sábado

O Cedro do Líbano: São Jacó, o Mártir e o Renascimento de Hamatoura







por Pe John Valadez


Acima do rio Kadeesha fica uma pérola de luta ascética, do qual este mundo é indigno. Enterrado nas cavernas do Monte Hamatoura existe o Mosteiro da Dormição de Theotokos, com vista para uma terra que floresceu em fervor monástico. Até o final dos anos 90, este mosteiro estava em ruínas, desabitado e esquecido desde os tempos de perseguição e da incansável espada da devastação mameluca. Geronda Panteleimon, que viveu em obediência ao Ancião Isaac (Attalah) e ao recém-canonizado São Paisios, recebeu uma visita de um mártir esquecido que o orientou a reconstruir seu mosteiro no Líbano, a terra natal de Geronda Panteleimon. Este mártir é São Jacó de Hamatoura, cuja habitação no deserto é agora re-habitada e reacendida, tornando-se um oásis espiritual para monges e todas as pessoas que buscam a Verdade.

parte da nova geração de monges de Hamatoura. Ao centro, Arquimandrita Panteleimon

São Jacó lutou no ascetismo, derramando lágrimas no Monastério da Dormição de Theotokos no século XV, sob o domínio brutal dos Mamelucos. Jacó reconstruiu essa morada monástica e fez dela, mais uma vez uma, fonte de ascetismo em um deserto que se opunha ao Deus Triúno. Almas buscadoras e aqueles que estavam espiritualmente com sede começaram a se reunir no deserto para beber da doce água espiritual de Hamatoura e procurar o santo que a reviveu. Transformando as cavernas estéreis do Monte em um lugar onde peregrinos e moradores do deserto encontraram o Deus Encarnado, a luz de Hamatoura começou a chegar às sombras de uma terra mantida em cativeiro pelos invasores.

Mosteiro de Hamatoura

A fama do grande santo se espalhou e o conhecimento de sua oração transformadora e vida exemplar começou a ser conhecido entre as autoridades hostis. Eles procuraram o homem santo, perversamente tentando  fazer dele um exemplo convertendo-o ao Islã. Jacó continuou firme, recusando-se a aceitar o jugo obscuro de outro deus, e por isso sua fama se espalhou ainda mais. Enfurecidos, os mamelucos procuraram lidar com o infiel à espada. Quando o santo recuou para encontrar a quietude no eremitério de São George, localizado mais acima na face do penhasco do Monte, seus inimigos o agarraram com sede de assassinato. Jacó foi decapitado, como seu sangue derramado no chão de sua terra natal, regando-o para os monges que seguiriam seus passos nos últimos dias. Não saciados com a tortura e decapitação do santo, no entanto, os perseguidores então queimaram o precioso corpo de São Jacó, pensando que eles iriam apagá-lo para sempre da história e desencorajar todos aqueles que se reunissem para venerar suas relíquias. Contudo, Deus, não esquecendo de seus santos, e sendo sempre benevolente com seu povo, especialmente sabendo que precisamos da graça nestes últimos tempos, não permitiu que os planos iníquos dos assassinos prevalecessem.


São Jacó e os Mártires de Hamatoura

Ao longo do tempo, muitos contaram histórias de um santo milagroso aparecendo perto de Hamatoura, curando aqueles com enfermidades físicas e espirituais. Não esquecendo de seu povo e de sua habitação terrena, São Jacó continuou a consolar os sofredores e os doentes, incentivando Geronda Panteleimon a restabelecer o seu hospital espiritual em Hamatoura como o santo fez outrora. Um Gerontikon foi desenterrado no Mosteiro de Balaamand, mostrando claramente o nome do amado santo e as maravilhas que ele realizou para o povo. Pela primeira vez, hinos a São Jacó foram cantados em louvor a este poderoso cedro do Líbano, em 13 de outubro de 2002, em uma vigília noturna.



O santo continuou aparecendo, às vezes ouvindo cantar na igreja e outras vezes abençoando ou consolando as pessoas. Ele apareceu para uma mulher, revelando onde estavam suas relíquias preciosas, no entanto os monges desconsideraram suas instruções. Ao restaurar a igreja vandalizada do mosteiro, foi só depois de re-trabalhar o chão da igreja que eles descobriram um tesouro sagrado, pois cinco esqueletos estavam ali. Quatro deles, homens adultos, mostravam sinais de martírio com ossos rachados e crânios quebrados. Um, uma criança pequena, de três anos de idade, com sinais de martírio e cujos ossos emitem uma doce fragrância que enche o ar. Outro, com sinais de tortura e decapitação, queimado pelo fogo. Dois dos homens, sendo este último São Jacó, confirmam a história do santo escrito no Gerontikon: que morreu aos 50 anos sozinho com mais um companheiro. O esqueleto da criança, os mártires e o nome do companheiro de São Jacó são desconhecidos, mas são tratados com reverência pelos monges por seu martírio e pelo fato de terem sido enterrados sob o piso da igreja. Um serviço especial é escrito para eles, comemorado em 3 de julho.


                     
                       Monges trabalhando nas escavações



                               
Relíquias de São Jacó de Hamatoura(direita) e dos outros Mártires



Hoje, através do renascimento de seu mosteiro, São Jacó continua a atrair todos para refúgio entre sua nova irmandade devota, que dá sequencia a seu fervor ascético. A chama do farol do Líbano é reacendida e seu fogo tomou morada nos corações dos fiéis, acendendo o fervor espiritual entre os jovens e os idosos. Sendo aquele que incessantemente reza por nós no tumulto deste mundo moderno, atormentado por guerras e calamidades naturais, São Jacó nos instrui a uma vida espiritual fértil, travando uma guerra intransigente para carregar os doces frutos do outro mundo que ele revela está tão perto de nós.

São Jacó, Mártir de Hamatoura, rogue a Deus por nós!





fonte:deathtotheworld

sexta-feira

Homília sobre São Jacó de Hamatoura - Arquimandrita Pandeleimon(Farah)








Homília sobre São Jacó de Hamatoura

 

-Mosteiro da Dormição da Mãe de Deus – Hamatoura-



POR ARQUIMANDRITA PANDELEIMON(FARAH) – ABADE DO MOSTEIRO DA DORMIÇÃO DA MÃE DE DEUS - HAMATOURA


Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, agora e sempre e pelos séculos dos séculos, amém.

Quis parabenizá-los por esta nobre festa, pois vocês vieram de lugares diferentes para passar a noite, apesar do frio, em oração, para se aquecerem em suas preces e serem santificados através deste grande santo, o Hieromártir Jacó de Hamatoura.

O que impressiona nas leituras que ouvimos do Evangelho e da Epístola de hoje é a parte que diz respeito à educação. Ouvimos que alguém que quer ser um filho autêntico, não um filho ilegítimo, deve suportar as correções de seu pai e ser obediente a fim de praticar, através desta obediência, o cumprimento de seu dever e realizar a sua filiação. Aquele que é corrigido por seu pai é um filho autêntico, mas aquele que não se deixa corrigir é um filho ilegítimo - isto é, inautêntico - e não tem os mesmos traços de seu pai. Aqui falamos de crença e fé, não beleza ou aparência, ou outros traços hereditários. Isto porque alguém que é corrigido pelo Senhor tem e possui os traços do Senhor e, assim, ele é capaz de viver dentro da sociedade, mas separado da sociedade. "Vocês não são do mundo, mas eu os escolhi, tirando-os do mundo", você deve ser diferente do mundo em sua mentalidade e comportamento. Um cristão não pode se assemelhar às pessoas do mundo. As pessoas lhe oferecem luxúria, oferecem-lhe caprichos, oferecem egoísmo e você não pode ser assim. Você é corrigido pelo Senhor para que seja diferente desta sociedade e para que você se levante para uma sociedade Santa e Celestial.

Se compararmos este texto que estamos ouvindo, com nossa vida em em uma sociedade cristã contemporânea, nos sentiremos envergonhados. Isso ocorre porque os cristãos em geral não agem de acordo com o Evangelho, não aderem a ele, não praticam e não aprendem com ele. Eles estão longe disso e, por essa razão, testemunho e santidade são raros e o nível do pensamento humano está em declínio, porque está perdendo a iluminação sagrada. Está perdendo a serventia da Graça porque a recebe e a torna inútil, e não a coloca em ação. Mas aquele que pratica os mandamentos do Senhor recebe a Graça de Deus e, praticando novamente, desenvolvendo essa graça, cooperando com ela, tornando-a efetiva em sua vida a fim de alcançar a santidade que o Senhor deseja para ele.

São Jacó, apesar das circunstâncias sociais que cercaram sua vida naqueles tempos, praticou o amor do Senhor até os limites máximos. É por isso que ele aceitou o sofrimento e a dificuldade com alegria e prazer, e não aceitou ser salvo pela sociedade que lhe ofereceu a falsa fé. Ele não aceitou o que reinava em sua sociedade. Em vez disso, ele aceitou ser desafiador, não por egoísmo ou orgulho, mas porque conhecia a Verdade. Quando enunciamos o verbo 'conhecia', significa que ele tinha experiência com Deus, porque a verdadeira fé é para que conheçamos Ele, o verdadeiro Deus, e o Seu Filho, que Ele enviou, Jesus Cristo. 'Ele O conhece', não sabe sobre Ele intelectualmente. O intelecto humano não é capaz de compreender o pensamento divino. No entanto, é capaz de conhecê-Lo, isto é, obter a experiência da vida prática através da oração, dos Santos Mistérios e da leitura das Escrituras Sagradas.

É assim que o santo viveu, inabalável, suportando sofrimento e dificuldades até a morte, e sendo difamado como vemos hoje em nossos dias. O pensamento é o mesmo porque sua fonte é o Maligno.


Um cristão não devolve o mal pelo mal, mas ele permanece firme em sua luta e rejeita o pecado todos os dias em sua casa, em seu trabalho, em seus negócios e em suas interações com as pessoas. Então ele é capaz de se tornar um mártir. Deus não permitiu que as perseguições fossem contínuas porque somos fracos e porque não nos preparamos todos os dias para morrer em prol do amor de Cristo. Nós persistimos em nossos pecados, distantes de Seu amor. Então, Ele tem misericórdia por nós, pois se o Maligno empreendesse perseguição contra nós, nenhum de nós permaneceria firme. Mas, se confiarmos em Sua misericórdia, Aquele que nos ajuda nos torna capazes e nos estende Sua graça, para que possamos continuar em nossa luta e nos tornarmos santos. Na abundância de Seu amor - de fato, no excesso de Seu amor - Ele não aceita que pereçamos. Em vez disso, Ele quer que sejamos salvos e santificados. Ele espera por nós. Quando nos aproximamos d'Ele um pouco, Ele corre para nos encontrar e nos abraçar, e nos tornar firmes em nossa luta santa.

Seja firme e aprenda com a Bíblia Sagrada, sua moral e seus ensinamentos, para que em sua vida diária você seja verdadeiramente testemunha d'Ele, para que no final de sua vida você seja digno da Santa Coroa do martírio, para que você alcance o Reino dos Céus, alegre e com os santos que celebramos todos os dias, a quem cantamos hinos para que sejamos encorajados a imitá-los e sermos santificados como eles.

Que São Jacó de Hamatoura interceda por todos nós. Que ele facilite nosso caminho em todo bom trabalho que agrada a Deus. Sejamos corrigidos por Ele e andemos de um modo que Lhe agrade, desprezando toda concupiscência e todo desejo que o mundo nos oferece, para que possamos despir, como o Senhor disse, este mundo, sendo elevado ao Seu amor. Amém.



tradução: Hipodiacono Paísios

Uma Besta santificada? - Entendendo o ícone de São Cristóvão “cabeça de cão”












Por Jonathan Pageau

O ícone de São Cristóvão é uma das imagens mais surpreendentes encontradas na tradição ortodoxa. Mostrando um santo guerreiro com cabeça de cachorro, ele evoca histórias fantásticas de lobisomens ou de raças monstruosas da borda do mundo de Plínio. Por causa de todas as dificuldades que apresenta, o ícone foi proscrito no século XVIII por Moscou(Sinodo).

Na Igreja Católica Romana, a festa de São Cristóvão foi totalmente suprimida com a modernização do Vaticano II, embora ele continue a ser um dos santos mais populares do catolicismo. Acredito que compreender São Cristóvão e sua iconografia é de primordial importância nos dias de hoje, e esperamos que fique claro por que, ao viajarmos pela Bíblia, Tradição e iconografia para ver se podemos decifrar esse santo que é uma afronta às sensibilidades modernas.


Iconografia dos Monstros

O uso de homens com cabeça de cachorro na iconografia não se limita ao ícone de São Cristóvão. Eles também aparecem, mais comumente, em imagens do Pentecostes, com destaque em manuscritos armênios, mas também em imagens ocidentais.


                                       Manuscrito armênio de Pentecostes



Os homens com cabeça de cão são vistos como a raça mais distante presente no Pentecostes. Porque eles são os mais distantes, em algumas imagens armênias eles aparecem no centro da porta ou então eles aparecem sozinhos, representando uma imagem expressa do estrangeiro final. Existem algumas outras imagens, por exemplo, uma imagem bem conhecida, onde os homens com cabeça de cachorro são representados como os inimigos bárbaros que ameaçam a Cristo. Às vezes são vistos como uma das raças encontradas na missão dos apóstolos.



Homens com cabeça de cão escoltando Jesus




Finalmente, homens com cabeça de cachorro aparecem na história de São Mercúrio, um santo guerreiro que foi comido por dois homens com cabeça de cachorro, convertidos por São Mercúrio. A natureza selvagem desses homens com cabeça de cachorro poderia ser desencadeada por São Mercúrio nos inimigos do império romano, de uma forma análoga à maneira pela qual os romanos e os cristãos posteriores usavam bárbaros em suas próprias guerras. Os exemplos mais óbvios disso são como os bárbaros germânicos recém-convertidos impediram o avanço do Islã na Europa, ou como o recém-convertido príncipe escandinavo de Kiev forneceu ao imperador em Constantinopla uma guarda varangiana pessoal.




Ícone Copta de São Mercurio. Podemos observar na parte superior central os soldados com cabeças de cão.



Estes exemplos iconográficos mostram os homens com cabeça de cachorro como representando estrangeiros bárbaros por excelência, aqueles que vivem à beira do mundo, no limite da própria humanidade. Eles são criaturas canibais, selvagens e híbridas que mais tarde serão concebidas como descendentes de Caim, caídos em um estado monstruoso. O cananeu gigante das imagens católicas, que agora integra muitas vezes a iconografia Ortodoxa, embora menos visualmente chocante por ter perdido sua face monstruosa, significa a mesma realidade dos homens de Cabeça de Cão. Os gigantes da Bíblia e da tradição cristã são muitas vezes também interpretados como descendentes de Caim e monstruosos bárbaros canibais, que por seus excessivos corpos representam o extremo da própria corporalidade.

A relação do estrangeiro e do marginal com excessiva corporalidade, animalidade e paixões desordenadas como o canibalismo deve ser vista dentro de um entendimento tradicional geral do limite(do mundo). Em uma visão tradicional do mundo, há uma analogia entre a periferia pessoal e social, ambas retratadas em termos patrísticos como as vestes de pele, as vestimentas dadas a Adão e Eva que incorporam a existência corporal. O que aparece no limite do homem é análogo ao que aparece no limite do mundo, tanto em termos espaciais quanto temporais, de modo que os bárbaros, homens com cabeça de cachorro ou outros monstros nos limites espaciais da civilização e do fim temporal da civilização, são afins à morte e animalidade, que é o limite espacial corporal de um indivíduo e o final temporal final da vida terrena. Os monstros, como parte das vestimentas da pele, ficam à beira do mundo, e embora sejam perigosos, como Cerberus na porta do Hades, eles também atuam como uma espécie de amortecedor entre o Homem e a escuridão exterior. Assim como nossos corpos e seus ciclos são a fonte de nossas paixões, eles também são nossa “concha mortal” que nos protege da morte. Será, portanto, por uma visão mais profunda das vestimentas da pele através dos diferentes níveis ontológicos da criação decaída que podemos entender São Cristóvão.


São Cristóvão na Bíblia.


A relação do Cão com a periferia aparece em vários lugares da Bíblia. Cães são, naturalmente, animais impuros. Eles são vistos lambendo as feridas na pele de Jó. Eles são excluídos da Nova Jerusalém. Eles comem o corpo da rainha estrangeira Jezabel depois que ela é jogada fora da muralha da cidade. O próprio gigante Golias cria a analogia do cão/ São Cristóvão/ gigante / estrangeiro/ quando ele pergunta a David: ““Por acaso sou um cão, para que você venha contra mim com pedaços de pau??” O cão é usado por Cristo como um substituto para um estrangeiro quando ele diz o samaritano que não se deve dar aos cães o que é destinado aos filhos. A resposta da mulher também diz isso enquanto ela fala de migalhas caindo da borda da mesa, marcando claramente o cão como o estrangeiro que está no limite. Apenas esses exemplos podem ser suficientes para explicar São Cristóvão simbolicamente, mas ainda há mais.

A chave para compreender mais profundamente São Cristóvão na Bíblia é a história de ele ter atravessado o rio. Nas Escrituras, há várias histórias significativas de cruzamentos das águas, e através delas aparecem os elementos essenciais da história de São Cristóvão, no que se refere à periferia e às vestes da pele. À medida que procuramos, devemos nos lembrar do movimento das vestes de peles sendo tanto a morte quanto a cura para a morte, tanto a causa quanto a solução para o mundo da queda. Isso significa que os símbolos estarão todos em histórias diferentes, mas às vezes eles podem deslizar de um lado para o outro. O primeiro exemplo vem na história do dilúvio, onde Noé constrói uma arca, um refúgio cheio de animais para escapar do mundo dos gigantes decaídos. Então, na travessia do Mar Vermelho, os israelitas se misturam a uma multidão de nações estrangeiras para escapar dos egípcios estrangeiros [11]. Este último pode não parecer tão claro, mas torna-se assim na próxima “travessia”. Quando a mistura de israelitas e estrangeiros vindos do Egito finalmente atravessam o Jordão para entrar na terra da Canaã, onde os gigantes vivem, restam apenas duas pessoas dos adultos do grupo original. De todos aqueles que fugiram do Egito, os únicos adultos do grupo original que cruzam o Jordão como a Arca da Aliança, separando as águas, são os dois espiões Josué e Calebe. Josué, que significa "salvador" - é claro o nome de Jesus - se tornaria o líder de Israel ao entrar em Canaã. Quanto ao outro sujeito, um dos significados do nome Caleb é “cachorro”. Este significado é enfatizado no texto porque Calebe é um estrangeiro, um kenizita(quenezeu), que se diz ter recebido a periferia, o “em torno” da terra tomada por Israel. E aqui temos duas pessoas entrando na terra prometida, cruzando o Jordão, Jesus e o Cão, Cristo e o Estrangeiro, a “cabeça” e o “corpo”. O termo Kenizita, é um desses termos que irritará os estudiosos modernos quando eu mencionar que também tem o som “KN” de Caim, Canaã e Canino - apenas uma coincidência que vale a pena mencionar.

Os próximos exemplos de travessia das águas que trarão toda a nossa discussão sobre si mesmos são as travessias do Jordão por Elias e Eliseu. Isso acontece no mesmo lugar que seus ancestrais, perto de Jericó, a primeira cidade tomada por Josué. Elias usa sua vestimenta, que era uma “vestimenta peluda”, uma vestimenta de pele, para separar as águas e depois deixar este mundo corporalmente (assim como Enoque fez antes do dilúvio e Moisés fez antes da entrada em Canaã), e então Eliseu, tendo recebido as vestes de Elias com uma porção dupla de seu poder, usou as vestes de pele para retornar ao lado de Jericó. É claro que esta história está simbolicamente ligada ao dilúvio e à Arca, bem como ao cruzamento de Josué e Calebe com a Arca da Aliança, e assim, quando colocamos todos juntos, temos: gigantes, roupas de pele, arcas, cães, estrangeiros e “o salvador” que empunham todas essas coisas para atravessar as águas caóticas. O que temos diante de nós é uma imagem do batismo, mas de uma forma mais profunda a imagem de São Cristóvão com Cristo nas suas costas cruzando o rio é também uma imagem da própria Igreja.



Elias sobe quando Eliseu agarra suas vestes de pele. Ícone de Novgorod.


A relação entre o cruzamento das águas e o batismo é revelada em várias histórias do Novo Testamento, mas em relação a São Cristóvão e a relação da Igreja com o estrangeiro, devemos olhar para a história do eunuco etíope. De todas as conversões na igreja primitiva, São Lucas escolheu essa história por um motivo. O significado completo só pode ser entendido se soubermos o que um etíope e um eunuco significam no mundo antigo. Os eunucos desempenharam um papel muito semelhante ao que temos descrito o aqui. Assim como os cães, eles foram excluídos do templo. Castrando-se eles se tornaram estranhas criaturas híbridas, nem masculinas nem femininas. Eles eram exilados, estéreis e sem descendência. Isto é evidentemente reforçado pelo fato de os eunucos serem frequentemente escravos. Mas como não tinham lugar na sociedade, nem posteridade para favorecer, muitas vezes se tornavam os “guardas” da realeza ou dos imperadores. Mesmo até Justiniano, não era raro encontrar um “tampão” de eunucos ao redor do imperador protegendo sua pessoa e seus assuntos. Os estrangeiros também poderiam desempenhar esse papel, como os varingianos que mencionei anteriormente. É claro que este é o papel do nosso Eunuco Etíope, pois ele é considerado o responsável pelo tesouro da rainha da Etiópia. A Etiópia, no mundo antigo, era o lar das raças longínquas, inclusive das raças monstruosas, e era a terra original da Esfinge. O detalhe que o etíope era da corte de Candace, rainha dos etíopes, pretende evocar para nós a rainha de Sabá que veio para apresentar seus enigmas a Salomão. E assim nosso Eunuco Etíope representa tudo o que as vestes de pele representam. E apenas no caso de algumas dúvidas persistirem, um detalhe interessante na história pode convencer. Diz-se que depois de Filipe batizar o etíope, “o espírito do Senhor arrebatou a Filipe, para que o eunuco não o visse mais”. Esta é, naturalmente, a mesma frase que na história de Elias e Eliseu, depois que Elias subiu. Eliseu "não o viu mais”. O uso da mesma frase está aí para nos lembrar da conexão, de como a história do eunuco e seu batismo está relacionada a todas as histórias de "travessia da água" que eu mencionei, muitas das quais têm alguém ascendendo como parte delas, todos os quais têm como um “veículo” para o cruzamento algum aspecto da periferia, alguma imagem das vestes da pele. Isso ascendendo e deixando para trás um “corpo” também está relacionado com a Ascensão de Cristo deixando para trás a Igreja.


Filipe e o Eunuco Etíope do Menologion de São Basílio


Existem muitas outras histórias, tiradas até de outras culturas, onde essa estrutura aparece. Do encontro de Odisseu com o Ciclope, o gigante “Pequeno João”, lutando contra Robin Hood em um rio até os três bodes rudes, exemplos abundantes mostram quão profunda e noética é a história na experiência humana. O mais recente exemplo claro dessa estrutura é o livro de muito sucesso “Life of Pi”. Como é habitual na narração de histórias contemporânea que quer levar as coisas adiante, aqui o movimento das roupas de pele é levado ao seu extremo. Para assegurar sua "travessia", o personagem principal deve confiar no canibalismo imaginado como um Tigre no fundo de seu barco. O canibalismo é, evidentemente, um dos atributos mais comuns das monstruosas raças estrangeiras e é uma imagem muito forte da morte.

Esperemos que a nossa viagem tenha provado como, em vez de ser simplesmente uma série de acidentes e exageros, a história básica e a iconografia de São Cristóvão são perfeitamente coerentes com a narrativa e tradição bíblica. Seja o guerreiro com cabeça de cachorro ou o gigante da travessia do rio, ambas as tensões da iconografia apontam para o profundo significado da carne sendo portadora de Cristo, sendo “christophoros”, do estrangeiro sendo o veículo para o avanço da Igreja até os confins do mundo. A história de São Cristóvão é, de fato, uma imagem da própria Igreja, da relação de Cristo com seu Corpo, nosso próprio coração para com nossos sentidos, nossos próprios logos para seu refúgio.

Apesar de tudo isso, no final, a grande objeção ainda é persistente: Sim, essas histórias são boas e interessantes, mas em nossa era científica mais experimentada, ninguém acredita mais em homens com cabeça de cachorro e em raças de gigantes. São Cristóvão continua sendo um traço embaraçoso de crença equivocada no passado e, por essa razão, deve ser desviado.

Fonte: orthodoxartsjournal.org



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Uma besta com um halo: o que sabemos do santo mais discutível?








O ícone de São Cristóvão (que foi posteriormente proibido pelo Sínodo de 1722 por ser "contrário à natureza, à história e à verdade em si") deixará você com medo, atônito ou mesmo indignado: São Cristóvão é representado com a cabeça de um cão. A combinação de traços animais e humanos é uma característica de um demônio ou de uma criatura mítica na arte medieval.
De acordo com uma versão de sua biografia, São Cristóvão veio de uma tribo de cinocéfalos, isto é, pessoas com cabeça de cachorro que eram frequentemente mencionadas por autores antigos e medievais. Isso é contestado porque a aparência dessa imagem pode ser atribuída a uma interpretação incorreta do nome do santo. De acordo com uma hipótese, é um nome distorcido da região geográfica de onde Cristovão era - Cynoscephalae (uma região montanhosa na Tessália, Grécia). Além disso, a palavra cananeu (uma pessoa de Canaã) soa semelhante à palavra latina canis , 'cachorro'. Outra versão atribui isso ao tratamento literal da descrição da aparência do santo, “um homem semelhante a um animal”. Uma biografia de São Cristóvão, espalhada por Chipre e mais tarde na Rússia, diz que o santo tinha sido muito bonito, mas depois pediu ao Senhor para fazê-lo feio, porque ele queria evitar a tentação.

Existem várias versões da biografia de São Cristóvão nas tradições orientais e ocidentais.

De acordo com a tradição oriental (ver Lives of Saints in Russian , p. 290; Menaia, May , Pt. 1, p. 363), havia um homem chamado Reprebus, que capturado em combate contra as tribos no leste do Egito durante o reinado de Décio. Ele era enormemente alto e tinha cabeça de cachorro como todos os membros de sua tribo. Reprebus declarou abertamente sua fé cristã e repreendeu aqueles que perseguiram os cristãos antes de seu batismo. O imperador Décio enviou duzentos soldados para capturá-lo. Reprebus não resistiu. Havia milagres a caminho: um cajado da mão do santo florescia e ele multiplicava pães com sua oração, como o Salvador fizera. Os soldados que escoltaram Reprebus ficaram tão impressionados com os milagres que se converteram ao cristianismo e foram batizados por Babylas, um bispo de Antioquia, junto com Reprebus. Cristovão foi o nome que Reprebus recebeu no batismo. Quando Cristovão foi levado perante o imperador, o último chamou duas prostitutas e ordenou-lhes para seduzir o santo para fazê-lo renunciar a Cristo. No entanto, quando as mulheres retornaram ao imperador, declararam que também se tornaram cristãs. Eles foram brutalmente assassinados e morreram como mártires. Décio sentenciou Cristovão à pena capital. Depois de tortura cruel, o mártir foi decapitado.

As lendas ocidentais são bem diferentes das que estamos acostumados. Segundo alguns pesquisadores, elas poderiam ter aparecido no século vI . Geralmente, a tradição católica é baseada na Lenda de Ouro de Jacobus de Varagine. Conta a história de um gigante chamado Reprebus que colocou em sua cabeça que deveria ir e servir "o maior rei que havia". Ele foi até o rei que tinha a reputação de ser o maior, mas um dia ele viu o rei fazer o Sinal da Cruz à menção do diabo. Ele passou a servir o diabo, mas depois descobriu que o diabo temia a Cristo.

Ele conheceu um eremita que o instruiu na fé cristã. Cristovão perguntou-lhe como ele poderia servir a Cristo. O eremita sugeriu que, por causa de seu tamanho e força, Cristovão poderia servir a Cristo ajudando as pessoas a atravessar um rio perigoso, onde estavam falhando na tentativa.

Depois de Cristovão ter realizado esse serviço por algum tempo, uma criancinha pediu-lhe para levá-lo através do rio. Durante a travessia, o rio subia e a criança parecia tão pesada quanto o chumbo, tanto que Cristovão mal podia carregá-lo. A criança respondeu: “Você tinha em seus ombros não apenas o mundo inteiro, mas também Aquele que o fez. Eu sou Cristo, seu rei, a quem você está servindo por esta obra. ”Então Jesus batizou Reprebus no rio, e ele recebeu seu novo nome Cristovão, que significa aquele que carrega Cristo. Então o Menino Jesus disse a Cristovão para enfiar um galho de árvore no chão, e ele se tornaria uma árvore frutífera. Este milagre converteu muitas pessoas à fé. O governador local ficou indignado e jogou Cristovão na prisão, onde ele foi atormentado até a morte. Esta história teve uma grande influência na iconografia ocidental. O santo é invariavelmente representado com o Menino Jesus nos ombros. Ao contrário de um equívoco generalizado, São Cristóvão não foi proscrito pela Igreja Católica. Ele continua sendo um dos santos mais venerados.

A veneração de São Cristóvão é menos difundida em países como a Rússia. Todos os ícones de São Cristovão que podem ser comprados nas lojas da igreja retratam o santo com uma cabeça humana regular e o Menino Jesus em seus ombros. As imagens com cabeça de cachorro de Cristovão podem ser encontradas apenas em comunidades de ritos antigos e apenas naqueles raros ícones e afrescos, que não foram pintados novamente.


Fonte: https://blog.obitel-minsk.com



Novo Calendário x Velho Calendário - São Paísios do Monte Athos






Sobre a questão do calendário, o ancião disse: "Teria sido bom se esta diferença de calendário não existisse, mas não é uma questão de fé". Sobre as objeções de que o Novo Calendário fora feito por um papa, ele respondia: “O novo calendário foi feito por um papa e o antigo por um idólatra”, falando, é claro, de Júlio César. Para entender a posição do Ancião mais claramente sobre o assunto, o seguinte incidente é mencionado:


Um cristão Ortodoxo de origem grega vivia com sua família nos EUA há muitos anos. Ele tinha um problema sério, no entanto. Ele mesmo era um “zelote”(velho calendarista), enquanto sua esposa e filhos seguiam o Novo Calendário. “Não podíamos celebrar uma refeição juntos como uma família”, costumava dizer. "Eles celebravam o Natal quando para mim era festa de São Spyridon. Quando eu celebrava o Natal, eles tinham São João. E esse foi o menor dos nossos problemas. O pior era saber, como eles estavam nos ensinando, que os novo-calendaristas são hereges e serão condenados."

"Não é pouca coisa ouvir que sua esposa e seus filhos traíram sua fé, que estão do lado do papa; seus mistérios não têm Graça etc. Nós conversávamos por horas, mas sem chegar a uma conclusão. Para dizer a verdade, havia algo que eu também não gostava nos velho calendaristas, especialmente quando alguns dos nossos bispos vinham falar conosco. Eles não estavam falando com amor e dor em seu coração pelos "enganados" novos calendaristas. Mas era como se estivessem cheios de ódio e ficassem felizes quando proclamavam que os novos calendaristas iriam para o inferno. Eles eram muito fanáticos. E quando a fala terminava, eu sentiria dentro de mim uma agitação interna. Eu estava perdendo minha paz. Mas eu nem pensaria em deixar nossa tradição. Fiquei muito angustiado com toda a questão. Certamente algo me aconteceria com a preocupação constante. 

Em uma de minhas viagens à Grécia, mencionei meu problema ao meu primo João. Ele me contou sobre um certo ancião Paisios. Decidimos ir para a Montanha Santa, para que eu me encontrasse com ele. Chegamos em “Panagouda” (onde o Ancião estava morando). O Ancião nos ofereceu algo e com um rosto sorridente me fez sentar ao lado dele. Eu me senti perdido com o comportamento dele. Eu senti que ele estava agindo como se me conhecesse desde sempre, ele também sabia tudo sobre mim". 

- "Como vão as coisas com os carros na América?" - foram suas primeiras palavras. 
Fiquei surpreso. Eu tinha esquecido de mencionar que trabalhava com estacionamentos e é claro que eu estava lidando com carros o dia todo. 
- "Estou indo bem", era a única coisa que eu podia balbuciar, olhando para o Ancião com surpresa nos meus olhos. 
- "Quantas igrejas você tem lá onde mora? "
- "Quatro", eu respondi e uma nova onda de surpresa tomou conta de mim. 
- "Com o antigo ou com o novo (calendário)?" , veio o terceiro "raio" que, no entanto, em vez de aumentar minha surpresa, de alguma forma me fez sentir mais à vontade com o carisma do Ancião. 
- "Dois com o velho e dois com o novo", respondi. 
-"Qual você segue? "
- "Eu sigo o velho, e minha esposa o novo", eu respondi. 
- "Veja. Você deve ir aonde sua esposa vai", ele me disse com firmeza, e estava se preparando para me dar explicações. 

Mas para mim o assunto já estava encerrado. Eu não precisava de mais explicações ou argumentos. Algo inacreditável aconteceu dentro de mim; algo divino. O que estava me torturando tinha ido embora. Todos os argumentos e todas as ameaças e anátemas contra os novos calendaristas que eu ouvia há anos haviam desaparecido. Eu senti a graça de Deus que através de Seu Santo estava agindo sobre mim e me enchendo de uma paz que eu desejava há muito tempo. Minha situação interna foi evidentemente vista através dos meus olhos. O que eu me lembro é que minha situação pode ter feito o Ancião parar por uma artimanha. Mas então ele continuou a me dar algumas explicações. Talvez para que eu pudesse contar aos outros, e também para que eu pudesse usá-las para mim em um momento de tentação, quando essa situação divina passasse. 

- "Nós também, claro, temos o antigo (calendário) no Athos. Mas esta é uma situação diferente. Estamos unidos com a Igreja, com todos os Patriarcados, ambos aqueles que seguem o Novo e do Velho Calendário. Nós reconhecemos seus mistérios como válidos e eles reconhecem os nossos. Seus sacerdotes fazem serviço com nossos sacerdotes. Considerando que essas pobres pessoas(velho calendaristas) foram cortadas. A maioria deles tem piedade, precisão (em seguir os cânones) e um espírito de luta e verdadeiro zelo de Deus. Mas isso só acontece inexplicavelmente e não porque eles têm conhecimento do que fazem. Alguns, devido à simplicidade, outros devido à falta de conhecimento, e outros devido ao egoísmo, porém, se perderam. Eles consideraram os 13 dias como uma questão dogmática e que todos nós estamos iludidos e, sendo assim, abandonamos a Igreja. Eles não têm comunhão com os Patriarcados e as Igrejas que seguem tanto o calendário novo como o antigo, porque os velho calendaristas, supostamente, se contaminaram através de sua comunhão com os novos calendaristas. E esta não é a única questão. Mesmo aqueles poucos que permaneceram (como velho calendaristas na Grécia), tornaram-se[apóstatas]… até eu não sei quantas são as peças! E eles continuam sendo cortados em pedaços menores o tempo todo e eles continuam anatematizando uns aos outros, se excomungando e expondo uns aos outros. Você não sabe o quanto eu me afligi e fiquei triste com esta situação. Eu rezei muito. É importante que mostremos amor por eles e sintamos por eles, e não os condenemos; e mais importante, rezemos por eles para que Deus os ilumine e, se de vez em quando um deles pedir ajuda para nós, de uma maneira bem-humorada, poderíamos dizer uma palavra ou duas", concluiu o Ancião. 

Mais de cinco anos se passaram desde o repouso do Ancião. O Sr. X. retornou a “Panagouda” para agradecer ao Ancião, porque após o tempo em que o conheceu, ele encontrou sua felicidade espiritual, mas também familiar, e com lágrimas nos olhos descreveu os eventos acima. Com seu amor, oração e discernimento, o Ancião sabia quando falar, como agir e como ajudar a Mãe Igreja em silêncio, evitando os extremismos e curando as feridas que atormentam o corpo da Igreja e escandalizam os fiéis.



Extraído do livro “Vida do Ancião Paisios, do Monte Athos”, Hieromonge Isaak (páginas 691-696)