Mostrando postagens com marcador Teologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Teologia. Mostrar todas as postagens

sexta-feira

"Psicoterapia humanista e Psicoterapia Ortodoxa" - Metropolita Hierotheos de Nafpaktos





"Psicoterapia humanista e Psicoterapia Ortodoxa" - 

Metropolita Hierotheos de Nafpaktos



 A Doença da alma

Quando a alma de uma pessoa é dominada pelas paixões, que são principalmente os impulsos antinaturais dos poderes da alma, e quando ela é incapaz de ver Deus como Luz, ela está espiritualmente doente. 


Basicamente, a psicologia moderna, a psicanálise e a psicoterapia consideram o conflito interno ou até mesmo as experiências reprimidas e os traumas do passado, que são armazenados no chamado subconsciente e causam vários distúrbios, como uma doença. Por exemplo, Freud dividiu a alma-psique humana em três partes. A primeira é a mente consciente, que inclui tudo o que a pessoa vivencia em um determinado momento. A segunda parte é o subconsciente, que compreende tudo o que a pessoa vivenciou no passado e sobre o qual não está pensando no momento, mas que pode ser relembrado à sua mente consciente sempre que desejar. A terceira parte é o inconsciente, no qual permanecem vários eventos, ações e experiências que a pessoa viveu no passado, mas que ela reprimiu nas profundezas de sua alma - psique, em seu inconsciente. No entanto, embora reprimidas, essas coisas estão ativas e querem retornar à mente consciente. 


Tudo o que é esquecido ou reprimido no inconsciente cria problemas na alma-psique, mas quando eles são trazidos para a mente consciente, a pessoa se acalma e é curada. O psicanalista ou psicoterapeuta ajuda nesse processo, usando um método especial de psicanálise. Os Santos Padres, entretanto, ensinam que a doença da alma não é apenas uma questão de experiências reprimidas que criam conflitos internos, mas a corrupção dos poderes da alma, particularmente o amortecimento e o escurecimento do nous*. O nous não vê Deus nem tem comunhão com Ele e, quando fica doente, dá origem a todos os tipos de estados doentios. Todas as faculdades naturais da alma são prejudicadas e, dessa forma, as paixões se desenvolvem. 


O Padre John Romanides, referindo-se à oração noética e ao nous do homem, que quando purificado tem uma lembrança incessante de Deus, faz as seguintes observações características: “Todo esse assunto em discussão está relacionado à descoberta do subconsciente do homem pelos europeus, por meio de Sigmund Freud e seus seguidores psicanalistas, e com a percepção de que o homem é mais do que apenas uma mente. Há aspectos e experiências ocultos do entendimento do homem que, sob pressão das regras éticas e outras regras e tradições de bom comportamento vigentes, foram esquecidos pela mente, mas estão latentes no subconsciente e inevitavelmente influenciam seus julgamentos, justificativas e ações. 


O subconsciente, conforme entendido pelos psicanalistas, no entanto, é visto como resultado de uma condição psicológica anormal, a ser curada, pelo menos inicialmente, revelando e descobrindo o que está oculto. A impressão dada é que o subconsciente, como os psiquiatras o veem, na verdade consiste nessas tendências ocultas e esquecidas, orientadoras, naturais ou implantadas, em vez de ser uma faculdade da alma distinta da faculdade racional.


Ao contrário da visão da psicanálise contemporânea, na Tradição Ortodoxa, o nous se envolve com a faculdade racional e as paixões quando está em um estado anormal ou decaído. Entretanto, ele é claramente distinto da faculdade racional quando funciona como pretendido pela Energia e Graça de Deus, e quando as anormalidades ocultas na natureza humana são reveladas e curadas. Os psicanalistas acreditam que o subconsciente, como um conjunto oculto de tendências naturais reprimidas, contrárias aos princípios morais e sociais, que fizeram com que fossem suprimidas e esquecidas, deve ser eliminado por meio da liberação dessas tendências naturais reprimidas. 


Em outras palavras, a psicanálise não sabe nada sobre a distinção entre a faculdade racional e o nous, ou a transformação do amor-próprio em amor livre de interesses próprios, por meio da iluminação do nous por meio da oração noética.”


A enfermidade, de acordo com os Santos Padres, é o amortecimento, a morte e o escurecimento do nous. Nesse estado, o nous do homem não funciona bem. Ele é confundido e identificado erroneamente com a faculdade racional, as paixões e seu ambiente. Essa anomalia é a causa de todos os chamados problemas psicológicos. Os psicólogos e psicanalistas seculares contemporâneos não têm um conhecimento preciso desse estado e, portanto, são incapazes de entender os problemas reais das pessoas. 


De acordo com São Simeão, o Novo Teólogo, a menos que a alma do homem seja ativada pelo Espírito Santo, que é a Alma da nossa alma e o Nous do nosso nous, ela está morta. Ele escreve: “Assim como é impossível para o nosso corpo, doente ou não, mover-se ou mesmo viver sem uma alma, assim também a alma, pecando ou não, está morta e é completamente incapaz de viver a vida eterna sem o Espírito Santo...” Essa passagem de São Simeão é muito significativa. Ela mostra claramente que a alma está enferma quando o Espírito Santo está ausente. 


Há também outro ponto importante. Mesmo que alguém não peque, sem o Espírito Santo ele está morto ou enfermo. Assim, na Tradição Ortodoxa, mesmo que alguém seja psicologicamente equilibrado e não tenha conflitos internos, sem o Espírito Santo ele está doente e morto. De acordo com São Simeão, o Novo Teólogo, não são apenas as pessoas com conflitos psicológicos que estão enfermas, mas principalmente aquelas que têm o demônio vivendo dentro delas, “que é o tesouro maligno”. Não são simples pensamentos e lembranças do passado, que a mente não foi capaz de classificar ou que esqueceu e reprimiu, mas a presença do espírito maligno, a presença de um ser pessoal, que cria toda essa anormalidade. A enfermidade da alma significa algo completamente diferente, nos escritos dos Padres, de seu significado na psicologia e psicoterapia modernas. 


A Cura da Alma 


Tendo considerado a saúde e a enfermidade da alma, podemos também analisar como a cura da alma é entendida na Tradição Ortodoxa. Curar a alma significa, antes de mais nada, reviver e iluminar o nous. Não é apenas uma questão de revelar experiências suprimidas. São Diadocos de Photiki escreve: “Somente o Espírito Santo pode purificar o nous”. Somente quando Aquele que é poderoso entra na alma, Ele pode libertá-la. O nous é revivido por meio da Energia da Graça Divina, mas também com a cooperação do homem: Deus age e o homem colabora. Veremos agora algumas maneiras de curar o nous, que são diferentes dos métodos indicados pela psicoterapia moderna.


Foi mencionado pela primeira vez, em um capítulo anterior, que Barlaam afirmava que a santidade e a perfeição não poderiam ser encontradas “sem distinções lógicas, raciocínio e análise”. São Gregório Palamas respondeu que essa visão era “uma heresia dos estóicos e pitagóricos”. Pelo contrário, somos curados quando nosso nous se torna “livre de presunção e maldade” por meio do arrependimento diligente e do ascetismo intenso. Barlaam foi obviamente influenciado pela visão psicológica de Agostinho. 


São Gregório, o Teólogo, reprova aqueles que tentam curar suas almas tomando remédios. Alguém que sofre de uma doença do sistema nervoso pode certamente tomar medicamentos, sob a orientação de um especialista, para ajudar o corpo, mas não pode curar a doença do nous dessa maneira. Que remédio comum pode trazer o Espírito Santo para nossa alma? O único remédio salvador é a graça de Cristo.


São Gregório diz: “Por que você procura remédios que não farão bem?... Cure-se antes que se torne urgente; tenha piedade de si mesmo, o único verdadeiro curador de sua doença; aplique a si mesmo o remédio verdadeiramente salvador”. O remédio salvador e necessário para a doença da alma é Cristo: “Se você receber todo o Verbo, trará sobre sua própria alma todos os poderes de cura de Cristo, pelos quais cada um [dos doentes mencionados no Evangelho] foi curado separadamente." 


São Simeão, o Novo Teólogo, aborda a mesma questão. Já mencionei seu ensinamento de que a alma não pode ser curada por remédios, mas somente pela ação da Graça divina. Aqui descreverei algumas maneiras pelas quais, de acordo com o ensinamento de São Simeão, o Novo Teólogo, o nous amortecido pelo pecado pode ser curado. Deus, diz ele, é fogo, e naqueles em quem esse fogo é aceso, “ele se eleva em uma grande chama e alcança os céus, e não permite que aquele que foi assim incendiado fique ocioso ou descanse”. Essa ação do fogo ocorre “com percepção e consciência e, no início, com uma dor insuportável”. No entanto, uma vez que a alma tenha sido purificada das paixões, “ele se torna alimento e bebida, iluminação e alegria ininterrupta dentro de nós e, pela participação, faz com que nós mesmos nos iluminemos”. 


Aqueles que receberam esse fogo da Graça Divina “não apenas foram completamente libertados de todas as doenças da alma, mas também libertaram muitos outros, cujas almas estavam doentes e enfermas, das redes do demônio, curando-os e apresentando-os como presentes a Cristo, o Senhor”. Eles aprenderam todo tipo de conhecimento e habilidade com esse fogo. É somente quando a Graça de Deus se inflama em nosso coração que somos libertados de todas as doenças de nossa alma.


Mais importante ainda é o fato de que, depois de sermos curados, podemos curar outras pessoas. Como podemos curar as pessoas a menos que tenhamos aprendido a ciência e a arte da cura a partir do efeito do fogo em nossa própria alma? Somente o verdadeiro arrependimento, por meio da Confissão e das lágrimas, purifica a ferida e a cicatriz que o aguilhão da morte deixou no coração. “Então, ele expulsa e mata o verme que nele se aninha, e restaura a ferida para completa cura e perfeita saúde.” Essas feridas são curadas por aqueles que se esforçam com arrependimento, confissão e lágrimas, enquanto os outros “na verdade têm prazer nessas feridas”. Essa penitência abrangente ocorre por meio da ação do Espírito Santo naqueles que vivem na Igreja. Aqueles que não têm esse arrependimento preservam as feridas de sua alma em vez de curá-las. Somente o arrependimento profundo transforma todos os problemas psicológicos em estados espirituais e cura nossa alma. Assim, São Simeão se volta para Deus e busca a cura nEle:


“Fui para longe, Amante da Humanidade, e habitei no deserto

E me escondi de Ti, meu doce Senhor;

Fui enganado pelos cuidados desta vida

E sofri muitas picadas e golpes como resultado.

Volto trazendo muitas feridas em minha alma,

E clamo em minha dor e na angústia de meu coração:

Tenha misericórdia, tenha piedade de mim, um transgressor.”



fonte

*Nous: O termo tem vários usos nos ensinamentos dos Patrísticos. Ele indica a alma ou o coração, ou até mesmo uma energia da alma. No entanto, o nous é principalmente o olho da alma, a parte mais pura da alma, a atenção mais elevada. Também é chamado de energia noética e não é identificado com a razão.

O nous humano é o “olho do coração ou da alma” ou a “mente do coração”. O nous é o nutridor da alma, sendo que seu funcionamento natural encontra-se na captação do que é Divino, atingindo sua verdadeira função quando o homem une-se a Deus. Mas, sendo um órgão espiritual que lida com os conceitos, pensamentos e imagens, quando em funcionamento antinatural, disperso entre as coisas do mundo, o nous insere diretamente na alma e no coração todo esse conteúdo nocivo, o que acaba por adoecer a alma como um todo. Estar atento aos movimentos do nous é primordial pois, após a Queda do Homem, o nous encontra-se obscurecido. 

Em seu estado natural, todos os pensamentos oriundos do mundo devem ser expulsos do nous. E para isso, ele deve ser purificado. "...purificar o nous não é simplesmente uma questão de encontrar os pensamentos que entraram nele, mas de expulsá-los, o que não é alcançado por meio de pensamentos e análises racionais, mas somente através da Oração de Jesus." (Metropolita Hierotheos de Nafpaktos)

O Conhecimento de Deus - "His Life is Mine" ( São Sofrônio de Essex)

              




            





O Conhecimento de Deus


"His Life is Mine"- Capítulo I





Por São Sofrônio(Sakharov)





Tu que és:
Ó Deus Pai, Todo Poderoso Mestre:
Quem nos criou e nos trouxe a esta vida:
Concede para que possamos Te conhecer,
O único Deus verdadeiro.


O espírito humano anseia por conhecimento - por conhecimento inteiro e integral. Nada pode destruir nosso desejo de conhecer e, naturalmente, nosso desejo final é o conhecimento do Ser Primordial, de ‘Quem’ ou ‘O Que’ realmente existe. Ao longo dos tempos, o homem prestou uma homenagem instintiva a esse Primeiro Princípio. Nossos pais e antepassados ​​O reverenciaram de maneiras diferentes, porque não o conheciam 'como ele é' (1 João 3.2). Alguns (certamente estavam entre os mais sábios) montaram "um altar com esta inscrição, AO DEUS DESCONHECIDO" (Atos 17.23). Mesmo em nossos dias, somos continuamente conscientes de que a razão em si não pode avançar sobre o limiar do 'Desconhecido'. Deus é nosso único meio de acesso a esse conhecimento superior, se Ele revelar a Si mesmo.

O problema do conhecimento de Deus fez com que a mente procurasse, ao longo dos séculos, exemplos de Deus aparecendo ao homem através de um ou outro profeta. Não há dúvida de que para nós, para todo o mundo cristão, um dos acontecimentos mais importantes registrados nas crônicas do tempo foi a manifestação de Deus no Monte Sinai, onde Moisés recebeu o novo conhecimento do Ser Divino: 'EU SOU O QUE SOU' ( Êx 3.14) - Jehovah. A partir desse momento, amplos horizontes se abriram diante da humanidade, e a história tomou um novo rumo. A condição espiritual de um povo é a verdadeira causa dos eventos históricos: não é o visível que é de primordial importância, mas o invisível, o espiritual. As percepções e ideias sobre o ser, e o significado da vida, geralmente buscam expressão e assim instigam o evento histórico.

Moisés, possuidor da suprema cultura do Egito, não questionou que a revelação que recebera de forma tão milagrosa veio d’Aquele que de fato criou todo o universo. Em nome deste Deus, EU SOU, ele convenceu o povo judeu a segui-lo. Investido com extraordinário poder do Alto, ele realizou muitas maravilhas. A Moisés pertence a glória eterna de ter aproximado a humanidade da Verdade Eterna. Convencido da autenticidade de sua visão, emitiu suas injunções como as prescrições do Alto. Todas as coisas foram efetuadas no Nome e pelo Nome do EU SOU, que revelou a Si Mesmo. Poderoso é este Nome em sua força e santidade - é uma ação procedente de Deus. Este nome foi a primeira entrada na eternidade viva; a fonte do conhecimento do Absoluto Incriado como EU SOU.

Moisés, em nome de Jehovah, guiou os israelitas ainda primitivos do cativeiro no Egito. Durante suas andanças no deserto, no entanto, ele descobriu que seu povo estava longe de estar pronto para receber a sublime revelação do Eterno, apesar dos muitos milagres que haviam testemunhado. Isso ficou particularmente claro quando eles se aproximaram das fronteiras da Terra Prometida. Sua falta de coração e falta de fé levaram o Senhor a declarar que nenhum daqueles impregnados do espírito do Egito deveria ver a 'boa terra' (Dt 1.32, 35, 38). Eles deixavam seus ossos no deserto, e Moisés encorajava e preparava uma nova geração mais capaz de apreender a Deus - invisível, mas que sustenta todas as coisas na palma de Sua mão.

Moisés foi dotado de um gênio excepcional, mas nós o estimamos mais especialmente porque ele percebeu que a revelação concedida a ele, por toda a sua grandeza e validade, ainda não estava concluída. Ele sentiu que Aquele que se revelara era o 'primeiro e o último' (Is 44,6); que não poderia haver ninguém e nada antes ou depois dEle. E ele cantou: ' Escutem, ó céus, e eu falarei; ouça, ó terra, as palavras da minha boca.' (Dt. 32, 1). Ao mesmo tempo, ele continuou a orar por um melhor conhecimento de Deus, chamando-O das profundezas: 'Mostra-me a ti mesmo (como tu és), para que eu te conheça' (Êx 33.13; 1 João 3.2). Deus ouviu sua oração e Se revelou na medida em que Moisés pudesse apreender, pois Moisés não podia conter toda a Revelação. 'Farei passar toda a minha bondade diante de ti e proclamarei o nome do Senhor diante de ti ... (e) enquanto minha glória passar, eu ... te cobrirei com a minha mão ... e tirarei a minha mão, e verás as minhas costas; mas o meu rosto não será visto '(Êx 33.19, 22, 23).

Que a revelação recebida por Moisés foi incompleta, é demonstrado em seu testemunho ao povo que 'o Senhor teu Deus te levantará um profeta do meio de ti ... a ele ouvireis'. Também: 'E o Senhor me disse ... Eu os levantarei um Profeta dentre seus irmãos, como você, e porei minhas palavras em sua boca, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar' (Dt. 18.15-18). De acordo com o Antigo Testamento, todo Israel vivia na expectativa da vinda do Profeta, a quem 'Moisés escreveu' (João 5. 46), o Profeta por excelência, 'Aquele profeta' (João, 1.21). O povo judeu procurou a vinda do Messias que lhes anunciaria 'todas as coisas' (João 4.25) quando ele viesse. Vinde viver entre nós, para que Te conheçamos, foi o clamor constante dos antigos hebreus. Portanto, o nome 'Emmanuel, sendo interpretado, é Deus conosco' (Is. 7.14; Mt. 1.23).

Portanto, para nós cristãos, o ponto focal do universo e o significado último de toda a história do mundo é a vinda de Jesus Cristo, que não repudiou os arquétipos do Antigo Testamento, mas os justificou, revelando-nos seu real significado e trazendo novas dimensões para todas as coisas - dimensões infinitas e eternas. A nova aliança de Cristo anuncia o início de um novo período na história da humanidade. Agora, a esfera Divina se refletia na insondável grandeza do amor e da humildade de Deus, nosso Pai. Com a vinda de Cristo tudo mudou: a nova Revelação afetou o destino de todo o mundo criado.

Foi dado a Moisés saber que o Ser Primordial Absoluto não é uma entidade geral, algum processo cósmico impessoal ou um 'Não-Ser' supra-pessoal e transcendente. Foi-lhe provado que este Ser tinha um caráter pessoal e era um Deus vivo e vivificante. Moisés, no entanto, não recebeu uma visão clara: ele não viu Deus na luz, como os Apóstolos O viram no monte Tabor - 'Moisés se aproximou das densas trevas onde Deus estava' (Êx 20.21). Isso pode ser interpretado de várias maneiras, mas a ênfase está no caráter irreconhecível de Deus, embora em que sentido e em que conexão não possamos ter certeza. Moisés estava preocupado com a impossibilidade de conhecer a Essência do Ser Divino? Ele pensou que se Deus é Pessoa, então Ele não pode ser eternamente solitário em Si Mesmo, pois como poderia haver eterna solidão metafísica? Aqui estava esse Deus pronto para liderá-los, mas guiá-los para onde e com qual propósito? Que tipo de imortalidade Ele oferecia? Tendo alcançado a fronteira da Terra Prometida, Moisés morreu.  

E assim Ele apareceu, a Quem o mundo devia sua criação; e com raras exceções "o mundo não o conhecia" (João 1.10). O evento foi incomensuravelmente fora do alcance do homem comum. O primeiro a reconhecê-Lo foi João Batista, motivo pelo qual foi corretamente denominado o maior "dentre os que nasceram de mulheres" e o último da lei e dos profetas (cf. Mt 11.9-13).

Moisés, como homem, precisava de sinais óbvios do poder e autoridade que lhe eram conferidos para impressionar os israelitas, ainda propensos à adoração de ídolos, e obrigá-los a seguir seus ensinamentos. Mas é impossível para nós cristãos lermos os primeiros livros do Antigo Testamento sem ficarmos horrorizados. Em nome de Jeová, todos os que resistiram a Moisés sofreram retribuição temerosa e muitas vezes a morte. O Monte Sinai 'ardeu no fogo', e o povo foi levado 'à escuridão, às trevas e à tempestade', ao 'som de trombeta e à voz de palavras que ... eles não podiam suportar' (Hb 12.18- 20)

É o contrário de Cristo. Ele veio com total mansidão, o mais pobre dos pobres, sem ter onde reclinar a cabeça. Ele não tinha autoridade, nem no Estado, nem mesmo na Sinagoga, fundada na revelação do Alto. Ele não lutou contra aqueles que O rejeitaram. E nos foi dado identificá-Lo como o Pantocrator, precisamente porque Ele ' esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens.(Filipenses 2.7), submetendo-se finalmente a coação e a execução. Como Criador e verdadeiro Mestre de tudo o que existe, Ele não tinha necessidade da força, não precisava exibir o poder de punir a oposição. Ele veio 'para salvar o mundo' (João 12.47), para nos falar do Deus Único e Verdadeiro. Ele desvelou para nós o nome do Pai. Ele nos deu a palavra que Ele próprio havia recebido do Pai. Ele nos revelou Deus como a Luz na qual não há trevas (cf. 1 João 1,5).

O mundo continua a se debater no círculo vicioso de seus problemas materiais - econômicos, de classe, nacionais e outros - porque as pessoas se recusam a seguir a Cristo. Não queremos desejar ser como Ele em todas as coisas: tornar-se Seus irmãos e, através d’Ele, os filhos amados do Pai e a habitação escolhida pelo Espírito Santo. Na providência pré-eterna de Deus para o homem, devemos participar de Seu Ser: sendo semelhantes a Ele em todas as coisas. Por sua própria Essência, esse desígnio da parte de Deus para nós exclui toda possibilidade de compulsão ou predestinação. E nós, como cristãos, nunca devemos renunciar ao nosso objetivo, a fim de não perdermos a inspiração para invadir o Reino dos Céus. A experiência mostra com muita clareza que quando nós cristãos começamos a reduzir o alcance da Revelação que Cristo e o Espírito Santo nos deram, gradualmente deixamos de ser atraídos pela luz que se manifesta [da Revelação]. Se quisermos preservar nossa esperança redentora, devemos ser ousados. Cristo disse: 'Tenha bom ânimo; Eu venci o mundo '(João, 16,33). Ele havia vencido o mundo nesse caso, não tanto quanto Deus, mas como o homem, pois na verdade se tornou homem.

A verdadeira vida cristã é vivida "em espírito e em verdade" (João 4.23), e assim pode ser contínua em todos os lugares e em todos os momentos, uma vez que os mandamentos divinos de Cristo possuem um caráter absoluto. Em outras palavras, não existem, e não podem haver, circunstâncias em qualquer lugar da Terra que tornem impossível a observância dos mandamentos.

Em sua essência eterna, a vida cristã é espírito e verdade divinos e, portanto, transcende todas as formas externas. Mas o homem vem a este mundo como tabula rasa, para "crescer, tornar-se forte em espírito, ser cheio de sabedoria" (cf. Lucas 2.40), e, portanto, surge a necessidade de algum tipo de organização para disciplinar e coordenar a vida corpórea dos seres humanos, ainda longe de ser perfeita moralmente, intelectualmente e, mais importante, espiritualmente. Nossos Pais da Igreja e os Apóstolos, que nos ensinaram a honrar o Deus Verdadeiro, estavam bem cientes de que, embora a vida do Espírito Divino exceda todas as instituições terrenas, esse mesmo Espírito ainda constrói para Si uma morada de natureza tangível, para servir como um vaso para a preservação de Seus dons. Esta habitação do Espírito Santo é a Igreja, que através de séculos de tempestade e violência vigiou o precioso tesouro da Verdade, revelado por Deus. (Neste momento, não precisamos nos preocupar com zelotes que valorizam a estrutura e não o conteúdo). 'O Senhor é esse Espírito: e onde o Espírito do Senhor está, há liberdade ... Vendo ... a glória do Senhor, somos transformados na mesma imagem de glória em glória (2 Cor. 3.17-18)'. A função da Igreja é levar os fiéis à esfera luminosa do Ser Divino. A Igreja é o centro espiritual do nosso mundo, abrangendo toda a história do homem. Aqueles que, através de longa luta ascética para cumprir os preceitos do Evangelho, tornaram-se conscientes de sua liberdade, pois os filhos de Deus não se sentem mais impedidos pelas tradições formais - podem adotar costumes e ordenanças gerais em seus passos. Eles têm o exemplo de Cristo, que guardou os mandamentos de Seu Pai sem transgredir a lei de Moisés, com todos os seus "encargos difíceis de suportar" (Lucas 11.46).

Em Cristo e na vinda do Espírito Santo, Deus nos deu a revelação completa e final de Si mesmo. Seu Ser agora é a Primeira Realidade para nós, incomparavelmente mais evidente do que todos os fenômenos transitórios deste mundo. Sentimos Sua presença divina dentro e fora de nós: na suprema majestade do universo, no rosto humano, no relâmpago do pensamento. Ele abre nossos olhos para que possamos contemplar e nos deleitar com a beleza de Sua criação. Ele enche nossas almas de amor por toda a humanidade. Seu toque indescritivelmente suave perfura nosso coração. E nas horas em que Sua luz imperecível ilumina nosso coração, sabemos que não devemos morrer. Sabemos disso com um conhecimento impossível de provar de maneira comum, mas que para nós não exige prova, uma vez que O próprio Espírito testifica em nós.




Nota: (A revelação de Deus como EU SOU O QUE EU SOU proclama o caráter pessoal do Deus Absoluto, que é o cerne de Sua Vida.)


tradução: Hipodiácono Paísios

segunda-feira

A Ortodoxia é uma religião?




Por pe. John Romanides

Muitos são da opinião de que a Ortodoxia é apenas uma religião entre muitas e que sua principal preocupação é preparar os membros da Igreja para a vida após a morte, garantindo um lugar no Paraíso para todo cristão Ortodoxo. Presume-se que a doutrina Ortodoxa ofereça alguma garantia adicional, por ser Ortodoxa, e que a descrença no dogma Ortodoxo é vista como mais uma razão para alguém ir para o inferno, além de seus pecados pessoais que de uma forma ou de outra o enviariam para lá. Os cristãos Ortodoxos que acreditam que isso descreve a Ortodoxia associam-na exclusivamente à vida após a morte. Mas nesta vida essas pessoas não realizam muito. Eles apenas esperam a morte, acreditando que irão para o Paraíso pela simples razão de que enquanto estavam vivos, eram cristãos Ortodoxos.

Outra fatia dos Ortodoxos está envolvida e ativa na Igreja, interessada não na próxima vida, mas principalmente nesta vida, aqui e agora. O que lhes interessa é como a Ortodoxia pode ajudá-los a ter uma boa vida no presente. Esses cristãos ortodoxos oram a Deus, os sacerdotes fazem orações por eles, têm seus lares abençoados com água benta, têm serviços de súplica cantados, são ungidos com óleo e assim por diante, tudo para que Deus os ajude a aproveitar a vida no presente : para que não fiquem doentes, para que seus filhos encontrem seu lugar na sociedade, para que suas filhas tenham um bom dote e um bom noivo, para que seus filhos encontrem boas meninas para casar com bons dotes, para que tudo vá bem em seu trabalho, para que seus negócios corram bem, mesmo para que o mercado de ações corra bem, ou para o setor em que trabalham, e assim por diante.

Pelo que dissemos, podemos ver claramente que a Ortodoxia(para estas pessoas) tem dois pontos em comum com todas as outras religiões. Primeiro: prepara os crentes para a vida após a morte, para o paraíso, seja lá o que imaginam que isso seja. Segundo: a Ortodoxia os protege nesta vida para que eles não tenham que sofrer tristezas, dificuldades, desastres, doenças, guerras e coisas do gênero - em outras palavras, para que Deus cuide de todas as suas necessidades e desejos. Assim, para este segundo tipo de cristão Ortodoxo, a religião desempenha um papel importante, diariamente, na vida atual.

Mas entre todos esses cristãos que acabamos de discutir, quem se importa no fundo se Deus existe ou não? Quem realmente anseia por Ele e O procura? A questão da existência de Deus nem chega à tona, pois é claramente melhor que Deus exista, para que possamos apelar para Ele e pedir que Ele satisfaça nossas necessidades, para que nosso trabalho corra bem e para que tenhamos alguma felicidade nesta vida. Como podemos ver, os seres humanos têm uma predisposição extremamente forte em querer e crer que Deus exista, porque precisamos que Ele exista para garantir tudo o que mencionamos. Desde que precisamos que Deus exista, portanto, Deus existe. Se as pessoas não precisassem de um Deus e pudessem tomar medidas para garantir a suficiência das necessidades da vida por outros meios, então quem sabe quantos ainda creriam em Deus.

Portanto, vemos que muitas pessoas que antes eram indiferentes à religião se tornam religiosas no final de suas vidas, talvez depois de algum evento que as amedronta. Isso acontece porque eles sentem que não podem mais viver sem pedir ajuda a algum deus - isto é o resultado de crenças supersticiosas. Por essas razões, a natureza humana encoraja o homem a ser religioso. Isso vale não apenas para os cristãos Ortodoxos, mas também para os adeptos de todas as religiões. A natureza humana é a mesma em todo lugar. Uma vez que, como resultado da Queda, a alma humana agora está escurecida, as pessoas tendem, por natureza, à superstição.

Agora, a próxima pergunta é a seguinte: onde a superstição para e a crença real começa?

As visões e os ensinamentos dos Pais sobre esses assuntos são claros. Considere primeiro alguém que segue, ou melhor, pensa que segue os ensinamentos de Cristo, simplesmente indo à Igreja todos os domingos, comungando em intervalos regulares e fazendo com que o sacerdote o abençoe com água, ungindo-o com óleo e assim por diante, sem examinar esses as coisas muito de perto. Essa pessoa que permanece na letra da lei, mas não entra no espírito da lei, espera obter alguma coisa da Ortodoxia? Agora considere alguém que ora exclusivamente pela vida futura, por si e pelos outros, mas é completamente indiferente a essa vida. Novamente, que benefício específico essa pessoa pode obter da Ortodoxia? A tendência anterior pode ser vista nos padres da paróquia e nos que se aglomeram ao redor com a atitude descrita acima.

Como a purificação e a iluminação não são seu foco ou preocupação principal, ambas as tendências, do ponto de vista dos Pais, estabeleceram objetivos errados para si. Mas, na medida em que a purificação e a iluminação se tornam seu foco, e o ascetismo Ortodoxo dos Pais é praticado com o objetivo de alcançar a oração noética*, então, e somente então, tudo o mais pode ser colocado sobre uma base firme. Essas duas tendências são exageros que refletem dois extremos e não compartilham um núcleo comum. Mas existe um núcleo comum, uma estrutura que percorre toda a Ortodoxia e a mantém unida. Quando levamos em conta esse núcleo único, essa estrutura única, todos os assuntos relacionados à Ortodoxia encontram seu lugar apropriado em uma base firme. E esse núcleo é purificação, iluminação e theosis**.

O que acontecerá ao homem após a morte não foi uma preocupação primordial para os Padres. A principal preocupação deles era o que o homem se tornará nesta vida. Após a morte, seu nous*** não pode ser tratado. O tratamento deve começar nesta vida, porque "no hades não há arrependimento"(São João de Damasco, uma exposição exata da fé ortodoxa, livro II, capítulo IV). É por isso que a teologia Ortodoxa não está fora deste mundo, futurista ou escatológica, mas está claramente fundamentada neste mundo, porque o foco da Ortodoxia é homem neste mundo e nesta vida, não após a morte.

Agora, por que precisamos de purificação e iluminação? É para que possamos ir para o céu e escapar do inferno? É por isso que eles são necessários? O que são purificação e iluminação e por que os cristãos Ortodoxos querem alcançá-las? Para descobrir o motivo disso e responder a essas perguntas, você precisa ter o que a teologia Ortodoxa considera a chave básica para essas questões.

A chave básica é o fato de que, de acordo com a teologia Ortodoxa, todos no mundo terminarão seu curso terrestre da mesma maneira, independentemente de serem Ortodoxos, budistas, hindus, agnósticos, ateus ou qualquer outra coisa. Todos na terra estão destinados a ver a glória de Deus. Na Segunda Vinda de Cristo, com a qual toda a história humana termina, todos verão a glória de Deus. E como todas as pessoas verão a glória de Deus, todas terão o mesmo fim. Verdadeiramente todos verão a glória de Deus, mas não da mesma maneira - para alguns, a glória de Deus será uma luz extremamente doce que nunca se põe; para outros, a mesma glória de Deus será como "um fogo devorador" que os consumirá. Esperamos que essa visão da glória de Deus ocorra como um evento real. Essa visão de Deus - de Sua glória e sua luz - é algo que ocorrerá, quer queiramos ou não. Mas a experiência dessa Luz será diferente para os dois grupos.

Portanto, não é tarefa da Igreja nos ajudar a ver essa glória, pois isso acontecerá de qualquer maneira. O trabalho da Igreja e de seus sacerdotes concentra-se em como experimentaremos a visão de Deus, e não se iremos experimentar a visão de Deus. A tarefa da Igreja é proclamar à humanidade que o Deus verdadeiro existe, que Ele se revela como Luz ou como um fogo devorador, e que toda a humanidade verá Deus na Segunda Vinda de Cristo. Tendo proclamado essas verdades, a Igreja tenta preparar Seus membros para que naquele dia vejam Deus como Luz, e não como fogo.

Quando a Igreja prepara seus membros e todos que desejam ver Deus como Luz, ela está essencialmente oferecendo a eles um curso curativo de tratamento, que deve começar e terminar nesta vida. O tratamento deve ocorrer durante esta vida e ser completado, porque não há arrependimento após a morte. Esse curso curativo de tratamento é a própria fibra da tradição ortodoxa e a principal preocupação da Igreja Ortodoxa. Consiste em três estágios de ascensão espiritual: purificação das paixões, iluminação pela graça do Espírito Santo e theosis, novamente pela Graça do Espírito Santo. Também devemos tomar nota. Se um crente não atingir um estado de iluminação pelo menos parcial nesta vida, ele não será capaz de ver Deus como Luz, seja nesta vida ou na próxima.

É óbvio que os Pais da Igreja estavam interessados ​​nas pessoas como elas são hoje e neste momento. Todo ser humano precisa ser curado. Todo ser humano também é responsável perante Deus por iniciar esse processo hoje, nesta vida, porque agora é quando é possível, não após a morte. Todo mundo deve decidir por si mesmo se ele seguirá ou não esse caminho de cura.

Cristo disse: "Eu sou o Caminho". (João 14:6) Mas aonde esse Caminho leva? Cristo não está se referindo à próxima vida. Cristo é, principalmente, o Caminho nesta vida. Cristo é o caminho para Seu Pai e nosso Pai. Primeiro, Cristo se revela ao homem nesta vida e mostra a ele o caminho para o Pai. Este caminho é o próprio Cristo. Se um homem não vê Cristo nesta vida, pelo menos sentindo-O em seu coração, ele também não verá o Pai ou a Luz de Deus na vida futura.

 (trecho do livro "As Palestras Universitárias do Padre John Romanides" por Uncut Mountain Press)






* oração noética:  A mente reza dentro do coração, que é o centro da nossa existência. Assim, toda a pessoa, do seu íntimo e do seu centro, ora, cumprindo a ordem de Deus: ‘Ame ao Senhor seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma, com toda a sua força e com toda a sua mente. "E" seu vizinho como você ". A pessoa é por inteira oferecida a Deus. A oração noética do coração pressupõe nossa participação na vida da Igreja, em seus Sacramentos, a observância dos mandamentos de Deus e a obediência a um guia espiritual. Em outras palavras, não é uma abordagem individualista-privada de Deus. Dentro da Igreja, os humildes cristãos recebem a Graça de Deus e, é claro, juntamente com sua própria cooperação e vontade, ativam a verdadeira oração dentro deles.( Arquimandrita Georgios Kapsanis, abade do Santo Mosteiro de Gregoriou)

** theosis: Theosis ("deificação", "divinização") é o processo de um cristão Ortodoxo estar unido a Deus, começando nesta vida e depois consumado na ressurreição corporal. Para  o cristãos Ortodoxos(ver 2Pedro 1:4) , Theosis é a salvação. Theosis assume que os seres humanos são feitos para compartilhar a Vida ou a Natureza de toda a Santíssima Trindade.


***Nous (adj. Noético) no cristianismo Ortodoxo é o olho da alma. Assim como a alma do homem é criada por Deus, a alma do homem é inteligente e noética.

A 'Pessoa' de acordo com os Santos Padres (Metropolita Hierotheos de Nafpaktos)




A Pessoa de Acordo com os Santos Padres - Segundo Capítulo do Livro "The Person on the Orthodox Tradition" por Metropolita Hierotheos de Nafpaktos. pp 67-110









A Pessoa de Acordo com os Santos Padres 


Quando começo a abordar o tema "a pessoa humana de acordo com os santos Padres", estou refletindo sobre a gravidade e as responsabilidades deste tema. Estamos lidando com um problema delicado, mas que é essencial para os nossos tempos. É delicado porque tem muitos aspectos e extensões de coisas que precisam ser enfrentadas com responsabilidade e discrição. No entanto, é necessário para os nossos tempos, porque existem inúmeros sistemas religiosos, filosóficos, políticos e sociais que têm um ensino distorcido sobre o homem, porque eles o consideram como uma simples mônada biológica e nada mais. Quero enfatizar particularmente todos os sistemas hinduístas, todas as interpretações religiosas relativas ao homem que nos chegam do Oriente e transformaram o homem em uma simples mônada biológica, não o vendo como pessoa. Apesar de sentir a natureza crucial e delicada do tópico, vou me comprometer a formular alguns pensamentos, porque é essencial para os nossos tempos. Tanto a nossa integração espiritual quanto o desenvolvimento de um verdadeiro espírito de humanidade, dependem de como nos posicionamos neste assunto. Todos os princípios religiosos, políticos e sociais podem ser sustentados nesta base apropriada. 



1. A teologia da pessoa 


  
Deve ser dito desde o início que os santos Padres usaram o termo "prosopon" (pessoa), em primeiro lugar, e acima de tudo, referindo-se a Deus e particularmente as três Pessoas da Santíssima Trindade. Um processo inteiro teve que ser percorrido para chegar à formulação de que o Deus Triúno, o Pai, o Filho e o Espírito Santo são Pessoas-Hipóstases particulares, mas têm uma essência ou substância comum. A substância comum não remove a particularidade das Pessoas-Hipóstases e as Pessoas-Hipóstases não removem nem quebram a unidade da substância. 
  
Na Grécia antiga, a palavra "prosopon", que agora significa "pessoa", tinha mais, aproximadamente, o significado da máscara que os atores costumavam utilizar para desempenhar papéis diferentes no palco. Há toda uma história em torno do desenvolvimento da máscara em uma pessoa. Através de um longo processo, a palavra que foi usada para designar "máscara", finalmente veio a significar não apenas algo que se coloca, mas o que faz de alguém um ser humano real. 
  
Os santos Padres fizeram esse trabalho principalmente no século IV, em seu esforço para confrontar vários hereges que, usando a filosofia grega, estavam distorcendo o ensinamento de Cristo sobre as Pessoas da Santíssima Trindade. Assim, podemos dizer que a verdadeira teologia Ortodoxa é experiencial e ascética, enquanto a teologia dogmática é principalmente "polêmica", o que significa que os Padres aplicaram vários termos da filosofia, não para entender e aumentar ou melhorar a fé Ortodoxa, que é Revelação, mas para expressá-la nos termos de seu tempo e protegê-la de várias distorções. 
  
A seguir, gostaria que observássemos como os santos Padres vieram aplicar o termo 'Prosopon' ao Deus trinitário. Vários teólogos filosofantes, em sua tentativa de esclarecer a relação entre o Pai e o Filho, terminaram em uma variedade de ensinamentos perigosos e heréticos. Em oposição à poliarquia gnóstica, desenvolveram-se dois partidos "monárquicos": os patropaschites e os adotacionistas. Os primeiros ensinam que o Filho é idêntico ao Pai, enquanto o segundo nega a divindade do Filho ou do Verbo. A heresia dos patropaschites foi moldada e desenvolvida por Sabellios, que afirmava que o Deus cristão é um só, mas às vezes tomava uma prosopon diferente, uma máscara diferente. Assim, no Antigo Testamento, ele é apresentado como Pai e no Novo Testamento como Filho, e no período da Igreja como Espírito Santo. Na realidade, Sabellios estava identificando a substância com a hipóstase. Este ensinamento anula e distorce a verdade revelada sobre o Deus trinitário. E se tivesse prevalecido, teria consequências terríveis para a teologia, a Igreja e para a salvação do homem. 

Os santos Padres confrontaram essa heresia, que confundiu as características hipostáticas das Pessoas da Santíssima Trindade e, com efeito, rompeu a trinitaridade de Deus. Gostaria de me referir brevemente ao ensino de são Basílio, o Grande, sobre este assunto, de modo a mostrar o processo pelo qual a teologia da pessoa foi estabelecida. 

Em seus textos, Basílio, o Grande, se refere muitas vezes ao ensino dos Sabellios. Ele escreve que Sabellios considerava Deus como um só, mas transformado por diferentes máscaras: "que o mesmo Deus, embora em substância, é transformado em todas as ocasiões de acordo com as circunstâncias necessárias, e é falado agora como Pai e agora como Filho, e agora como Espírito Santo". Assim, as pessoas do Deus trinitário são realidades sem substância, falta-lhes ontologia. Comentando isso, Basílio, o Grande, observa: "Pois nem mesmo Sabellios rejeitou a representação não-subsistente das Pessoas". Também em outros textos de Basílio, o Grande, encontramos este ensinamento de Sabellios, que considera a pessoa como uma máscara que não está conectada com a hipóstase. 
  
Basílio, o Grande, no entanto, não se contenta simplesmente em apresentar o ensinamento dos Sabellios, mas o refuta e, ao mesmo tempo, expressa a verdade revelada nos termos de seu tempo. No que se segue, gostaria que olhássemos para as concepções teológicas de Basílio, o Grande, relativas à Pessoa de Deus. Ele escreve que, assim como qualquer pessoa que não aceita a essência comum cai no politeísmo, assim também qualquer um que descarta a distinção das hipóstases, é levado ao judaísmo. Nós, como cristãos, acreditamos no Deus Triúno, que tem uma essência comum e hipóstases distintas, mas para chegar a esse ponto e se expressar da melhor maneira possível, Basílio, o Grande, faz duas coisas muito importantes: primeiro separa a essência (ousia) da hipóstase, até então a essência era identificada com a hipóstase, e isto ainda aparece também na formulação dogmática do Primeiro Concílio Ecumênico. Basílio, o Grande, diz que a essência ou natureza, é o que é comum no Deus Trinitário e que as hipóstases são os modos particulares de ser do Pai, do Filho e do Espírito Santo; sobre este assunto, ele diz: "substância e pessoa têm a distinção que o geral tem com referência ao particular; por exemplo, assim como 'uma criatura viva' tem referência a 'um homem em particular'. Por esta razão, confessamos uma essência para a Divindade, de modo a não transmitir de forma variada a definição de sua existência, mas confessamos uma pessoa que é particular, para que nossa concepção de Pai e Filho e Espírito Santo seja distinta e perfeitamente clara para nós." Fazer essa distinção foi um grande esforço, e posso dizer que foi uma grande" revolução ", que finalmente prevaleceu, graças à grande influência da personalidade de Basílio o Grande. 
  
Em segundo lugar, Basílio, o Grande, identificou a hipóstase com a pessoa. Assim, enquanto até aquele momento "pessoa" significava algo "irreal", a máscara, desde o tempo de Basílio, o Grande, e graças aos seus próprios esforços, a pessoa adquiriu ontologia e substância. A pessoa é identificada com a hipóstase e não é algo abstrato, não é uma máscara. São Basílio o Grande, Bispo de Cesaréia, escreve caracteristicamente: "Não basta enumerar a diferença nas Pessoas, mas é necessário confessar que cada Pessoa subsiste em uma verdadeira hipóstase". 

Referindo-se ao termo "homoousios", ele diz que é o mais adequado para expressar a relação do Filho com o Pai: "Este termo também corrige o erro de Sabellios; pois elimina a identidade da pessoa (hipóstase)  e introduz uma noção perfeita das Pessoas da Divindade ". Assim, o "prosopon" - quando identificado com a hipóstase, que é a essência das peculiaridades particulares, adquire grande valor, perde seu caráter impessoal e abstrato, adquirindo ontologia. Essas duas elucidações, isto é, a separação da essência da hipóstase e a identificação da hipóstase com a pessoa, eram necessárias para combater as heresias sobre o Deus trinitário. Qualquer um que identifique essência com hipóstase necessariamente aceita o ensino de Sabellios. Basílio, o Grande, escreve com alegria: "Aqueles que dizem que a substância e as pessoas são as mesmas, são forçados a confessar somente Pessoas diferentes e, hesitando em falar de três Pessoas, descobrem que não conseguem evitar o mal de Sabellios, que ele próprio, embora muitas vezes confundindo suas noções, tentou distinguir as Pessoas, dizendo que a mesma Pessoa mudou sua aparência de acordo com a necessidade que surge em cada ocasião". Desde o século IV, então, a pessoa foi identificada com a hipóstase e a essência com a natureza. Estes termos são adequados para expressar o dogma da Santíssima Trindade. 
  
É claro que devemos acrescentar que eles não nos ajudam a entender o mistério da Santíssima Trindade. Como a expressão "mistério da Santíssima Trindade" testemunha, não podemos entender este grande mistério com a nossa razão, mas podemos formulá-lo nestes termos, embora sejam completamente inadequados e, portanto, muitas vezes usamos expressões apofáticas. Assim, podemos entender logicamente o dogma sobre o mistério da Santíssima Trindade e não o mistério em si, que transcende a razão humana e é um assunto de revelação da experiência. No entanto, gostaria que olhássemos para o significado da pessoa nos ensinamentos de São João Damasceno, que resumiu toda a teologia da Igreja sobre esse assunto. Precisamos fazer isso para poder, de alguma forma, compreender os termos que os santos Padres costumavam expressar e formular, da melhor maneira possível, às relações entre as Pessoas da Santíssima Trindade. Em particular, veremos os significados da "essência", natureza, hipóstase e pessoa como são interpretados por São João Damasceno. "Essência" (ousia) é uma coisa que subsiste em si mesma e não precisa de outra para sua existência". Da mesma forma, a essência é tudo o que subsiste em si "e não tem sua existência em outro, isto é, aquilo que não é por causa de qualquer outra coisa", nem precisa de outro para ser formado, mas que é em si mesmo. Essência (ousia) recebe o nome de ser. Portanto, ela existe por si mesma, não deve sua existência a qualquer outra coisa. 
  
"A natureza de cada ser é o princípio de seu movimento e repouso". A natureza é identificada com a essência, pois, segundo São João Damasceno "não é nada além de essência". Assim, é da essência que a natureza tem tal potencialidade, isto é, seu movimento e repouso. O termo "hipóstase" tem dois significados. Às vezes significa existência simples. Neste sentido, a hipóstase está conectada com a essência, e é por isso que alguns dos Padres disseram: "as naturezas, isto é, hipóstases". Outras vezes significa "a existência de uma substância individual em si" e significa a diferença de um indivíduo do outro. Deve-se salientar aqui que esses dois significados são dados por São João Damasceno, porque na Igreja primitiva havia duas tradições sobre o significado da hipóstase. 
  
A teologia alexandrina associava a essência à hipóstase, enquanto a teologia capadócia associava a hipóstase à pessoa. Assim, vemos que no Credo, como formulado pelo Primeiro Concílio Ecumênico, a palavra hipóstase foi usada no sentido de essência, enquanto, finalmente, no Segundo Concílio Ecumênico, foi dado o ensinamento de que a hipóstase está conectada com a pessoa e é distinta do significado da essência. Vemos essa posição também nos Padres da Capadócia, mas devemos salientar que ela também foi aceita por Atanásio, o Grande. É um fato que não temos nenhuma mudança na teologia, mas apenas na terminologia. Finalmente, prevaleceu que a essência deve estar associada à natureza e à hipóstase com a pessoa. Em qualquer caso, a essência não pode subsistir por si mesma, uma vez que a essência sem forma não subsiste, enquanto nas hipóstases, ou indivíduos, encontram-se tanto a essência quanto as diferenças intrínsecas. 

Uma "pessoa", segundo o ensinamento de São João Damasceno, é "alguém que, em razão de suas próprias operações e propriedades, nos mostra uma aparência distinta e separada daquelas da mesma natureza que ele", isto é dizer que uma pessoa é alguém que aparece como alguém em particular, entre os muitos da sua espécie. E São João Damasceno menciona dois exemplos para deixar claro. O arcanjo Gabriel, que apareceu à Panagia e conversou com ela, enquanto ele era um dos anjos e pertencia a uma espécie particular, era ao mesmo tempo um indivíduo particular "distinto dos anjos consubstanciais com ele". Ou seja, é uma questão de um indivíduo em particular, que pertenceu a um coro de anjos. Da mesma forma, temos o outro exemplo, o do apóstolo Paulo. Quando o apóstolo estava falando ao povo, "enquanto ele era um entre o número de homens, por suas características e operações ele era distinto do resto dos homens". Enquanto ele era homem, ao mesmo tempo distinguia-se dos outros homens pelos dons e méritos particulares que possuía. Deve ser enfatizado que, de acordo com São João de Damasco, hipóstase, pessoa e indivíduo são a mesma coisa. Em um ponto ele diz: "hipóstases ou indivíduos", e em outro lugar ele diz: "Deve-se saber que os santos Padres usaram os termos 'hipóstase', 'pessoa' e 'indivíduo' para a mesma coisa" 
  
A partir dessa breve análise de São João Damasceno, parece que a essência está associada à natureza e a hipóstase está associada à pessoa. E, no entanto, parece que a essência ou natureza não pode subsistir sem a pessoa ou a hipóstase. Quando falamos de hipóstase ou pessoa, queremos dizer essência ou natureza com suas características distintivas. E, claro, como mencionamos antes, o ensinamento sobre a pessoa foi formulada pelos santos Padres em relação ao Deus trinitário, para esclarecer as relações entre as pessoas da Santíssima Trindade, por causa do aparecimento de várias doutrinas heréticas, que falsificaram o ensino da Revelação. 
  



2. Pessoa e o homem 



  
Para o homem, os santos Padres usavam principalmente o termo "anthropos". Eles não falam muito sobre uma pessoa, mas sobre o homem. Todas as passagens patrísticas referem-se ao grande valor do homem, que foi criado por Deus à Sua imagem e semelhança, é a coroa da criação e tem um propósito especial: alcançar a deificação pela graça. O termo 'homem' é bíblico e se refere aos primeiros capítulos de Gênesis. São João Crisóstomo exclama: "O homem é o animal profundo de Deus" 
  
São Gregório, o Teólogo, diz: "Ele molda ao homem como ser vivente único de ambas naturezas - visível e invisível". São Gregório de Nissa escreve: "Que grande e coisa preciosa, o homem ". Basílio, o Grande escreve: "Um homem tu és, o único dos animais a ser deificado ". Eu poderia mencionar muitas passagens patrísticas em que isso aparece quando os pais falam da coroa da criação. O trabalho mais perfeito de Deus, eles o chamam de homem, mas devo salientar que, quando o chamam de homem, eles não querem dizer simplesmente por sua substância biológica, mas também a presença do Espírito Santo nele. São João Crisóstomo diz: " Pois um homem não é simplesmente alguém que tem as mãos e os pés de um homem, nem alguém que é meramente racional, mas alguém que pratica devoção e virtude com confiança." Não é necessário nascer apenas biologicamente para ser chamado de homem, mas também deve ter o Espírito Santo dentro de si. Então, um homem vivo e real é aquele que é "favorecido" com a graça de Deus. Caso contrário, ele é um homem morto para Deus e influenciado por várias paixões, como os animais. 
  
Apesar do fato de que, ao falar de Deus, os santos Padres O chamam de Pessoa e, ao falar do homem, eles o chamam principalmente de homem, ainda assim o termo 'pessoa' em alguns casos é utilizado também para o homem. E claro que isso é por condescendência, porque eles sabem que existe uma enorme diferença entre Deus e o homem, entre Criador e criatura. Deus é Incriado, enquanto o homem é criado. Ao analisar o tema da pessoa de acordo com o ensinamento de São João Damasceno, já vimos que, para interpretar o termo "pessoa", o santo usou dois exemplos, um dos anjos e outro dos homens. O que São João Damasceno diz é característico. Ele escreve: "Uma pessoa é alguém que, em razão de suas próprias operações e propriedades, exibe para nós uma aparência que é distinta e separada daqueles da mesma natureza, como Gabriel ... e Paulo ..." Claro que estes são tomados como exemplos, mas ainda podemos dizer que eles apontam para uma realidade. 
  
Em outro caso, São João Damasceno atribui os termos hipóstase e pessoa ao homem. Ele escreve: "Como os homens são muitos, cada homem é uma hipóstase: Adão é um hipóstase, Eva outra hipóstase, e Seth outra hipóstase. E assim por diante. Cada homem é uma diferente hipóstase de outros homens. E cada boi é uma hipóstase, e cada anjo é uma hipóstase, de modo que todos têm riqueza, forma e essência, e têm hipóstases consubstanciais, mas também têm uma hipóstase individual, pessoal e parcial, isto é, cada uma daquelas contidas na mesma espécie." Vê-se dessa passagem que o homem também é hipóstase e, como a hipóstase é identificada com a pessoa, o termo "pessoa" também é aplicado ao homem. 
  
Podemos ver vagamente esse tipo de correlação entre homem e pessoa, em algumas ocasiões também na Sagrada Escritura. Ao falar da união e comunhão do homem com Deus, o Apóstolo Paulo usa a expressão "face a face" ("prosopon pros prosopon"). Ele diz: "Por enquanto, vemos em um espelho, vagamente, mas depois face a face" (1 Coríntios 13,12). Se pensarmos nesta passagem como se referindo à oração noética, isto é, à iluminação da mente ("num espelho vagamente") e à deificação, isto é, à visão de Deus ("face a face"), então podemos entender que o homem pode ser caracterizado como uma pessoa, quando ele está unido a Deus por deificação e no estado de deificação. Além disso, ele é também o homem real. Ademais, o próprio apóstolo, referindo-se a um grande problema na Ásia e à sua libertação com a ajuda de Deus e as orações dos cristãos, diz: "quem nos entregou de tão grande morte e nos livra; em quem confiamos que Ele ainda nos livrará, vocês também ajudando juntos em oração por nós, que graças a muitas pessoas pode ser dada em nosso favor pelo dom que nos foi concedido por meio de muitos "(2 Coríntios 1 e 10-11).  
  
Hoje usamos demasiadamente o termo "pessoa" e "personalidade" para o homem. É necessário um cuidado especial, porque há muitos sistemas centrados na pessoa que dão a esse termo um caráter abstrato, limitando a ontologia do homem a esse "eu em si mesmo", à pessoa do homem. Além disso, há escolas psicológicas que falam abstratamente sobre a personalidade do homem e pensam que significa simplesmente sua liberdade, que também se aproxima da anarquia. No entanto, no ensino Ortodoxo, acreditamos que a ontologia do homem pode ser encontrada em seu arquétipo, no Deus que o criou, uma vez que o homem é feito à imagem de Deus. Assim, "a existência biológica não exaure o homem. O homem é entendido ontologicamente pelos Padres apenas como um ser teológico. Sua ontologia é icônica" (Panayiotis Nellas). Talvez, já que existe perigo, o termo "homem" é mais enfatizado do que o termo "pessoa", por alguns de nossos contemporâneos, que têm medo do uso inoportuno e constante do último termo. 
  
Acho que podemos usar o termo "pessoa" também para o homem, mas com muito cuidado, fazendo certas distinções. Uma delas é que, como no caso do termo 'homem', de acordo com os Padres, não podemos simplesmente aplicá-lo a todos os que estão vivos, mas principalmente àqueles que participam da purificadora, iluminadora e deificadora energia de Deus, e assim podemos usar o termo 'pessoa' para nos referir àqueles que estão a caminho da deificação pela graça e estão sendo deificados.  Assim como "na imagem" é potencialmente semelhança, "na semelhança" é na verdade "imagem", da mesma forma, também o homem, por sua existência biológica, é potencialmente homem e pessoa. Ele irá se tornar um homem real quando participa da energia incriada de Deus. Como Deus é Pessoa, significa que o homem se torna uma pessoa quando ele se une a Deus. 

Da mesma forma hoje é feita uma distinção entre a pessoa e o indivíduo. O termo "pessoa" é usado para significar o homem que tem liberdade e amor, e se distingue claramente da massa, e o termo "indivíduo" caracteriza o homem que permanece sendo um ser biológico e passa toda a sua vida e atividades no domínio material e nas necessidades biológicas, sem ter qualquer outra pretensão em sua vida. Nos Padres, como apresentado por São João Damasceno, não há diferença entre indivíduo e pessoa. Os santos Padres identificam a pessoa com o indivíduo. Penso, no entanto, que, se olharmos para essa visão dentro de todo o ensino patrístico, além das diferenças verbais, encontraremos elementos da verdade. Isso significa que podemos usar essa distinção entre indivíduo e pessoa, quando desejamos distinguir o homem que é inspirado pela graça de Deus de outro homem que simplesmente usa a si mesmo para suas necessidades materiais e biológicas
  
O fato de podermos aplicar o termo "pessoa" também ao homem, com as explicações e distinções necessárias que mencionamos, é também visto em pessoas deificadas contemporâneas que, sendo participantes da mesma experiência reveladora dos santos Padres e tendo uma consciência patrística, usam este termo. Eles ensinam especialmente que é neste ponto que reside a diferença entre a Ortodoxia e as outras confissões, bem como a diferença entre a Ortodoxia e as outras religiões orientais. 
  
Um deles é Arquimandrita Sofrônio, que escreve: "No Ser Divino, a Hipóstase constitui o princípio interior mais esotérico do Ser. Da mesma forma, no ser humano, a hipóstase é mais intrínseca e fundamental. Persona é - "o homem oculto do coração, naquilo que não é corruptível ... o qual é, aos olhos de Deus, de grande valor" (I Pedro 3-4) - o mais precioso cerne do ser no homem, manifestado em sua capacidade de autoconhecimento e de autodeterminação; em sua posse de energia criativa, em seu talento para a cognição, não só do mundo criado, mas também do mundo Divino. Consumido com amor, o homem sente-se unido ao seu amado Deus. Através dessa união, ele conhece a Deus e seu amor e cognição se fundem em um único ato". 
  
Pode-se ver nesse excerto que o homem é caracterizado como pessoa-hipóstase, mas no sentido de que a pessoa é o núcleo interno de sua existência e está conectada com seu impulso para com Deus e sua união com Ele. Examinaremos a dimensão ascética da pessoa, que hoje em dia geralmente não é examinada, mais adiante neste capítulo. Em todas as obras do Arquimandrita Sofrônio, vemos que Deus é Pessoa e que o homem, que tem comunhão e união com Deus, é uma pessoa. Em geral, todas as nossas ações devem ter um caráter hipostático e pessoal, e todos nós devemos viajar pelo caminho hipostático. Mas até mesmo a obediência é uma experiência hipostática, enquanto o amor também é uma comunhão de pessoas amadas. 
  
Tudo isso mostra que os santos Padres usaram o termo "Pessoa" para indicar as particularidades do Pai, Filho e Espírito Santo. Mas, eles costumam usar o termo "anthropos", homem, para os seres humanos. No entanto, existem algumas indicações de que o termo 'pessoa', às vezes, também é aplicado a um homem. Mas isso deve ser feito com cuidado especial, pois é possível dar um caráter filosófico e abstrato ao termo "pessoa". Corretamente, um homem e uma pessoa é aquele que passou da imagem para a semelhança. No ensino dos santos Padres, estar na imagem é potencialmente estar na semelhança, e estar à semelhança é, na verdade, a imagem. Da mesma forma, o homem criado por Deus e recriado pela Igreja através do Santo Batismo, é potencialmente uma pessoa. Mas quando, através de sua luta pessoal, e especialmente pela graça de Deus, ele alcança a semelhança, então ele é realmente uma pessoa. Portanto, nós afirmamos que ontologicamente todos os seres humanos podem ser considerados como pessoas, e até mesmo o próprio diabo é uma pessoa, mas soteriologicamente não somos todos pessoas, já que nem todos alcançamos a semelhança. 



3. Interpretações contemporâneas - análises da pessoa 


  
Vários sistemas humanísticos e centrados na pessoa tratam da 'pessoa', e várias escolas psicológicas se referem à personalidade do homem, que é livre para fazer suas escolhas. Os teólogos contemporâneos, tendo descoberto que todos esses sistemas têm um uso abstrato para o termo "pessoa", comprometeram-se a dar dimensões teológicas à pessoa e a olhar para a vida do homem dentro dessa interpretação. De fato, ao falar da pessoa, não apenas a filosofia clássica, mas também a contemporânea, dá-lhe um significado ético e diz que o que constitui a pessoa humana é a coerência auto-existente das energias espirituais de cada 'eu concreto', que o homem é uma pessoa graças à constituição natural de seu organismo e assim por diante. Como tem sido bem observado, "diferentes definições de sujeito que o termo 'pessoa' expressa em si, foram oferecidas de tempo em tempo, mas ninguém lhes deu consideração suficiente". Portanto, "as tentativas que foram feitas para definir a 'pessoa' são limitadas e inadequadas"(Markos Siotos) 
  
De todas as interpretações sobre o homem como pessoa que foram dadas do ponto de vista teológico, posso apontar duas das mais características, que dão duas dimensões ao termo "pessoa". Uma é mais teológico-filosófica e outra é mais eclesiológica. Eu uso o termo "mais", porque elas não são completamente separadas uma da outra, pois há elementos de verdade em ambas as interpretações. 
  
O professor Christos Yannaras expressa a primeira. Ele nos dá a definição da pessoa e suas dimensões na linguagem filosófico-teológica. Ele diz que a autoconsciência, por um lado, e a alteridade, por outro, são o que diferencia uma pessoa da outra. Esses termos são usados pelos santos Padres. Por exemplo, o termo "alteridade" é usado por São Dionísio, o Areopagita e São Gregório de Nissa. Yannaras escreve: "Todos nós entendemos que o que diferencia a existência pessoal de qualquer outra forma de existência é a autoconsciência e a alteridade. Chamamos de autoconsciência, a consciência de nossa própria existência, a certeza de que eu existo e que sou eu que existe, um ser com identidade, uma identidade que me diferencia de todos os outros seres. E essa diferenciação é uma alteridade absoluta, um caráter único, distinto e irrepetível, que define minha existência ". Mas, como esse autoconhecimento e alteridade não são produtos do pensamento, mas de muitos fatores que também estão sendo investigados pela psicologia contemporânea, a maneira pela qual o ego é formado e amadurece "não é outra coisa senão a relação, referência. É o potencial que constitui o homem, o potencial de ser oposto a alguém ou algo, ter o rosto voltado para alguém ou algo, de ser uma pessoa (pros-opon). Assim, "usamos a palavra 'pessoa' para definir uma realidade relacional. A pessoa é definida como referência e relacionamento, e define uma referência e um relacionamento". 
  
Eu acho que esses são os pontos centrais dessa análise da pessoa. Eles enfatizam principalmente dois pontos característicos- propriedades, da pessoa- como autoconhecimento e alteridade. E, com certeza, eles não podem ser interpretadas separadamente da referência, separadamente de ir e mover-se em direção a outra pessoa. Isso significa que a pessoa não conhece a solidão. Não é minha intenção fazer uma grande análise desses pontos ou, mais geralmente, do termo "pessoa" nesse sentido. 
  
Num excelente estudo seu, o Metropolita Zizioulas de Pérgamo dá a dimensão eclesiológica do termo "pessoa" e salienta que não é possível para nós ver e interpretar o homem como uma pessoa à parte de seu caráter eclesial. 

Analisando as marcas distintivas da pessoa, ele as especifica como três. Uma é a liberdade. De fato, quando falamos de liberdade, não queremos dizer isso no sentido ético e filosófico da possibilidade de escolha, mas estamos nos referindo à falta de compromisso com qualquer dado, mesmo o dado da existência. Pertence ao incriado. O segundo elemento da pessoa é o amor, uma vez que "o único exercício da liberdade, de maneira ontológica, é o amor". A terceira marca distintiva é a "entidade concreta, singular e irrepetível". 
  
Devemos salientar que mesmo essas três características distintivas que constituem a pessoa só existem em Deus, uma vez que só Deus é auto-existente, tem amor real e é singular. O homem pode tornar-se pessoa e alcançar o incriado pela graça, o amor como autotranscendência extática e "sempre bem-estar", somente através de seu relacionamento e comunhão com Deus. Assim, "a teologia patrística considera a pessoa como uma 'imagem e semelhança de Deus'. Ela não está satisfeita com uma interpretação humanista da pessoa". 
  
Portanto, o homem é preservado como pessoa, apenas na experiência da deificação e no viver do caminho da salvação. Nesse ponto, o Metropolita John analisa a dimensão eclesiológica do termo "pessoa". Ele vê o homem em dois modos de existência. "O primeiro é o que pode ser chamado de hipóstase da existência biológica, o outro é a hipóstase da existência eclesial". Analisando este ponto e, em particular, analisando os sacramentos do Batismo e da Divina Eucarística, ele apresenta a verdade de que o homem nasce como pessoa através dos sacramentos. E, portanto, "o conceito da pessoa está indissoluvelmente ligado à teologia"
  
Já dissemos antes que essas duas análises particulares não diferem radicalmente uma das outra, mas expressam e interpretam os dois lados desse grande tema, de como o homem se torna ativamente uma pessoa. Ao mesmo tempo, esses dois aspectos também apresentam o lado ascético do sujeito. O autoconhecimento não pode ser realizado e vivido sem ascese, mas tampouco a hipóstase eclesiológica pode ser criada à parte da ascese. Além disso, "o caráter ascético da hipóstase eclesial não provém de uma negação do mundo ou da própria natureza biológica da existência. Isto implicaria uma negação da hipóstase biológica." Assim, a ascese é essencial para a realização do homem e sua jornada da imagem para a semelhança. 
  
Não obstante, permitam-me assinalar que hoje muito se fala da compreensão filosófico-teológica da pessoa e da dimensão eclesiológica da pessoa, mas não se fala muito do ascetismo da pessoa. Eu enfatizo a palavra "muito" porque há menção, mas acho que não do modo que deveria haver. A análise que está sendo realizada é certamente essencial, mas alguém deveria deter-se nesse aspecto. Se não damos a devida ênfase à dimensão ascética da pessoa, isto é, como o homem se torna uma pessoa, não podemos efetivamente ajudar as pessoas de hoje. Eu penso que os santos Padres, especialmente aqueles chamados de népticos, oferecem ensinamentos valiosos sobre este assunto. Se nos recusarmos a olhar para isso, estamos fazendo do Cristianismo uma ideologia. Portanto, na seção seguinte, nos ocuparemos desse importante lado do assunto. 


  
4. O ascetismo da pessoa 
  


Falando de ascetismo, não o fazemos absoluto e não o tornamos independente da vida sacramental. A vida sacramental não pode ser entendida sem ascetismo, nem a vida ascética pode ser compreendida sem a vida sacramental. A rejeição do ascetismo, isto é, do hesicasmo, é a vida proclamada pelo Barlaam ocidentalizado, e a rejeição dos sacramentos pelo ascetismo, é uma atitude de vida que os Massalias ensinaram e viveram. Na Ortodoxia, existe uma estreita relação entre a vida ascética e sacramental. Mas, neste ponto, falaremos particularmente sobre o ascetismo-hesicasmo, porque, infelizmente, está sendo ignorado hoje em dia, com o resultado de que nós não vemos mais a pessoa de forma plena. 
  
Nós dissemos antes que a pessoa é o homem oculto do coração. Arquimandrita Sofrônio é epigramático e expressivo quando escreve: "O conhecimento científico e filosófico pode ser formulado, mas a 'persona' está além da definição e, portanto, incognoscível desde fora, a menos que ela mesmo se revele. Como Deus é um Deus Secreto, da mesma forma o homem tem segredos profundos. O homem não é nem o autor da existência nem o seu fim. Deus, não o homem, é o Alfa e o Ômega. A qualidade divina do homem está no modo de ser dele ".  

  
Portanto, ninguém pode definir a pessoa filosoficamente, sendo ela um objeto de revelação. E essa revelação acontece no coração. O homem compreende que está ocorrendo uma mudança e que ele está mudando de uma máscara para uma pessoa. A revelação e a vivência da pessoa, também é chamada de renascimento do homem. O homem é renascido pela graça divina e se torna uma pessoa, ou melhor, poderia ser melhor formulado que a pessoa renasce "do alto". "A pessoa renasce do alto. Uma flor requintada se desdobra dentro de nós: a hipóstase-persona. Como o Reino de Deus, a persona 'não vem com observação' (Lucas 17:20). O processo pelo qual o espírito humano entra no domínio da eternidade divina difere em cada um de nós." (Arquimandrita Sofrônio) 
  
A pessoa transcende o terreno, pois nasce da graça divina. Não é uma revelação do homem, mas uma revelação de Deus. "A 'persona' transcende as fronteiras terrenas e se move em outras esferas. Não pode ser explicada. É singular e única". (Arquimandrita Sofrônio) 
  
Certamente, deve-se acrescentar que a pessoa está intimamente ligada à Luz e ao amor incriados. "Deus se revela, principalmente através do coração, como Amor e Luz". A pessoa não pode ser entendida sem a visão-revelação de Deus, amor real por Deus e pelo homem. A pessoa não conhece a solidão, mas ela sempre se move em um relacionamento e vive esse relacionamento. Quando um homem descobre seu coração pela graça de Deus, ele é verdadeiramente e realmente uma pessoa. 
  
Essa maneira em que o lugar do coração, o núcleo da existência do homem, que é caracterizado como pessoa, é descoberto, é chamado de hesicasmo. É o único método pelo qual o homem renasce espiritualmente. Ao usar este método o homem também pode ser ajudado pela vida sacramental da Igreja; caso contrário, os sacramentos funcionam de maneira punitiva. 
  
Eu tive uma conversa com alguém que me apresentou um problema que havia sido criado para ele lendo meus livros. Ele me disse: "Por um lado, você fala da pessoa e, por outro lado, está sempre escrevendo sobre a cura e o hesicasmo. Como essas coisas andam juntas?" Eu respondi que neste ponto é possível ver a estreita relação da pessoa com o ascetismo. Se a pessoa não está curada, se não está se movendo da imagem para a semelhança, ela não pode se tornar uma pessoa. De qualquer forma, o significado da pessoa não é filosófico, mas teológico. E a teologia não pode ser entendida à parte da experiência. 

Em seguida, gostaria de analisar duas maneiras pelas quais a pessoa é revelada, o mundo interior é revelado e o homem se torna uma pessoa na realidade. Essas duas maneiras não são opostas uma a outra, mas expressam e manifestam a mesma coisa de lados diferentes. A primeira maneira deve ser encontrado na tentativa do homem - inspirada primariamente pela graça de Deus - de libertar sua mente da lógica, do mundo circundante e das paixões. Desde a queda, o homem está confuso e, portanto, tem que ser libertado. Isso constitui verdadeira liberdade. A liberação do nous da lógica é feita através do hesicasmo. Isto significa que o homem luta para se livrar das coisas que o prendem, ele obedece a um pai espiritual deificado, pratica a oração científica, isto é, ele tenta fazer a oração espiritual incessantemente, às vezes com os lábios, às vezes com raciocínio; ele está constantemente sóbrio, atento para não deixar nenhuma imagem tentadora de seu pensamento entrar em seu coração; e esse método é chamado de terapia. Assim, o homem é curado e prossegue em direção à deificação - ele joga fora a máscara das paixões e se torna uma pessoa. 
  
Este método, que é praticado pelo genuíno hesicasta, é apresentado por São Gregório Palamas. Olharemos para o texto como é relatado por São Filoteo Kokkinos, que o adapta ao primeiro, ao descrever a maneira pela qual São Gregório Palamas alcançou a deificação e adquiriu experiências da vida divina. De acordo com São Gregório, o nous deve ser separado das coisas externas, de sua difusão entre as coisas criadas e retornar ao coração. Assim que ele retorna, ele vê a "máscara hedionda de sua errância". Vendo esta fealdade, tenta purificá-lo com tristeza. Quando é removida esta máscara horrível, a máscara do homem superficial, então o nous entra no coração e reza incessantemente a Deus "em segredo". Assim ele adquire a oração noética. Então Deus lhe dá o dom que é chamado de paz dos pensamentos. A paz oferece-lhe humildade, que é o que conserva todas as virtudes. Da paz dos pensamentos e humildade vêm todas as outras virtudes, no meio das quais o amor. No limiar destes está o prelúdio para a era vindoura, e floresce a alegria inefável que não pode ser tirada. 

A pobreza do espirito é a mãe de nossa liberdade diante da ansiedade. Libertar-se da ansiedade é a mãe da atenção e da oração, e essas duas são mães da lamentação e das lágrimas. As lágrimas purificam todo o conteúdo da máscara hedionda. É só então que o caminho da virtude se torna mais fácil e a consciência isenta de culpa. E daí vem a alegria mais perfeita, e a lágrima da lamentação é transformada em algo doce, e a oração é transformada em gratidão. Até então todos esses são os presentes do noivado, do compromisso. 

Depois desse esforço ascético, liberando o nous, superando a mente e tudo que é perceptível e fantasia, apresenta-se a si mesmo, surdo e mudo para Deus e é iluminado. O homem que alcança a iluminação do nous torna-se um homem real e natural, entrando na verdadeira obra de sua vida e escalando a eterna montanha. E "que maravilha encontra sua visão!" Sem ser separado da matéria, ele ascende pelo poder inefável do Espírito e assim "ouve palavras indizíveis e vê o invisível. E depois disso ele pode ser e se admira completamente, mesmo que esteja longe dali, e competindo com os incansáveis cantores de louvores, ele se torna outro verdadeiro anjo de Deus na terra". 


Então o nous atinge a visão da Luz incriada. Certamente, São Gregório diz que a Luz está em toda parte, mas não brilha da mesma forma em todos. É vista de acordo com a pureza do coração do homem, mas também de acordo com a vontade do Deus que ilumina. Em qualquer caso, quando o nous de um homem é iluminado, então "também muitos sinais de beleza divina são transmitidos ao corpo iluminado". Também vem da visão da Luz incriada o hábito da virtude, bem como a incapacidade ou dificuldade de se mover em direção ao mal. Daí vem a palavra teológica do homem, seu dom de milagres, previsão e insight. Acima de tudo, o homem adquire conhecimento de todo o futuro. O grande benefício deste treinamento é "o retorno do nous a si mesmo" e o retorno de todos os poderes da alma ao nous. O retorno da energia de Deus ao nous, e através disso o homem volta para aquela beleza antiga e indescritível.  
  
Ao apresentar-nos a maneira pela qual a Panagia alcançou a deificação, São Gregório Palamas, ao mesmo tempo, analisa o caminho que o homem deve seguir para se tornar uma pessoa. Ele diz que no homem, entre nous e sensações, estão a imaginação, a razão e a crença. Assim, o homem tem à sua disposição, imaginação, crença, razão e sensação. Imaginação, crença e razão se originam da sensação. Imaginação, crença e razão. Mas a sensação é o poder irracional da alma e, portanto, não pode ser elevado e reconhecer Deus. Portanto, é impossível alguém reconhecer a Deus e alcançar a deificação pelos outros poderes de sua alma e corpo. Isso só pode ser feito pelo nous, já que é o único órgão com o qual o homem pode reconhecer Deus. Através do método ascético, o nous se separa do raciocínio, do mundo circundante e das paixões, entra no coração, une-se na graça com o coração e depois eleva-se à visão de Deus. Isso resulta na cura do homem, a deificação de todo o seu ser. E naturalmente, dessa maneira, ele se torna uma pessoa. 
  
Este método descrito por São Gregório Palamas é o que é chamado de hesicasmo - a única maneira de o homem alcançar a deificação e se tornar uma pessoa. 
  
A segunda maneira pela qual a pessoa é revelada, não difere distintamente da anterior, mas é complicada, porque ela tem um começo e um ponto de partida diferentes. É analisada, novamente, pelos santos Padres da Igreja, porque o método de se tornar uma pessoa é diferente. A seguir, descreverei alguns estágios dessa jornada. 
  
Pela boa vontade de Deus, o homem de repente- e inesperadamente- experimenta um Pentecostes, uma Revelação. Vemos isso no apóstolo Paulo, a quem Cristo se revelou no exato momento em que O perseguia. Por Sua manifestação, Deus contrata um testamento pessoal com o homem. Então o homem percebe que Deus não é uma idéia abstrata, nem uma pessoa do passado, mas é um ser vivo. Ele também percebe que Deus é trinitário, uma essência e três pessoas, porque ele vê três luzes. Ele vê as características pessoais, os modos particulares de ser, porque o Filho é encarnado pela Luz, o Pai é uma Luz que é a causa das outras duas Luzes, e o Espírito Santo é uma Luz que tem sua fonte no Pai, mas não incarnou. Esta revelação de Deus destrói todas as idéias que o homem tinha anteriormente sobre Deus, ele vê seu passado cair e adquire verdadeiro arrependimento, quebrantamento, choro, em profunda humildade. 

A Revelação de Deus faz a oração do homem ser hipostática-pessoal. Ele não reza a um Deus abstrato, não faz simplesmente uma meditação, não está ocupado com a transcendência do bem e do mal, com as categorias da chamada vida cósmica e ética, mas reza de pessoa para pessoa. Ele retoma os Salmos: "A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo. Quando devo comparecer perante o face de Deus? "(Salmos 42,3). 
  
Tal relacionamento aumenta o arrependimento, porque nessa situação se vê a nossa miséria sob a luz de Deus. São Gregório do Sinai diz caracteristicamente: "Se não sabemos como éramos quando Deus nos fez, não nos daremos conta do que o pecado nos tornou." São São Macário do Egito, referindo-se à parábola de Cristo em que a viúva acendeu uma lâmpada e assim encontrou seu dracma perdido, diz que o mesmo é verdade com o homem. "Realmente a alma é incapaz, por si mesma, de estudar seus próprios pensamentos e discerni-los. Mas com a lâmpada divina acesa, a luz dissipa as trevas da casa. Então a pessoa vê seus próprios pensamentos, como eles foram cobertos pela impureza e pela lama do pecado. O sol nasce e a alma vê sua perda e começa a revogar os pensamentos que haviam sido misturados com sujeira e miséria." São Simeão, o Novo Teólogo, diz que se o homem não se vê, ele não pode ser chamado de homem, pois ele é um "boi" ou uma "besta" 
  
Nesse estado, ele desenvolve uma sede incontrolável de perfeição. Ele quer alcançar maior conhecimento de Deus, pois não há fim para a perfeição, nem limite para a virtude. 
  
E, naturalmente, o renascimento de um homem, a descoberta de seu coração, a descoberta do princípio hipostático, resulta em seu amor pelo mundo inteiro se desenvolvendo continuamente. E isso é expresso pela oração e sacrifício pelo mundo inteiro. Seu coração está em chamas de amor. Então o homem ultrapassa as fronteiras limitadas de seu ego e, do amor e com amor, entra na hipóstase do outro. Ele vive a kenosis de Cristo até certo ponto, e a agonia de Cristo no Getsêmani. Ele chora pelo mundo inteiro. Nas vidas de muitos santos, vemos esse coração simpatizante que eles tinham para toda a criação, mesmo para o diabo. Esta oração sacrificial, que ocorre dentro da experiência de ver o divino e descobrir a pessoa, é chamada de sacerdócio real, e todos os que oram noeticamente têm o que se chama de ordenação espiritual. 
  
É essencial olhar para a dimensão ascética da pessoa, porque não podemos entender a pessoa do ponto de vista Ortodoxo de qualquer outra forma. Quando alguém segue o método concreto usado pela Igreja Ortodoxa, ele pode experimentar exatamente o que uma pessoa é. Este aspecto também é enfatizado pelo Arquimandrita Sofrônio Sakharov em seu recente livro, e me permitirá fazer uma referência. 


O Arquimandrita Sofrônio observa: "A Hipóstase de Deus escapa à definição porque não pode estar sujeita a nenhum tipo de determinação. Não pode ser conhecida racionalmente, podendo ser apreendida existencialmente e somente na medida em que Deus se revela ao homem (cf. Mt 11). 27; Lucas 10:22; João 17:26). 
  
"No homem, também, a imagem do Deus Pessoal, o princípio da pessoa é 'o homem oculto do coração, naquilo que não é corruptível ... que é, à vista de Deus, de grande valor' (I Pedro 3:4) A pessoa criada também está além da definição. Cognição cientifica e filosófica pode ser expressa em conceitos e definições, mas a pessoa é ser, não está sujeita à formas filosóficas ou científicas de cognição. Como Deus, a pessoa-hipóstase não pode ser completamente conhecida desde fora a menos que ele se revele a outra pessoa. " 
  
O que podemos sublinhar desta passagem é que a pessoa, seja em Deus ou no homem, não pode ser expressa totalmente em termos filosóficos e científicos, porque está além deles. A pessoa é revelada existencialmente. Portanto, podemos falar sobre o mistério da pessoa. A própria pessoa se revela. E isso é uma questão de experiência, revelação. 

O fato de percebermos que Deus é uma essência e três pessoas é uma questão de experiência, de revelação pessoal. Em outras palavras, o próprio Deus se revela ao homem e lhe oferece conhecimento de si mesmo. Os santos receberam a Revelação, chegaram ao Pentecostes, experimentaram as palavras e entendimentos incriados, e mais tarde tornaram essa experiência reveladora conhecida da melhor maneira possível com palavras e conceitos criados, porque era necessária para o tempo deles. Assim, não se pode compreender e experimentar o caráter triplo de Deus por meio de termos, apesar de sua utilidade. É uma questão de experiência. 

Portanto, os Padres chegaram ao ponto de dizer que Deus é Triplo, tendo uma essência e três hipóstases, mas, na verdade, Ele não é nem uma mônada nem uma tríade, assim como concebemos e entendemos essas coisas. É essencialmente uma questão de experiência, de participação no Pentecostes.   
  
Arquimandrita Sofrônio apresenta uma experiência pessoal: "A luz que aparece no homem quando ele crê em Cristo testifica a Sua Divindade. Nosso espírito aceita o Senhor Jesus como Verdade imutável, autenticamente Santo. E essa Luz eterna gera um testemunho dentro de nós idêntico ao ensinamento. Nesta Luz contemplamos o Pai. Nós apreendemos esta Luz como o Espírito Santo, nela vemos Cristo como o Filho unigênito do Pai. N’Ele percebemos a Unidade dos Três. Orando a este Deus, vivemos o Ser Único das Três Pessoas, mas apreendemos e nos relacionamos com esta Unicidade de forma variada: Eu me aproximo do Pai de uma forma, eu oro de outro modo para o Espírito Santo, eu me volto para Cristo de uma maneira diferente. Com um sentimento espiritual especial, associado a cada um, que de modo algum desvirtua sua Unicidade de ser, com cada Hipóstase da Santíssima Trindade temos até certo ponto um relacionamento diferente.  O mais próximo de todos nós conhecemos o Senhor Jesus através de Sua encarnação, Seu tornar-se homem, e através Dele somos conduzidos ao Primeiro Ser, que é o verdadeiro Deus - a TRINDADE, uma substância e indivisa".




  
Nesta passagem, vemos que o conhecimento do Deus Triuno é um assunto de revelação, de participação no Pentecostes. Por Revelação, como já dissemos, o homem vê três Luzes, alcança a consciência da essência comum, da Unicidade de Deus, mas também da particularidade de cada Pessoa. Ele vê claramente que o Pai é Luz, que é a fonte das outras Luzes, que Cristo é Luz encarnada, e o Espírito Santo é a Luz que procede da primeira Luz, mas não encarnada, não está incorporada. O conhecimento que o deificado tem do Deus Triuno é conhecimento experiencial. Esse conhecimento passa em palavras e termos temporais, como “essência” e “hipóstase” ou “pessoas”. Assim, os termos essência e pessoa não podem fornecer o verdadeiro conhecimento de Deus, mas o conhecimento sobre Deus. Portanto, não podemos falar sobre o mistério da Santíssima Trindade, uma vez que a Santíssima Trindade é um mistério incompreensível, mas podemos falar sobre o conhecimento da doutrina que diz respeito ao mistério da Santíssima Trindade. 

Este é o caso do homem também. O termo "pessoa", que é usado também para o homem, não pode oferecer pleno conhecimento do homem, porque também é um mistério revelado à compreensão da experiência. Arquimandrita Sofrônio faz a seguinte observação em relação a este tópico: "Quando, por um dom do Alto, me foi concedido compreender o lugar ontológico do princípio da 'persona' no Ser Divino, tudo mudou naturalmente e apareceu na perspectiva oposta: somos seres criados como “personae”, somos seres criados potencialmente, não efetivamente. Eu não sou o Ser-Primeiro, mas uma imagem criada dEle. Pelos mandamentos do Evangelho sou convocado a realizar em mim mesmo minha semelhança pessoal com Deus, como 'persona', para superar a limitação do indivíduo, que não pode, de modo algum, herdar a forma divina de ser". 
  
Aqui, entre outras coisas, são apresentadas três grandes verdades. Uma é que a revelação de Deus como Pessoa, que é um dom da graça divina, também manifesta a criação da pessoa humana. Dentro desta experiência o homem vê sua criação, que ele foi feito pessoa potencialmente, para se tornar uma em ação. A outra verdade é que o homem pode se tornar uma pessoa em ação, isto é, ele pode alcançar a semelhança mantendo os mandamentos de Cristo. Os mandamentos de Cristo referem-se à purificação do homem e à iluminação do nous. E a terceira verdade é que o homem deve transcender os limites do indivíduo, porque o indivíduo, que constitui um ser biológico, não pode alcançar a semelhança, o que significa que o homem deve mudar de um indivíduo e se tornar uma pessoa. E isso acontece ao guardar os mandamentos de Cristo. 
    
Em outro lugar, Arquimandrita Sofrônio também define o caminho que se deve seguir para alcançar a Revelação do mistério da pessoa. Como este texto é muito gráfico e fluente, vou citá-lo como está. 
  
"Mesmo que apenas "em parte", no entanto, por causa das orações de meu pai São Silouan, o Senhor revelou-me o mistério da persona. Ano após ano, eu orei orações de desespero. O Senhor não me desprezou e desceu em misericórdia até a mim. A princípio era a palavra do Evangelho dele que agia sobre mim. ” Essa palavra, que procede do Pai, criou raízes em meu coração endurecido, e minha nova vida nasceu em sofrimento. Era como se estivesse suspenso no ar, sozinho, fora da Igreja.  Eu era completamente ignorante então, mas um fogo invisível me consumiu, e minha alma em agonia alcançou o Todo Poderoso para me salvar. Em algum lugar dentro de mim, um raio de esperança apareceu e superou meu medo de começar neste caminho doloroso. Essa dor que estou tentando falar é sagrada para mim. Um estranho milagre - a dor no meu coração trouxe momentos de arrebatamento ao meu espírito. Fiquei maravilhado em como Deus criou minha natureza capaz de suportar o sofrimento, através do qual, até então, desconhecidas profundezas de oração me foram reveladas. Houve momentos em que, tomado pela dor, em um sussurro que ainda chorava em admiração, eu exclamava: "Glória a Ti, criador todo-Sábio". A oração me libertou da prisão apertada do mundo, e meu espírito viveu na liberdade do infinito de meu Deus. Sem esse sofrimento eu nunca poderia ter entendido o amor que o Senhor falou quando disse: 'porque se aproxima o príncipe deste mundo, e nada tem em mim; Mas é para que o mundo saiba que eu amo o Pai, e que faço como o Pai me mandou” (João 14: 30-31).
  
E este extrato é revelador, principalmente por três razões. Primeiro porque é uma experiência contemporânea e mostra a experiência comum dos santos Padres. Em segundo lugar, porque apresenta vivamente a verdade de que o sujeito da pessoa é um mistério, revelado pelo próprio Deus através das orações dos pais espirituais. Em terceiro lugar, porque a revelação da pessoa pressupõe uma dor profunda. Está ligado a uma luz que queima o homem interior e o conduz por um impulso de busca de Deus. Relaciona-se com a oração ardente e o êxtase e, em geral, com o renascimento do homem e a aquisição de uma nova vida. 
  
De todas estas coisas, é claro que, sem ascetismo, é impossível compreender e experimentar a pessoa, que é um mistério. Os termos definem algo e apontam um caminho, mas nunca podem substituir a experiência. Apesar de sua utilidade, eles são completamente inadequados. 
  
Assim, por meio do ascetismo Ortodoxo, que tem seu lugar dentro da estrutura da Igreja e difere de qualquer outro ascetismo, o homem pode atingir o princípio hipostático, ele pode seguir o caminho hipostático e acabar com a "máscara hedionda de sua errância" - ele pode realmente se tornar uma pessoa. A pessoa não está esgotada em definições filosóficas e análises teológicas, mas é experienciada dentro do sofrimento. Um novo ser nasce do sofrimento. Assim como o sofrimento está ligado ao nascimento biológico, também o sofrimento espiritual está ligado ao nascimento espiritual do homem. 



5. O valor de considerar o ascetismo da pessoa 


  
É essencial e necessário considerar o ascetismo da pessoa. Se não olharmos para o sujeito deste ângulo, não podemos ter uma boa compreensão do que os Santos Padres ensinam sobre isso. Portanto, a ênfase no ascetismo da pessoa não é um luxo para a nossa vida, mas uma necessidade. 
  
Sem essa orientação, muitos perigos e grandes problemas são criados. Não só não entenderíamos a teologia Ortodoxa, como tampouco compreenderíamos os problemas contemporâneos que surgem a cada dia. 
  
A seguir, gostaria de examinar três problemas que estão surgindo hoje e estão criando numerosos dilemas, e que só podem ser resolvidos se olharmos para a dimensão ascética da pessoa. 
  
a) Pessoa e eros 
  
Hoje, está sendo enfatizado que a pessoa está ligada ao amor e que somente como pessoa o homem pode ter o amor real e verdadeiro. Nós lemos que "A distinção pessoal é revelada e conhecida apenas no âmbito do relacionamento pessoal direto e da comunhão, somente pela participação no princípio do imediatismo pessoal, ou da força amorosa e criativa que distingue a pessoa da natureza comum. Essa revelação e o conhecimento da distinção pessoal torna-se cada vez mais pleno, pois o fato da comunhão e do relacionamento alcança sua totalidade no amor. O amor é o caminho supremo para o conhecimento da pessoa, porque é uma aceitação da outra como um todo.  Isso não projeta para a outra pessoa as preferências individuais, demandas ou desejos, mas aceita-o como ela é, na plenitude de sua singularidade pessoal. É por isso que o conhecimento da distinção da pessoa alcança sua plenitude final na autotranscendência e na oferta de si mesmo, que é amor, e por que, na linguagem da Bíblia, o diálogo sexual é identificado com o conhecimento de uma pessoa.” (Yannaras)
  
Não há dúvida de que quando o homem se torna pessoa, conforme descrito pelos Santos Padres, então o amor verdadeiro também se desenvolve e é experimentado. A pessoa está ligada ao amor. Deus é uma pessoa e Ele ama o homem. É por isso que São Maximo, o Confessor, seguindo São Dionísio, diz: "Os teólogos chamam o divino às vezes de força erótica (NdoT: eros), às vezes amor, às vezes aquilo que é intensamente desejado e amado. Consequentemente, como força erótica e como amor, o divino, em si mesmo, está sujeito ao movimento e, como aquilo que é intensamente desejado e amado, move para si tudo o que é receptivo a essa força e amor ". Assim, a pessoa não pode ser compreendida sem amor, e o amor verdadeiro não pode ser entendido sem a existência da pessoa verdadeira. 
  
É possível, no entanto, entendermos a pessoa filosófica e abstratamente e, por extensão, também entender o amor como sensual e biológico. É por isso que neste ponto a necessidade de ascetismo deve ser enfatizada. Além disso, até mesmo o caráter do casamento é ascético.
  
O amor sexual como necessidade biológica é caracterizado por duas paixões, que "destroem precisamente aquilo em que a hipóstase humana está impulsionando, a saber: a pessoa". A primeira paixão pode ser chamada de necessidade ontológica e a segunda paixão poderia ser chamada de individualismo e separação da hipóstase. A primeira está ligada ao instinto e a segunda à morte, pois nasce um homem que vai morrer. "Tudo isso significa que o homem como uma hipóstase biológica é intrinsecamente uma figura trágica. Ele nasce como resultado de um fato extático - amor erótico -mas, esse fato está entrelaçado com uma necessidade natural e, portanto, carece de liberdade ontológica. Ele nasce como um fato hipostático, como um corpo, mas este fato é entrelaçado com a individualidade e com a morte." (Zizioulas) 


Isso significa que somente quando o homem se torna uma pessoa ele preserva o amor. E, como dissemos antes, essencialmente, a pessoa é uma revelação, uma manifestação do lugar do coração, um renascimento do homem. É com essas pressuposições que os Padres da Igreja falam tanto de pessoa quanto de amor. São Gregório Palamas escreve que, assim como Deus é Nous, Palavra e Espírito, o mesmo acontece com o homem. O homem também, criado por Deus à Sua imagem, tem nous, palavra e espírito. O espírito que desperta seu corpo é seu amor noético, "que sai do nous e da palavra, e possui em si a palavra e o nous" (Philokalia). Dessas coisas, vemos que, enquanto o nous é puro, o amor noético está ligado a ele. E na medida em que a pureza do nous é uma condição para a cura do homem e está conectada com todo o esforço ascético que o homem empreende, e na medida em que isso está relacionado com o renascimento do homem, nessa medida o amor também não é simplesmente biológico, mas noético. 

São Dionísio, o Areopagita, que fala do amor, sublinha enfaticamente: "o amor verdadeiro é louvado como apropriado ao divino". E, claro, há várias condições prévias que determinam o amor verdadeiro. Quando os poderes da alma são movidos de acordo com a natureza e acima da natureza, eles experimentam o verdadeiro amor; de outra forma, o amor sensual se desenvolve, que é um ídolo, ou melhor, um afastamento do amor real. São Dionísio diz: "Outros, no entanto, tendiam naturalmente a pensar em um amor parcial, físico e dividido. Isto não é amor verdadeiro, mas uma imagem vazia ou, melhor, um lapso do amor verdadeiro". 
  
Consequentemente, o amor está ligado à pessoa, particularmente quando a pessoa tem uma infraestrutura e interpretação teológica, e não filosófica e psicológica. A interpretação filosófica e psicológica não nos dá a certeza de que o amor é genuíno. 
  
Todos os santos Padres se movem dentro dessa estrutura. São Gregório do Sinai diz que aquele amor é "uma intoxicação espiritual que desperta nossos desejos". Ao analisar este tópico, ele escreve que existem dois "amores espiritualmente extáticos". Um está dentro do coração e pertence àqueles que ainda estão no processo de alcançar a iluminação do nous, e está conectado com a oração noética, já o outro é extático, que pertence àqueles aperfeiçoados no amor. Ambos os amores, que são divinos, "agindo sobre o nous, o transportam para além do mundo dos sentidos". Assim, o amor verdadeiro, que constitui a pessoa, é uma libertação do nous dos sentidos. E isso também é chamado de intoxicação espiritual, porque os sentidos também estão separados de seu envolvimento com as coisas visíveis. 
  
Este é o significado ampliado do amor no ensino dos santos Padres da Igreja. 


São Nicetas Stethatos conecta o desejo espiritual e o amor pelas outras pessoas com a humildade, compunção e oração pura. 'Nada inspira tanto a alma com amor a Deus e amor pelos semelhantes como humildade, compunção e oração pura'. A humildade despedaça o espírito, isto é, faz com que o coração do homem seja abatido. A compunção purifica o nous e ilumina o olho do coração, e a oração pura liga todo o homem a Deus .São Nicetas diz: "Onde há amor por Deus, trabalho espiritual e participação na luz inacessível, lá também os poderes da alma estarão em paz, o nous será purificado, e a Santíssima Trindade habitará dentro de nós ". 
  
Todas essas coisas indicam que podemos falar de amor verdadeiro, quando temos uma pessoa real. E, como dissemos antes, esse homem é uma pessoa verdadeira que participa da energia purificadora, iluminadora e deificante de Deus. A pessoa está intimamente ligada ao renascimento do homem, à descoberta do coração. É justamente nesse ponto que podemos falar de amor. Caso contrário, existem os amores sensuais, que São Gregório Palamas apropriadamente chama a imagem vazia do amor real, o lapso do amor real, como diz São Dionísio, o Areopagita. 
  
b) Pessoa e liberdade 
  
Muitas pessoas conectam a pessoa com liberdade. Ninguém pode negar essa realidade. Além disso, no ensino dos santos Padres, a imagem está intimamente ligada à liberdade, independência. E isso é o que caracteriza o homem. 
  
Vários erros também estão sendo feitos neste momento. A liberdade é tomada em seu sentido moral e filosófico, como uma possibilidade de escolher entre o bem e o mal. No entanto, no ensino patrístico, a liberdade tem um significado diferente. A "vontade gnômica", isto é, a possibilidade de escolha, é uma indicação da imperfeição da natureza do homem. Portanto, o homem não pode ter liberdade absoluta. Só Deus tem liberdade no sentido absoluto da palavra, já que Deus é incriado. Nenhum ser que tem um começo e deve a sua existência a algum outro ser é capaz de ter liberdade absoluta, mas tem liberdade num sentido relativo. "A pessoa autêntica como absoluta liberdade ontológica, deve ser 'incriada', isto é, ilimitada por qualquer 'necessidade', incluindo sua própria existência. Se tal pessoa não existe na realidade, o conceito da pessoa é um devaneio presunçoso" (Jonh Zizioulas) 
  
Assim, desde que o homem foi criado, ele não tem liberdade absoluta. Mas dentro de seus limites ele pode, na medida do possível, adquirir liberdade absoluta, somente quando renasce em Cristo, quando se torna uma morada do Deus Trinitário e um templo do Espírito Santo, quando, por assim dizer, ele se torna uma pessoa. Então, "pela graça, torna-se incriado, torna-se sem pai, sem mãe e sem genealogia "(São Nicodemos da Montanha Santa). 

Assim, no ensino patrístico e na linguagem da Sagrada Escritura, a liberdade não significa simplesmente e apenas a possibilidade de escolha e preferência, mas a possibilidade da pessoa determinar sua existência. E desde que pelo nosso nascimento biológico não há possibilidade de vivermos isto, então é pelo nascimento espiritual, que acontece na Igreja, que nós adquirimos a verdadeira liberdade. Além disso, é por nossa própria vontade que buscamos esse novo nascimento, que é claramente superior ao biológico. 
  
Porque esse renascimento é uma revelação e experiência da pessoa, também podemos experimentar a liberdade real. No entanto, nem a pessoa nem a liberdade podem ser compreendidas à parte do caminho ascético. Liberdade do nous da lógica e das paixões, mas também do mundo circundante, dá ao homem a possibilidade de buscar a beleza da liberdade pessoal. 
  
c) Pessoa e problemas sociais 
  
Há quem pense que tudo o que está escrito sobre a pessoa é filosófico-teológico e não relacionado à vida moderna. Eles acham que muita tinta está sendo despejada e muito tempo e energia desperdiçados em um assunto teórico num momento em que tantos problemas sociais estão esperando para serem resolvidos. De fato, eles estão fazendo perguntas angustiadas. Eles dizem: Que sentido há em toda essa conversa sobre a pessoa, quando em nossas sociedades existe tal desigualdade, sofrimento tão profundo, quando estamos vivendo o pesadelo da guerra, do desastre nuclear e da destruição ecológica? Quando há tanto estupro em todos os níveis da nossa sociedade, como se justifica estar ocupado com tal assunto? 
  
É óbvio que aqueles que mantêm algo desse tipo são defensores do caráter social do cristianismo ou são movidos por outros motivos, de qualquer maneira. O fato é que eles dão prioridade à resolução de problemas sociais. Em todo caso, é um fato que eles estão oferecendo a solução para os problemas sociais. Eu gostaria de registrar alguns pensamentos em resposta a essas objeções. 
  
O ensinamento sobre a pessoa é um fato existencial. Quando os Padres se ocuparam com tópicos teológicos, eles não o fizeram por interesse filosófico, mas porque tinham certeza de que a distorção do dogma sobre Deus, seriamente perturba a questão da salvação do homem. Além disso, os dogmas são remédios que curam o homem e o guiam para a saúde. O mesmo acontece com o homem. Nossa ocupação com a questão do que é o homem, qual é sua ontologia, quais são suas relações interpessoais, qual é a profundidade do propósito do homem, são tópicos que formam a parte essencial do cristianismo, mas que também interessam diretamente ao homem. Além disso, os chamados problemas existenciais ocupam o primeiro lugar na vida contemporânea. 
  
Análises da pessoa são essenciais, porque dentro dessa estrutura podemos resolver os problemas sociais também. Uma sociedade não pode existir sem o homem. O homem está tornando nossa sociedade, e todas as instituições sociais, doentes. Uma pessoa que está doente cria vários distúrbios e é um fator divisor. A máscara é o que destrói a unidade da sociedade. Se um homem não é uma pessoa real, ele não pode viver em amor e liberdade. As sociedades tornam-se automaticamente dominadas pela tirania e pelo ódio. 
  
Não quero me expressar dizendo que esperamos que o homem melhore primeiro e depois a sociedade. Mas as lutas devem continuar em paralelo, com prioridade dada à cura do homem. Aqueles que dão prioridade aos problemas sociais desconhecem a realidade e também são possuídos por uma noção ocidental de como esses problemas são resolvidos. Eles estão possuídos pela ilusão de que a melhoria dos costumes sociais trará a melhoria do homem. Mas a realidade é trágica. Para que a paz e a justiça prevaleçam sem que o homem seja curado, sem que ele se torne verdadeiro homem, revelaria toda a tragédia da existência. E então ninguém seria capaz de curá-lo. 
  
Os Padres deram grande ênfase ao homem. Ele é a coroa da criação, o microcosmo no macrocosmo, o epítome da criação. É através do homem que todos os outros problemas são resolvidos. Certamente, é possível que não possam ser resolvidos de maneira geral e objetiva, mas o homem, por meio de seu renascimento, não é limitado por eles, transcende-os e, de fato, os resolve dentro dos limites de sua vida pessoal. Os problemas não o tocam, eles não bloqueiam sua liberdade. O homem renascido, como pessoa, existe e vive em profunda paz, além dos distúrbios sociais existentes. Ele ama, apesar da trágica vida humana. Ele sai da prisão dos sentidos e transcende até a própria morte. 

Os santos Padres dão grande importância e peso à pureza interior do homem, à luta para alcançar a paz e a liberdade interior. Este estado interior de paz e liberdade vem através de hesicasmo e é o que pode ser chamado de quietude piedosa. Do grande número de passagens patrísticas, selecionarei o ensinamento do Abba Isaac, o Sírio. 
  
O santo escreve que a hesychia despreocupada e cristã "é uma estação mais elevada do que a da esmola... Esmola é como a criação de filhos, mas a quietude é o ápice da perfeição". Aquele que tem o cuidado de muitos "é escravo de muitos". Aquele que abandonou tudo e se importa apenas com o estado de sua alma "é amigo de Deus". Há muitos que se preocupam com o primeiro trabalho, mas aqueles que fazem o segundo, hesychia, são raros. 
  
Em outro lugar, Abba Isaac, o sírio, é surpreendente. Ele compara aqueles que realizam milagres e sinais no mundo com aqueles que praticam a hesychia, que vivem na quietude, e ele acha o último superior ao primeiro. Concretamente, ele escreve: "Não compare aqueles que operam sinais, maravilhas e atos poderosos no mundo com aqueles que praticam quietude com conhecimento. Ame a ociosidade da quietude acima de suprir a fome do mundo e a conversão de uma multidão de pagãos ao serviço de Deus. É melhor para você libertar-se dos grilhões do pecado do que libertar os escravos de sua escravidão. É melhor você fazer as pazes com sua alma, fazendo com que a concordância reine sobre a trindade dentro de você (eu quero dizer o corpo, alma e espírito), do que pelo seu ensino para trazer a paz entre os homens em desacordo ". 
  
No que segue, Abba Isaac explica o motivo dessa preferência. Ele escreve que muitos realizaram atos poderosos, ressuscitaram os mortos e labutaram pela conversão dos que erram e fizeram grandes maravilhas; e pelas mãos deles levaram muitos ao conhecimento de Deus. E, no entanto, depois dessas coisas, esses mesmos homens que estimulavam os outros "caíram em vis e abomináveis paixões e se mataram, tornando-se uma pedra de tropeço para muitos quando seus atos se manifestavam". E isso porque, como ele diz, eles ainda estavam doentes de alma, em vez de cuidar da saúde de suas almas primeiro. E assim, doentes como estavam, "eles se comprometeram com o mar deste mundo para curar as almas dos outros". Portanto, chegaram ao ponto de perder "suas almas e se afastar de sua esperança em Deus". Isso significa que a ocupação com problemas sociais pressupõe que um homem foi curado, caso contrário, em vez de resolver problemas, ele cria ainda mais. Da mesma forma, parece que a solução dos problemas existenciais, que literalmente atormentam o homem, tem prioridade. 
  
No ensinamento de São Gregório Palamas, é claro que todos os problemas sociais e todas as irregularidades procedem da escuridão do nous. Ele diz caracteristicamente: "O nous que abandona a Deus torna-se bestial ou demoníaco, e depois de ter se rebelado contra as leis da natureza, cobiça o que pertence aos outros e sua ganância não encontra satisfação; ele se dissipa em desejos carnais e não conhece nenhuma medida. Ele quer ser honrado por todos, enquanto desonra a si mesmo com atos, e ele quer que todos o lisonjeiem e concordem com ele e cooperem com suas opiniões, e quando isto não tem sucesso (como poderia?) ele fica cheio de raiva desenfreada. Sua ira e raiva contra os da mesma raça é como cobra. E aquele que foi criado à imagem e semelhança de Deus se torna homicida e se assemelha ao assassino, o próprio Satanás. 
  
Aqui parece que o escurecimento do nous está conectado com a queda da comunhão com Deus e com o tornar-se como o diabo, e isso tem terríveis consequências para a vida do homem. Desde que ele é retirado das leis da vida natural, ele é entregue à ganância, desejos do que é seu vizinho, busca a satisfação dos desejos carnais. Sem ter qualquer medida para o prazer, ele deseja o louvor e honra dos outros, é vítima do paixões de lisonja e de levar-se com as injustiças e opiniões dos outros, com raiva e ódio e, no geral, é como as bestas e o diabo. Todas essas conseqüências sociais são frutos e resultados do escurecimento do nous. Isso significa que quando o homem tenta se curar interiormente, quando se esforça para concentrar sua mente em direção a Deus, ele também é libertado da tirania dos problemas sociais e também ajuda definitivamente na solução desses problemas. Portanto, é uma necessidade primária que o homem seja curado interiormente. 

6. Conclusão 
  
A teologia do homem como pessoa pode desempenhar um papel importante na sociedade contemporânea. Certamente, a pessoa por excelência é Deus, mas o homem também, criado à imagem e semelhança de Deus, pode se tornar uma pessoa. Isto é dito com pressupostos essenciais. De fato, o homem verdadeiro e a pessoa verdadeira é aquele que é deificado. 
  
Mas, para chegar a esse ponto, é necessário viver o ascetismo da pessoa. Os Padres da Igreja dão grande importância a esse assunto. A pessoa não pode ser entendida à parte do ascetismo cristão, visto que, de fato, o ascetismo cristão está intimamente ligado aos sacramentos da Igreja. Se não olharmos para a dimensão ascética da pessoa humana, deixaremos de ver o ensinamento patrístico sobre a pessoa, não importa quantas referências patrísticas possamos usar. As passagens patrísticas devem ser usadas e citadas dentro de toda a atmosfera que lhes pertence. Se não olharmos para o espírito das palavras patrísticas, não seremos capazes de compreendê-las. Apenas a letra permanecerá. 
  
O ensinamento sobre o homem como pessoa resolverá muitos problemas que estão surgindo a cada dia. Amor, liberdade, solução de problemas sociais, angústia e insegurança, religiões orientais, diálogo, fenômenos psicológicos não podem ser curados e confrontados à parte dos ensinamentos patrísticos sobre o homem e sobre a pessoa. Portanto, esta referência à pessoa é uma questão de vida, a condição primária da teologia Ortodoxa e do trabalho pastoral Ortodoxo. 




continua...