Daquele
a quem eles se dirigem, a Quem e com Quem eles
oram.
Meu Deus, que
esplendor! É algo além da descrição. A cela do Pai Isaac se tornou um céu
aberto. Aqui, os ícones louvam alegremente os que cantam, e
dançam alegremente com os anjos e santos que desceram do
céu, para que o céu e a terra possam se tornar completamente um só, cheios
do odor do incenso e das velas de cera de abelha, nas quais se saboreia
gosto do Reino. Você já não sabe mais se está na terra ou se está
no céu.
No meio de todo
esse zumbido angélico, "Geronda" (Ancião) se move como uma sombra,
circulando em volta dos cantores e leitores, em silêncio, gesticulando. Um
único gesto dele é suficiente para que todos saibam o que deve ser feito. Um
livro é fechado e outro aberto sem que você saiba como, ou
ouça qualquer comoção que possa perturbar a pureza e santidade do lugar.
Apesar do pequeno tamanho da igreja, ela se tornou mais extensa do que os
mares e oceanos. Uma luz surge em todos os lugares e você deseja que o
tempo se estenda, que o amanhã não chegue até você, mas você é
forçado a partir.
Então, se um
momento de fadiga chega até você, você resiste e se recusa a fechar os olhos ou
tirar um "cochilo", para que nenhuma dessas belezas, esplendor e o
encanto do lugar passem por você. Mesmo que você cochile, os tons celestiais o
levarão e o inclinarão a voltar, acordar e descobrir que você chegou a
um estado do Reino que excede o entendimento. Verdadeiramente você diz com os
apóstolos: "Nada me separa de Cristo". Eu estou na presença de
Deus.
Completas,
vésperas, leituras, matinas, Divina Liturgia, todas elas formam uma única
corda de oração, uma unidade completa e integral, uma mesa aberta e
interminável. Você não percebe o momento que isso começou.
A qualquer momento
que você chega, já passou antes de você, mas, ao mesmo tempo,
te espera e há um lugar para você lá.
Nos momentos finais
da noite, antes do nascer do sol, a kolyva é colocada no meio da
igreja e um monge distribui velas aos sacerdotes. Todos eles se alinham lado a
lado em um semicírculo, de frente para o altar, para que a cerimônia em memória
do Hieromonge Isaac (Atallah) possa começar.
Por que velas?
Porque eles são um sinal da Páscoa e o brilho da tumba. Não há morte em
Cristo. Adormecendo e sendo transportado.
O serviço
começa dentro da Igreja, com a sua beleza mais gloriosa, e é
completado fora, antes de chegar ao túmulo do Padre Isaac.
O preto da noite
muda para a luz do dia da Ressurreição, então você percebe em sua alma que
o padre Isaac está participando com você no próprio serviço. Ele está ao seu
lado e canta com o coro, cantando com aqueles que se regozijam.
Sim, você sente
que ele está vivo. Você quer falar com ele e se curvar diante dele para receber
sua bênção.
O serviço termina
e você fica surpreso que são quase seis da manhã, então
todos podem compartilhar a mesa do ágape. Você diz para si
mesmo: como a noite inteira passou em um único momento sem eu me cansar ?!
Verdadeiramente, "Porque mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem
que passou"(Salmo 90:4). Ele é o Noivo Celestial, acompanhado pelos
anjos.
Esta é a cela do
Padre Isaac (Atallah), que deixou sua terra natal no Líbano para entrar no
paraíso da Theotokos, para se juntar à caravana dos santos de Deus, e
transformar um pedaço de terra no Monte Athos, em um elevador
celestial , em que se recupera sua verdadeira identidade original, que é
o Reino.
Este é o
Monte Athos e esta é a Ortodoxia, uma vida vivida em luta e
sangue.
Realmente o Reino
começa agora. Seus portões estão bem abertos. Se você alcança a Vigília do Athos com
boa paciência, então você alcança o desejo divino, você adquire a "arte
das artes" - isto é, oração, luta, arrependimento, esperança, alegria e
consolação. Então você pertence às caravanas daqueles que lutam. Você louva ao
Senhor em arrependimento e alegria e diz a Ele: "Amém".
Padre Atanásio
(Shahwan)
11 de outubro de
2012
Monte Athos,
Grécia