sábado

O Propósito e o Significado do Matrimônio Ortodoxo





 Por Metropolita Athanasios de Limmasol


O propósito humano não é o casamento, nem o monasticismo, nem qualquer outra coisa. Assim como o propósito do casamento não é a procriação. O propósito humano é o relacionamento eterno com Deus.  Essa é a primeira coisa a ser procurada. Se alguém consegue encontrá-lo, então estará realizado! 


O mesmo acontece no casamento: Se você cumprir o propósito do casamento e, por uma razão ou outra, não puder ter filhos, isso não significa que você tenha que arruinar seu casamento ou que tenha um casamento fracassado, ou algo assim. Claro, eu sei, eu entendo, pode ser um trauma, uma lacuna, mas isso não significa que se não tivermos filhos, nosso casamento não funcionará bem.


O propósito do casamento é diferente! O propósito de nossa vida é outro! E nós somos pacientes, esperamos, tentamos, não nos preocupamos, nós descobrimos o verdadeiro valor de nossa vida, sua verdadeira substância. Meus filhos, nem um nem outro são importantes, são coisas efêmeras. Elas pertencem a esta vida. Claro... Cada coisa tem, digamos, suas belezas.


Quem disse que não existe uma parte bonita em cada modo de vida? 

Não se preocupe! Lembro-me de que uma vez, eu lhe disse, um rapaz foi até São Paisios, desesperado, e disse: "Padre, tenho 37 anos e ainda não me casei!" Ele estava deprimido, disse: "Tenho 37 anos e ainda não me casei!" O Ancião brincou, dizendo: "Meu filho, eu tenho 70 anos e ainda não me casei! Seja paciente, você ainda tem tempo!" O que o Pai deveria dizer a ele? Será que ele não deveria consolá-lo de alguma forma?


Então, meus filhos, quero dizer que por trás dessas brincadeiras há um significado, essas coisas são boas, são bonitas, cada coisa no seu devido lugar, mas se vocês não aprenderem a descobrir o propósito da sua vida, o significado da sua existência, e acharem que o significado da sua vida é o casamento, ou um homem específico, ou uma garota, ou filhos, ou, talvez, estudos, ou o que quer que seja, isso significa que vocês reduzem o significado da sua vida e fazem um ídolo de algo que não é absoluto, mas relativo!


Portanto, se isso for arruinado em algum momento, seja o casamento ou os estudos, ou nossa saúde, pode acontecer algo conosco, ficarmos doentes e não podermos mais seguir em frente, ou um fracasso, ou qualquer outra coisa que possa acontecer em nossa vida!


Se não entendermos qual é o nosso propósito e absolutizarmos essas coisas relativas, então, meus filhos, há o perigo de, em algum momento, desabarmos! Como aquele que se apoia em palafitas! Em algum momento elas se quebrarão e ele ou ela cairá!


Você não pode transformar sua vida, seu casamento, seus filhos, seu marido, seu emprego, seu dinheiro, seu conhecimento em um ídolo!

Essas coisas não! Temos que estar acima delas, para que possamos ter paz em nossa vida!



O Mistério do Matrimonio - São Nikolau Velimirovic


Meus irmãos, o matrimônio é um grande e milagroso mistério, um dos maiores mistérios do plano de Deus. Um casamento puro e honrado é repleto de sublimidade. Um casamento puro e honrado, no temor de Deus, é um receptáculo da Graça do Espírito Santo. Quem despreza o casamento despreza o Espírito de Deus. Quem contamina o casamento com impureza, blasfema contra o Espírito de Deus. Quem se abstém do casamento por causa do Reino de Deus deve, de maneira diferente, preparar-se como um vaso do Espírito Santo e, no reino espiritual, tornar-se frutífero para não ser cortado como a figueira estéril.


Ó Deus, Espírito Santo Todo-Poderoso, ajude aqueles que estão casados, para que, em pureza, temor e amor mútuo, sejam como a Igreja de Deus, na qual o Senhor habita com alegria e governa todas as coisas para o bem.


O duplo mistério do matrimônio


"Este é um grande mistério, mas eu falo a respeito de Cristo e da Igreja" (Efésios 5:32).


Grande é o mistério quando um homem deixa seu pai e sua mãe e se apega à sua esposa. O próprio Apóstolo, que foi elevado ao terceiro céu e que viu muitos mistérios do céu, chama a união física de homens e mulheres em casamento na Terra de "grande mistério". Esse é o mistério do amor e da vida, e somente o mistério do vínculo de Cristo com Sua Igreja é maior. Cristo é chamado de o Noivo e a Igreja, a Noiva. Cristo ama tanto Sua Igreja que, por causa dela, Ele deixou Seu Pai celestial - permanecendo com Ele, é claro, em unidade de substância e divindade - e desceu à Terra, uniu-se à Sua Igreja e sofreu por ela para que, por meio de Seu Sangue, a purificasse de todo pecado e mancha e a tornasse digna de ser chamada de Sua Noiva. Com Seu amor, Ele aquece a Igreja, com Seu sangue, Ele a alimenta e, com Seu Espírito Santo, Ele faz com que a Igreja viva, a santifica e a adorna. 


Assim como o marido é para a esposa, Cristo é para a Igreja. O homem é o cabeça da mulher e Cristo é o cabeça da Igreja. O marido ama a esposa como se fosse seu próprio corpo. A mulher escuta o marido e a Igreja escuta o Cristo. O marido ama a esposa como ama seu próprio corpo e Cristo ama a Igreja como Seu próprio corpo. O marido ama a esposa como ama a si mesmo e a esposa reverencia o marido, e Cristo ama a Igreja como ama a si mesmo e a Igreja reverencia Cristo. Como ninguém odeia sua própria carne, mas a aquece e nutre, assim também Cristo aquece e alimenta a Igreja como Seu próprio Corpo. E cada alma humana individual é a noiva de Cristo, o Noivo, e a assembleia de todos os fiéis é a noiva de Cristo, o Noivo. O tipo de relacionamento de um homem fiel com Cristo também é o relacionamento de toda a Igreja com Cristo. Cristo é a Cabeça desse grande Corpo que é chamado de Igreja, e que é em parte visível e em parte invisível.


Meus irmãos, esse é um grande mistério! Ele nos é revelado de acordo com a medida de nosso amor por Cristo e de nosso temor do julgamento de Cristo.


Ó Senhor, Gentil Salvador, purifica-nos, salva-nos e adorna nossas almas para que sejamos dignos da unidade imortal e indescritível com o Senhor no tempo e na eternidade. A Ti a glória e a gratidão sempre. Amém.


Conselho do Ancião Ambrose aos que desejam casar-se:


O Ancião Ambrose Lazaris (+ 2006) foi questionado por uma filha espiritual:


"[Ancião], tenho uma pergunta sobre minha vida. Por que não me casei?"


"Minha filha, para se casar, você precisa acreditar em três coisas:


1. Você precisa acreditar na pessoa com quem vai se casar,


2. Você precisa acreditar no casamento com essa pessoa,  


3. Você precisa acreditar em Deus.


E você precisa acreditar em todos os três, porque se não acreditar na pessoa e no casamento, você não se casará ou não se casará com essa pessoa.


Mas, se não acreditar em Deus, quando o casamento for abalado ou quando a outra pessoa for abalada por qualquer motivo, você não terá alguém para segurá-lo e alguém para garantir esse casamento.


terça-feira

Homilia do Domingo das Mulheres Portadoras de Mirra: Permaneceremos em Silêncio? - Arquimandrita Gregórios (Estephan)

 




Arquimandrita Gregorios(Estephan) – Hegúmeno do Mosteiro da Dormição da Mãe de Deus - Bkefitine



Domingo das Mulheres Portadoras de Mirra, 19 de maio de 2024

Cristo ressuscitou dos mortos, pisoteando morte pela morte e concedendo a vida aos que estavam nos túmulos.


Hoje, no segundo domingo após a Páscoa, comemoramos as Mulheres Portadoras de Mirra, que, como nos dizem as Escrituras Sagradas, dedicaram-se a servir ao Senhor Jesus Cristo. Elas O seguiram, O serviram e serviram a Seus discípulos.


Depois que Deus criou Adão e lhe concedeu autoridade, Ele criou Eva para ser a auxiliadora de Adão. Assim, Deus designou um serviço para o homem e outro para a mulher, de modo que eles se complementassem. A Igreja seguiu essa ordem que Deus determinou para Sua criação. Entretanto, em nossos dias, testemunhamos uma inversão dessa ordem e uma distorção do sistema que Deus estabeleceu desde o início da criação.


Hoje, vemos uma promoção dentro de círculos da Igreja em favor do sacerdócio feminino, tanto por parte de clérigos quanto de leigos. Recentemente, ouvimos falar da ordenação de uma diaconisa na Igreja Ortodoxa do Zimbábue, que está sob o Patriarcado de Alexandria. Essa diaconisa participa do serviço litúrgico, lendo súplicas e administrando o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo aos fiéis. Deve-se observar que as diaconisas na Igreja primitiva eram semelhantes às mulheres portadoras de mirra, e seu serviço se limitava a auxiliar os bispos no Batismo de mulheres e ungi-las com o Santo Crisma, para que o bispo não tocasse o corpo da mulher. Naquela época, muitos dos que se convertiam ao cristianismo eram adultos. Entretanto, à medida que o cristianismo se espalhou mais amplamente no império, a necessidade desse serviço diminuiu, pois o batismo infantil se tornou mais comum do que o de adultos. Desde então (já nos primeiros séculos), a ordenação de diaconisas cessou na Igreja.


Atualmente, há uma promoção de práticas estranhas dentro da Igreja que nunca fizeram parte de sua história ou tradição. Essas ordenações são inovações que beiram a heresia. Ouvimos vozes exigindo igualdade entre homens e mulheres, como se a Igreja tivesse prejudicado as mulheres ao atribuir-lhes um papel específico. Vemos uma inversão de papeis, uma inversão de funções. Deus, como eu disse no início, designou a cada um o seu papel, mas agora todos procuram assumir o papel do outro. Também vemos uma promoção significativa da homossexualidade, do transgenerismo e da ordenação de mulheres, por parte de clérigos e leigos ortodoxos. Os bispos e sacerdotes são nomeados por Deus como ministros de Sua palavra e administradores da Tradição da Igreja.


Qualquer bispo, sacerdote ou leigo que traia essa confiança e distorça a Fé e a Santa Tradição da Igreja é um servo de Satanás, não de Cristo. Não há meio-termo no cristianismo. Cristo disse: "Ou você está Comigo ou com o demônio". Qualquer um que distorça a fé e a Tradição, e profane os Santos Mistérios, como fez o bispo Ortodoxo da Arquidiocese americana, sob o Patriarcado Ecumênico, ao batizar uma criança adotada por um "casal" do mesmo sexo, é um servo de Satanás e um profanador dos Mistérios da Igreja.


Isso é o que está acontecendo em nossos dias, e espera-se que mais aconteça. Lemos na Bíblia sobre um tempo de apostasia. Essa apostasia é um afastamento da Verdadeira Fé em Jesus Cristo, o Verdadeiro Deus, e a promoção de um Cristo distorcido. Os bispos e sacerdotes que promovem um Cristo distorcido são servos dos governantes desta era, servos de uma nova ordem mundial que busca mudar toda a ordem da criação, e servos do espírito de uma era que deseja modernizar a Igreja, a Igreja celestial de Cristo, e transformá-la em uma instituição mundana, que em nada se diferenciaria de outras instituições, organizações e partidos do mundo.


A Igreja deve permanecer fiel a tudo o que recebeu de Cristo, assim como as Mulheres Portadoras de Mirra, que não se desviaram da obediência de Cristo e não inovaram em nada, mas serviram ao Senhor e a Seus apóstolos com todas as suas forças. Os apóstolos de Cristo pregaram e ministraram os Sacramentos, tornando-se o alicerce para a expansão da Igreja de Cristo.


Cada um de nós deve enfrentar esse espírito mundano e satânico que busca destruir toda a Tradição da Igreja e os fundamentos da fé. Atualmente, estamos testemunhando um perigoso afastamento da fé. Ainda mais perigoso é o silêncio. Qualquer bispo ortodoxo que permaneça em silêncio sobre o que está acontecendo é cúmplice dessa ação. A missão primordial de um bispo é preservar a fé e, se ele permanecer em silêncio, estará, voluntariamente ou não, sendo cúmplice dessa traição. Aqueles que são designados como guardiões da fé tornam-se profanadores da fé e dos Mistérios da Igreja, celebrando tudo o que contradiz a Santa Tradição da Igreja, tornando-se assim mercenários do espírito deste século.


Todos aqueles que contribuem para isso não conhecem a Tradição nem vivem de acordo com ela. Eles querem uma Igreja que aceite todas as heresias e transformações desta época. Assim, eles se tornam filhos de um espírito satânico e servos de Satanás, que busca enfraquecer a Igreja de Cristo para impor seu governo e sua lei neste mundo.


A Igreja é fortalecida por sua fé e pela preservação da Santa Tradição. É assim que ela permanece fiel a Cristo e enfrentará os governantes desta era. Mas se for permitidos que as heresias entrem e destruam a fé, as portas do inferno a dominarão. Isso é o que Satanás e seus agentes desejam dos bispos, sacerdotes e leigos que sucumbiram ao espírito deste século.


Não se deixe influenciar por todas essas coisas resultantes da lógica humana, que exige de nós um amor falso. O verdadeiro amor está em Cristo e é o fruto da Verdadeira Fé nEle. Quem não acredita em Jesus Cristo só pode amar a si mesmo. Quem ama a Cristo será fiel a Ele, aos Seus mandamentos e à Tradição da Igreja. É assim que amamos a Cristo e amamos uns aos outros, submetendo nossa vontade à vontade de Cristo e nos tornando servos fiéis.

   
milenar Mosteiro da Dormição da Mãe de Deus - Bkfitine - Líbano


quinta-feira

Sobre o Monasticismo e o Casamento ( Metropolita Hierotheos de Nafpaktos)





por Metropolita Hierotheos de Nafpaktos



Dividimos as pessoas entre "monges e casados", e a vida entre "monástica e conjugal", e o resultado é que elogiamos a vida monástica, que consideramos melhor e mais adequada para guardar os mandamentos de Deus, enquanto menosprezamos a vida conjugal como não adequada para a prática da vontade de Deus.


De fato, sabemos muito bem que a Igreja enaltece os dois modos de vida, tanto a vida monástica quanto a vida conjugal. Mas isso não significa que uma seja louvada às custas da outra. E, nesse ponto, devemos dizer que se aplica a interpretação da Parábola dos Talentos, que mencionamos anteriormente.


Pode-se afirmar que na Igreja as pessoas não são divididas simplesmente em não casados e casados, mas em pessoas que vivem em Cristo e pessoas que não vivem em Cristo. Assim, por um lado, temos pessoas que têm o Espírito Santo e, por outro, pessoas que não têm o Espírito Santo. Além disso, na Igreja primitiva, como parece nas Epístolas do Apóstolo Paulo, todos os cristãos, não casados e casados, viviam como monges, porque até mesmo o casamento tem seu ascetismo. Portanto, se algum monge critica o casamento em Cristo, ele mostra que tem um problema com a sua vida monástica, e se uma pessoa casada critica e olha com desconfiança para a vida monástica, isso significa que ela tem um problema com a maneira como está vivendo sua vida (de casado). Um bom monge nunca critica o que Deus elogia (como o casamento) e uma boa pessoa casada nunca critica nada que Deus elogia, como a vida monástica. É característico que a melhor homilia sobre a virgindade tenha sido composta por São Gregório de Nissa, que era casado; e um homem não casado, Santo Anfilóquio de Icônio, escreveu coisas excelentes sobre a vida conjugal. Além disso, não nos esqueçamos de que São Paphnoutios defendeu o casamento para o clero no Primeiro Concílio Ecumênico.


Em sua homilia, Santo Anfilóquio de Ícônio mostra que o cristão é um homem cathólico, em outras palavras, completo. Ele elogia a virgindade e o casamento. Ao falar sobre a virgindade, ele diz sobre o casamento: "O matrimônio digno se eleva acima de toda dádiva terrena, como uma árvore que dá frutos. . como uma raiz de virgindade, como um cultivador dos ramos racionais e vivos". Em seguida, ele diz: "Retire a dignidade do matrimonio e você não encontrará a flor da virgindade". Além disso, a comparação é entre duas coisas dignas, porque Santo Anfilóquio diz: "Dizendo essas coisas, não estamos introduzindo uma luta entre a virgindade e o casamento; admiramos ambos como mutuamente devedores". Para concluir, ele diz caracteristicamente: "Pois sem o conhecimento devoto das coisas divinas, nem a virgindade é modesta nem o matrimônio é digno".


E o Santo Crisóstomo ensina muitas coisas sobre esse assunto. Ele diz: "Pois nossos casados têm tudo em comum com os monges, exceto o casamento". Todas as pessoas devem se adaptar aos mandamentos de Cristo. Portanto, o Santo Padre diz caracteristicamente: "Se formos moderados, nem o casamento, nem a alimentação, nem qualquer outra coisa nos impedirá de sermos agradáveis a Deus". Se o casamento e a criação dos filhos fossem nos impedir de seguir o caminho da virtude, o criador de todas as coisas não teria trazido o casamento para a nossa vida"


O que Basílio, o Grande, diz também é característico: "Todos nós, monges e casados, somos obrigados a obedecer ao Evangelho".


Portanto, não podemos justificar nossa indolência pelo modo de vida particular que escolhemos, nem podemos criticar e descartar outro modo de vida que não seja como o nosso. Sem dúvida, existem graus e etapas espirituais.

 

sábado

Os Magos do Oriente e a Estrela

 



Pe Paísios (Diaz)

“E, tendo nascido Jesus em Belém de Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalém, Dizendo: Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos a adorá-lo”... “E, tendo eles ouvido o rei, partiram; e eis que a estrela, que tinham visto no oriente, ia adiante deles, até que, chegando, se deteve sobre o lugar onde estava o menino.

E, vendo eles a estrela, regozijaram-se muito com grande alegria.

E, entrando na casa, acharam o menino com Maria sua mãe e, prostrando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, ofertaram-lhe dádivas: ouro, incenso e mirra.

E, sendo por divina revelação avisados num sonho para que não voltassem para junto de Herodes, partiram para a sua terra por outro caminho.” (Mateus 2:1-2, 9-12)


Os Magos do Oriente (μάγοι ἀπὸ ἀνατολῶν) citados neste trecho do Evangelho do Santo Apóstolo Mateus, provavelmente eram sacerdotes pagãos oriundos da Pérsia. Também podemos encontrar este termo atrelado à casta sacerdotal dos Medos, já que os gregos antigos costumavam classificar os Persas e os Medos como sendo um mesmo povo. O que de fato sabemos é que eram homens que lidavam com a interpretação de sonhos, vidência e astrologia.


Não temos a intenção de tratar dos magos em toda a sua amplitude, menos ainda nas divergências que saltam de diversas tradições cristãs, de Leste a Oeste: quais seriam seus nomes, número e práticas para além do que nos é apresentado pelo Evangelista. A prática da astrologia por parte destes homens é clara para nós e nela iremos nos atentar.


Estes magos eram homens cultos, vindos de uma região que viu o nascer e o sepultar de diversas civilizações, e versados nas mais diversas tradições e ciências. Sabemos que eles, como astrólogos, acreditavam (entre outras coisas) que os astros mantinham algum tipo de influência na criação como um todo, inclusive - e principalmente - no homem, coroa da Criação. Mesmo assim, apesar de cultos e convictos de suas crenças, seria inútil apresentar condenação aos magos quanto a este erro relacionado à 'coroa da criação', afinal, a Verdade em sua plenitude não havia sido revelada ao entendimento humano e isso só aconteceu após a Encarnação. Foi através de Cristo que o homem conheceu seu verdadeiro propósito. O homem, em corpo, alma e espírito, ainda não havia sido escancarado em todos os seus labirintos. São Nicolau Cabasillas diz que antes da Encarnação, o homem sequer poderia encontrar a plenitude da justiça, quanto mais a Verdade [1]. Deus, que revelou a Si mesmo através da Pessoa de Cristo, também revelou ao homem o verdadeiro motivo de sua existência: tornar-se deus através da Graça [2]. Os magos não poderiam saber disso, apenas conceber minimamente, em pequenos espasmos causados pela 'semente do Verbo' que neles existia. Porém, no todo, estavam cegos como qualquer outro homem de seu tempo. Assim, dimensionando e compreendendo o homem de modo incorreto, os magos incorriam neste erro.


Porém, se os magos em seu desconhecimento "estavam livres" para cometer este erro, o mesmo não acontece conosco. Não gozamos do privilégio deste álibi. Somos nova criação, herdeiros de Cristo e de Sua Verdadeira Fé. Revestidos de Cristo pelo Batismo, somos chamados a não “servir a dois senhores”. E é exatamente disso que a astrologia se trata: servir a dois senhores.


A Estrela: 


Como dito anteriormente, os magos ainda não compreendiam a Verdade, eles não estavam sob a rocha da Verdadeira fé, o que os fazia percorrer a criação atrás de sinais que pudessem apontar para Aquele que esperavam ansiosamente. E o Senhor os atendeu, mas não se utilizando dos astros que já existiam, aqueles sobre os quais os magos buscavam suas respostas. A estrela que os guiou não era uma estrela comum, acessível aos homens através de seus ciclos. São João Damasceno nos explica este fenômeno: "Muitas vezes também acontece que surgem cometas. Estes são sinais da morte de reis, e eles não são nenhuma das estrelas que foram feitas no início, mas são formados ao mesmo tempo por ordem divina e novamente dissolvidos. E, portanto, nem mesmo aquela estrela que os magos viram no nascimento do Amigo e Salvador do homem, nosso Senhor, que se fez carne por nós, é do número daquelas que foram criadas no princípio." [3] Alguns Padres ainda afirmam que a estrela era nada mais do que algum poder angélico: "Quando você ouvir ‘estrela’, não pense que era uma estrela como a que vemos, mas um poder divino e angélico que apareceu na forma de uma estrela."  [4] "...esta estrela não era do tipo comum, ou melhor, não era uma estrela, como parece pelo menos para mim, mas algum poder invisível transformado nesta aparência, é, em primeiro lugar, evidente a partir de seu próprio curso" [5]


Não foram os “ciclos astrológicos” que guiaram os Magos, mas Deus, que o fez através deste sinal formado e dissolvido instantaneamente, sendo totalmente desconhecido por eles. "Os Magos, vendo o estranho curso de uma estrela desconhecida e recém-brilhante, que excedia o brilho de toda a luz celestial, aprenderam assim que Cristo Rei nasceu na terra, em Belém, para a nossa salvação." [6]. Usando assim de algo que lhes era familiar para trazê-los à Verdade.  "Como os Magos eram astrólogos, o Senhor os trouxe de maneira comum [a eles], como Pedro, sendo um pescador, saiu da multidão dos peixes." [7].


Apesar de ter se utilizado deste aspecto da fé dos magos, Deus não tinha a intenção de legitimá-la. Pelo contrário. Ele poderia muito bem ter se utilizado de alguma estrela já existente, conhecida dos magos, mas não o fez. Sua intenção não era confirmar suas crenças, e sim aniquilá-las. A estrela no nascimento de Cristo, anunciando a presença de Deus Encarnado, era tão brilhante, “tão diferente de tudo o mais [nos céus], que a magia [dos magos] foi destruída, todo vínculo de maldade desapareceu, a ignorância foi dissipada e o antigo reino abolido."[8] Naquele exato momento, durante aquele evento, Deus aboliu completamente a fé e as práticas dos magos, apontando para uma nova e Verdadeira Fé, que havia sido anunciada já no ventre da Virgem e agora despontava na história naquela humilde manjedoura. Segundo o entendimento da Igreja, os próprios Magos aceitaram que suas práticas estavam completamente sepultadas pela encarnação do Deus-homem, obrigando-os a mudar de rota e abandonar a sua antiga prática da astrologia [9]. Fazendo um contraponto com as atitudes posteriores dos judeus, São João Crisóstomo nos diz sobre os Magos: "Considerando que os Magos reconheceram que a vinda de Cristo encerraria seu conhecimento profano e suas artes mágicas, os judeus não aceitaram que o Legislador acabasse com seus sacrifícios e se recusaram a aceitar os mistérios da dispensação divina. Os Magos confessaram um estranho; os judeus rejeitaram um dos seus" [10] Criticando a insensatez de quem defende a prática da astrologia com base nos magos, o mesmo Santo sentencia o fim desta prática: “O que eles alegam, então? Eis que, dizem eles, mesmo quando Cristo nasceu, uma estrela apareceu, o que é um sinal de que se pode confiar na astrologia. Como, então, se Ele nasceu de acordo com essa lei, Ele acabou com a astrologia, eliminou o destino, tapou a boca dos demônios, expulsou o erro e derrubou toda essa feitiçaria?” [11]


O testemunho dos Padres é inequívoco: nos magos temos a abolição e o sepultamento da astrologia, não sua justificativa. Onde muitos buscam um pretexto para sua prática, a Verdade determina o seu fim. Nos resta escolher: ajoelhar-se diante do Deus Encarnado, como fizeram os magos, ou seguir o amargo sussurro do demônio.


Indo adiante, apesar de esclarecido totalmente esse ponto, muitos ainda podem argumentar: "mas são obtidas respostas quando consultamos as estrelas e muitas delas são benéficas para minha vida". São questionamentos próprios da mentalidade moderna, que apesar de falsamente pragmática e muitas vezes dissimulada, acaba sendo incontornável em nosso século. Porém, cabe a nós afirmar que nem todo resultado obtido, sejam quais forem os meios utilizados, pode ser considerado inerentemente "bom" pelo simples fato de existir. E sendo supostamente "bom", não pode ser automaticamente considerado como tendo parte com a Verdade. A procedência é algo realmente importante e deve ser levada sempre em consideração. Em Atos 16 podemos ler  sobre o encontro do Santo Apóstolo Paulo com uma jovem que predizia o futuro através de um espírito imundo. Ao ver Paulo e outros Apóstolos caminhando, ela começou a segui-los por dias, anunciando: “Estes homens são servos do Deus Altíssimo e lhes anunciam o caminho da salvação"(Atos 16:17). Estas palavras, colocadas em sua boca pelo espírito imundo, eram totalmente verdadeiras. Porém, vemos como o Apóstolo Paulo lidou com isso: “Paulo ficou indignado, voltou-se e disse ao espírito: "Em nome de Jesus Cristo eu lhe ordeno que saia dela! " No mesmo instante o espírito a deixou. (Atos 16:18). É assim, pois o demônio não trabalha pela Verdade, ainda que, na busca pela nossa perdição, ele possa circunstancialmente dizer palavras verdadeiras. Isso nos mostra a necessidade urgente de compreendermos corretamente o que é a “Verdade” do ponto de vista Ortodoxo, para que não caiamos no erro dos que a vinculam com qualquer ideia criada pela mente humana, retorcendo-a em uma simples engrenagem de autojustificativa e orgulho.



  

[1] Nicholas Cabasilas, “The Life in Christ”, 55-56

[2]Theosis: The True Purpose of Human Life, 21

[3] An Exposition of the Orthodox Faith (Book II) - Chapter 7. Concerning light, fire, the luminaries, sun, moon and stars.

[4]Theophyiact (785-840), PG. 123:61.

[5] St John Crysostom, ""Homily 6 On the Gospel of Matthew"

[6] Matins Canon of the Nativiy of Crist, Ode Nine, Mode One

[7] St Theophyiact (785-840), PG. 123:61.

[8] St Ignatius, 'Letter to the Ephesians'.19

[9]  Tertullian, On Idolatry, 9.

[10]John Chrysostom, Sermon for the Epiphany, Holy Apostles Covent, “The Lives of the Holy Apostles”, 202  

[11] St John Chrysostom, ""Homily 6 On the Gospel of Matthew"



trechos do artigo  “Notas sobre a Ortodoxia e a astrologia” - (em processo de edição)


terça-feira

Uma Profecia sobre a Futura Iniquidade

 




De uma carta do Ancião de Optina [e Novo Mártir] Santo Anatólio, o Jovem (+1922)

"...A partir daí, as heresias se espalharão por toda parte e enganarão muitas pessoas. O inimigo da raça humana agirá com astúcia a fim de atrair para a heresia, se possível, até mesmo os eleitos (Cristãos Ortodoxos).


Ele não começará rejeitando grosseiramente os dogmas da Santíssima Trindade, a divindade de Jesus Cristo e a virtude da Mãe de Deus, mas começará, imperceptivelmente, a distorcer os ensinamentos e os estatutos da Igreja e seu próprio espírito, transmitidos a nós pelos Santos Padres por meio do Espírito Santo.


Poucos perceberão essas artimanhas do inimigo, apenas os mais experientes na vida espiritual. Os hereges tomarão o poder sobre a Igreja e colocarão seus servos em toda parte; os piedosos serão vistos com desprezo. Ele (o Senhor) disse: "Pelos seus frutos os conhecereis", portanto, pelos seus frutos, bem como pelas ações dos hereges, esforce-se para distingui-los dos verdadeiros pastores.


Esses são ladrões espirituais, que saqueiam o rebanho espiritual, e entrarão no aprisco (a Igreja), subindo por outro caminho, usando a força e pisoteando os estatutos divinos. O Senhor os chama de ladrões (cf. São João 10:1). De fato, sua primeira tarefa será a perseguição dos verdadeiros sacerdotes, sua prisão e exílio, pois sem isso será impossível para eles saquear as ovelhas.


Portanto, meu filho, quando você vir a violação da tradição patrística e da ordem divina na Igreja, a ordem estabelecida por Deus, saiba que os hereges já apareceram, embora por enquanto eles possam esconder sua impiedade, distorcendo a Fé Divina imperceptivelmente, a fim de ter mais sucesso em seduzir e atrair os inexperientes para a sua rede.


A perseguição será dirigida não apenas contra os sacerdotes, mas contra todos os servos de Deus, pois todos os que forem dominados pela heresia não suportarão a piedade. Reconheça esses lobos em pele de cordeiro por seu caráter orgulhoso e amor ao poder. Eles serão caluniadores, traidores, semeando inimizade e malícia por toda parte; por isso o Senhor disse que pelos seus frutos os conhecereis. Os verdadeiros servos de Deus são humildes, amam o próximo e são obedientes à Igreja.


Os monges serão muito oprimidos pelos hereges e a vida monástica será desprezada. Os mosteiros se tornarão escassos, o número de monásticos diminuirá e os que permanecerem sofrerão violência. Esses odiadores da vida monástica, entretanto, tendo apenas a aparência de piedade, se esforçarão para atrair os monges para o seu lado, prometendo-lhes proteção e bens mundanos e ameaçando de expulsão aqueles que se opuserem a eles.


Essas ameaças causarão grande desespero entre os covardes, mas você, meu filho, regozije-se por ter vivido até aquele momento, pois então os fiéis que não demonstraram nenhuma outra virtude receberão coroas apenas por permanecerem firmes na fé, de acordo com a palavra do Senhor (cf. São Mateus 10:32).


Tema o Senhor, meu filho. Tema perder a coroa preparada (para você), tema ser lançado por Cristo nas trevas exteriores e no tormento eterno. Permaneça corajosamente na fé e, se necessário, suporte a perseguição e outras tristezas, pois o Senhor estará com você... e os Santos Mártires e Confessores olharão para você e sua luta com alegria.


Mas ai dos monges que, naqueles dias, estarão presos a bens e riquezas e que, por amor à segurança, estarão prontos a se submeter aos hereges. Eles adormecerão sua consciência, dizendo: "Estamos preservando e salvando o mosteiro e o Senhor nos perdoará". Os infelizes e cegos não consideram de modo algum que, por meio da heresia, os demônios entrarão no mosteiro e, então, ele não será mais um mosteiro santo, mas apenas muralhas das quais a Graça se afastará.


Deus, no entanto, é mais poderoso do que o inimigo e nunca abandonará Seus servos. Os verdadeiros cristãos permanecerão até o fim desta era, mas escolherão viver em lugares isolados e desertos. Não tema as tristezas, mas sim a heresia perniciosa, pois ela nos tira a Graça e nos separa de Cristo. É por isso que o Senhor nos ordenou que considerássemos o herege como um pagão e um publicano.


Portanto, meu filho, fortaleça-se na graça de Jesus Cristo. Apresse-se para confessar a fé, para suportar o sofrimento como um bom soldado de Jesus Cristo (cf. II Timóteo 2:13), que disse: Seja fiel até a morte, e eu lhe darei uma coroa de vida (Apocalipse 2:10).


Porque a Ele se deve toda honra, glória e domínio, juntamente com Teu pai Eterno e o Espírito Santo. Pelos séculos dos séculos. Amém.


Por Que os Cristãos Não se Arrependem nos Dias de Hoje? - Arquimandrita Gregórios (Estephan)




Arquimandrita Gregorios(Estephan) – Hegúmeno do Mosteiro da Dormição da Mãe de Deus - Bkefitine


Por que as nações se desintegram e novas nações surgem? Por que muitas nações cristãs desapareceram, sendo substituídas por nações pagãs? Nos últimos tempos, quando o mundo inteiro conspirar contra o Senhor e Seu Cristo, o cristianismo lutará pela sobrevivência. Isso exigirá a adesão à Verdadeira Fé em Jesus Cristo.


Por que Deus está abandonando Seu povo? Talvez porque Ele seja um Deus vingativo? Certamente que não! Pelo contrário, Ele é o Deus perfeito que deseja filhos perfeitos, que anseiam por alcançar a perfeição; filhos que guardam fielmente Seus mandamentos e se apegam à fé que foi colocada em suas mãos. Nosso Deus quer apenas uma coisa de Seu povo: fidelidade. Ou seja, Ele deseja que eles O obedeçam com fé e não mintam para Ele; que não finjam devoção enquanto vivem em pecado; que não falem sobre abnegação enquanto vivem egoisticamente com desejo de poder e vanglória; que não se orgulhem da Ortodoxia enquanto a traem em seus diálogos.


O Senhor pede que Seu povo seja fiel a Ele, e somente uma coisa preserva essa fidelidade na alma humana: o arrependimento. O arrependimento é o retorno incessante a Deus. Seus sinais são um espírito contrito e humilde, que abandonou todas as coisas terrenas e busca a misericórdia de Deus com toda a sua mente. Quando o povo se afasta de Deus, Ele o disciplina, não como um ato de vingança, mas para torná-lo consciente de seu pecado, para que possa se arrepender. Desde os tempos do Antigo Testamento, Deus tem dito ao Seu povo: Convertei-vos, agora, cada um do seu mau caminho, e fazei boas as vossas ações, e não sigais a outros deuses para servi-los (Jer. 35:15).


O cristão vai atrás de outros deuses de duas maneiras: quando aceita a heresia como verdade e quando segue o espírito do mundo e se rende à sua maneira de pensar.


Deus sempre desejou que tivéssemos uma fé pura nEle - a fé saudável que Ele revelou ao Seu povo e que leva à salvação. Entretanto, alguns distorceram essa fé e brincaram com ela. O surgimento de heresias e inovações dogmáticas está fortemente relacionado às paixões humanas corruptas, especialmente o orgulho. Desse orgulho maldito e da desobediência surgiram todas essas chamadas "igrejas". As paixões cheias de maldade e arrogância, como o orgulho - que se alimenta do amor-próprio - e as paixões de desejo de poder e vanglória, que são infladas pelo amor às coisas terrenas e obscurecem totalmente a alma, fazendo com que ela interprete os dogmas da fé pelas lentes de sua própria vontade e pensamentos. Essa escuridão espiritual afasta a alma do espírito de contrição e arrependimento. É exatamente por esse motivo que Deus despreza a heresia e a condena, chamando-a de blasfêmia imperdoável contra o Espírito Santo. Ela é uma reminiscência do orgulho primordial que desfigurou o caminho da salvação; ela também impede que a alma se arrependa e seja salva.


O espírito do mundo enfraqueceu a vontade do homem e dispersou sua mente, tornando-o incapaz de se lembrar de Deus no coração. Esse espírito substituiu os valores e as virtudes que eram usados para educar as crianças (como o autocontrole) por vícios (como a entrega a paixões imundas e a obediência aos desejos do corpo e às tendências animalescas). Esses vícios se tornaram deuses para o homem, substituindo o único Deus verdadeiro. Quando o homem adota o espírito da era moderna e permite que ele domine seu pensamento, sua vontade é despedaçada e sua mente fica paralisada: ele deixa de estar atento à Verdade e é incapaz de adquirir o espírito de arrependimento.


Em toda Escritura, Cristo insistiu em separar o espírito do mundo do Espírito de Deus. O espírito do mundo semeia o desdém pela Verdade eterna e suas coisas sagradas, enquanto incita subliminarmente o pecado e o ateísmo na mente do homem. Portanto, aqueles que se esforçam para modernizar a Igreja, seu phronema (mentalidade) e sua práxis (modo de vida), são os primeiros inimigos de Cristo, pois misturam a verdade com a ilusão, que Cristo se esforçou para separar.


A própria Igreja, que possui esse profundo senso da Verdade Divina transmitida ao longo de sua história, tem se rendido ao espírito do mundo ultimamente. Quantos, mesmo entre os fiéis, estão incentivando a adoção das reformas doutrinárias e morais produzidas pelo espírito do mundo! Pessoas como essas não reconhecem a existência de heresias, inovações ou mesmo demônios, nem acreditam em uma Igreja ou mesmo em um Deus.


Quem afirma que a Verdade é encontrada em todos os lugares, mesmo fora do cristianismo, está realmente cego, amortecido para a Verdade; ele se tornou um instrumento adúltero para o demônio da ilusão. Como esse homem pode se arrepender? Quando o senso da Verdade única morre em nós, o próprio Deus morre em nós.


O arrependimento requer muita humildade, para que o homem possa estar ciente de sua pecaminosidade e contemplar a Verdade Divina. É por isso que São João Clímaco diz que é impossível encontrar humildade nos hereges: Toda heresia, mínima ou flagrante, é fruto do orgulho e da arrogância demoníaca. O principal perigo do movimento ecumênico moderno é que ele reforça na alma humana o orgulho e as convicções, em vez de incentivá-la a se arrepender e buscar a verdade. O dom da verdade é concedido pelo Deus da Verdade aos penitentes que abandonam sua vontade própria e seus próprios pensamentos e buscam a Verdadeira Fé com oração incessante.


A Igreja não mente. Em vez disso, os mentirosos são aqueles que tentam misturar a verdade com a falsidade, justificando suas violações da fé. Os orgulhosos não se arrependem, não importa quão louváveis sejam suas ações terrenas ou quão grande seja sua benevolência, porque eles glorificam a si mesmos, e não a Deus. Quanto aos humildes, eles se arrependem porque se conhecem verdadeiramente e se entregam incondicionalmente a Cristo pela fé. O grande pecado do homem não está na transgressão de um único mandamento, mas em seu orgulho e insubordinação à Igreja e a seus ensinamentos verdadeiros.


Nem todas as pessoas orgulhosas são hereges, mas é possível que todos os hereges sejam orgulhosos. O Senhor não permite que os humildes se afundem na ilusão ou sofram a condenação eterna, mas fornece a eles os meios para conhecer a verdade e permanecer firmes nela. Todas as heresias ao longo da história e todos os ensinamentos opostos àqueles transmitidos à única Igreja não passam de uma aniquilação do Deus verdadeiro, substituindo-O por um falso. E que comunhão pode existir entre Cristo e esses falsos deuses demoníacos? Quando o nosso Cristo retornar à Terra, Ele encontrará uma infinidade de "igrejas", falsamente assim chamadas, que possuem uma fé desonesta, por isso Ele pergunta: Porventura [o Filho do homem] achará fé na terra? (Lc. 18:8) Isso se deve ao fato de que uma fé desfigurada e distorcida não é fé alguma. Uma fé fora da Igreja Una e Apostólica nunca pode levar a um conhecimento vivo do Deus Vivo e Verdadeiro.


Deus se afastou de Seu povo nestes últimos tempos; Ele está se afastando de Seu rebanho, que pastoreou, fortaleceu e multiplicou no passado, mesmo nas eras mais sombrias de perseguição e tirania dos obreiros do diabo. Nossa terra está se tornando desprovida de Cristo e de Seus verdadeiros ungidos; esta terra, cujo solo era santificado pela adoração incessante do Senhor e de Seu Cristo, tornou-se a terra da apostasia. Por quê? Porque as pessoas abandonaram a fé de seus antepassados e a simplicidade da vida de piedade. Eles pensaram que a sobrevivência nesta terra dependia de fazer alianças com os deuses de nações estrangeiras, em vez de se apegarem à Verdadeira Fé.


Esse povo pecou diante de Deus. Eles estão se fundindo gradualmente ao espírito do mundo e ao da globalização e não querem se arrepender. Onde estão os líderes da Igreja que estão se arrependendo de todas essas transgressões? Arrependendo-se por si mesmos e por seu povo? Onde estão aqueles que usam pano de saco e acrescentam jejuns sobre jejuns para serem um exemplo para seu povo em arrependimento, santidade e Ortodoxia? Os hereges - descendentes de Balaão - profetizam para nosso povo e o afogam ainda mais nas ilusões que estão por vir, enquanto os líderes permanecem em silêncio.


"E já ninguém há que invoque o teu nome, que se desperte, e te detenhas; porque escondes de nós o teu rosto, e nos fazes derreter, por causa das nossas iniquidades..." Não te ires demais, ó Senhor! Não te lembres constantemente das nossas maldades. Olha para nós! Somos o teu povo!
As tuas cidades sagradas transformaram-se em deserto. Até Sião virou um deserto, e Jerusalém, uma desolação! O nosso templo santo e glorioso, onde os nossos antepassados te louvavam, foi destruído pelo fogo, e tudo o que nos era precioso está em ruínas; e depois disso tudo, Senhor, ainda irás te conter? Ficarás calado e nos castigarás além da conta? (Is. 64:7, 9-12)

Tornai-vos para mim, e eu me tornarei para vós, diz o Senhor dos Exércitos (Malaquias 3:7, Zacarias 1:3). O arrependimento genuíno, que nos inspira a chorar por nossos pecados, é sempre um sinal de firmeza inabalável na Verdadeira Fé; somente o arrependimento é capaz de nos tornar uma descendência abençoada que Deus multiplicará.

quarta-feira

O Farisaísmo e a Adoração a Deus - Arquimandrita Gregórios (Estephan)

 



Arquimandrita Gregorios(Estephan) – Hegúmeno do Mosteiro da Dormição da Mãe de Deus - Bkefitine


Nestes quatro domingos que antecedem o Grande Jejum, que são preparatórios para a Grande Quaresma, a Igreja nos apresenta os princípios fundamentais sobre os quais devemos edificar o nosso jejum de quarenta dias.

No primeiro domingo, chamado domingo do Fariseu e do Publicano, a parábola bíblica nos revela o espírito com o qual devemos jejuar e orar durante a Quaresma. O significado essencial desta passagem bíblica gira em torno de dois temas essenciais: orgulho e presunção, por um lado, e humildade e arrependimento, por outro. Os dois primeiros nada mais são do que uma adoração podre e falsa a Cristo, enquanto os dois últimos são os fundamentos da salvação em Cristo. Nossa salvação depende de como adoramos a Deus. Nossa adoração a Deus pode nos justificar, mas também pode nos condenar. Na Igreja, adoramos o Deus Verdadeiro, mas nossa adoração pode se tornar egocêntrica.

Na Igreja, o farisaísmo tornou-se um símbolo de orgulho e altivez. Alguns o utilizam de um ponto de vista moralista para indicar uma epidemia na sociedade; outros o utilizam para descrever qualquer pessoa que não concorda com suas posições e pensamentos.

Cristo rejeitou o orgulho farisaico e o julgou, não apenas porque o orgulho destrói toda virtude no crente, mas porque destrói todo senso de verdade que existe nele. O início do orgulho aparece no julgamento aos outros, na autojustificação e na presunção. O pecado da autojustificação é a antítese do arrependimento; não apenas faz um homem julgar-se justo aos seus próprios olhos, mas também alimenta seu egoísmo e apego aos seus próprios pensamentos e vontades.

Essas paixões graves são um véu sobre nossos olhos espirituais. É precisamente por isso que o fariseu não viu a necessidade de buscar a misericórdia de Deus e o perdão dos seus pecados. E quem vê apenas a sua própria justiça julga os outros com facilidade e os despreza. É por isso que toda queda na história e toda heresia que cresceu (e cresce) no mundo foi causada, principalmente, pelo orgulho farisaico e a convicção da autojustiça.

O homem nunca se humilhará e sentirá o peso de seus pecados enquanto contar seus feitos e se orgulhar de suas grandes obras. A enumeração de feitos e o orgulho deles é o principal combustível para o orgulho. E a maioria dos cristãos vive uma espécie de “cristianismo social” que alimenta o espírito do egoísmo, de modo que facilmente caem nas paixões da presunção, da vanglória, do orgulho… e da heresia.

Cristo quis nos advertir de cair nessas paixões mortais quando Ele disse: Ai de vós, quando todos os homens falarem bem de vós! (Lucas 6:26)

Do ponto de vista da fé, o verdadeiro farisaísmo compreende essa escuridão em que a alma orgulhosa cai, de modo que ela não faz mais distinção entre o que é do Espírito de Deus e o que é do espírito do diabo. Essa alma torna-se incapaz de discernir a verdade da ilusão. Só os humildes são verdadeiramente espirituais, porque obedecem à Igreja, à sua fé e aos seus cânones, e Deus concede-lhes o dom do discernimento e a capacidade de separar o que é verdadeiro e o que são os falsos ensinamentos que desfiguram esta Verdade. Estes (humildes) são os mestres e Padres da Igreja e os defensores de sua Fé.

Esta é a luta constante entre orgulho amaldiçoado e humildade abençoada; farisaísmo e obediência; autoconfiança e arrependimento; essa luta aumentará à medida que avançamos para o fim. O pecado do fariseu não está somente na alma que se desvia da verdade, mas naquela alma a quem a verdade é revelada, mas continua insistindo em sua ilusão; e induz os outros ao erro enquanto sugere que eles estão certos. O farisaísmo é a cegueira diante da Verdade, quando a Verdade está totalmente presente diante de nós em sua plenitude. O farisaísmo não é a adesão firme à nossa fé Ortodoxa e a nomeação de hereges e falsos mestres. O farisaísmo é a adesão patológica às nossas convicções pessoais, que se opõem aos ensinamentos da Igreja e decorrem de um espírito mundano e das instabilidades da Nova Era.

Cristo não condenou o pecador, mas Ele mesmo condenou o herege, quando disse que todas as blasfêmias são perdoadas, mas aquele que blasfemar contra o Espírito Santo nunca terá perdão, mas corre o risco de condenação eterna (Mc 3:29 ). Nossos Santos Padres entendem estes "blasfemadores imperdoáveis" como hereges e falsos mestres.

O nosso Cristo é o Cristo dos humildes, que abençoa o que a Igreja abençoa e anatematiza o que ela anatematiza. Tais pessoas não pecam contra Deus, nem contra os homens, nem contra a fé, nem contra o amor.

O amor não unifica a humanidade – a fé Ortodoxa em Deus é o que unifica os homens, de uma forma interna e íntima. Quando crêem na mesma fé, tornam-se um, e o amor sela então esta unidade, mediante a participação no único Corpo e Sangue de Cristo. Quem lê sobre o caminho da Igreja em todo o Novo Testamento com uma mente humilde, vê claramente que é um caminho, com uma única fé, que nos une a Jesus Cristo – a única Verdadeira Fé que resiste a todos os ensinamentos distorcidos e tortuosos. O 'amor', como mencionam os Apóstolos do Novo Testamento, nada mais é do que a afirmação desta unidade, uns com os outros e com Deus, entre os que estão unidos pela Fé única, que se ativa na participação no Santo Corpo e Sangue de Cristo na Eucaristia.

Quanto ao amor que não se baseia nessa Fé única, é apenas um amor externo, farisaico, um amor hipócrita, como o amor que o fariseu demonstrava para com Deus e seus semelhantes na oração, no jejum e na esmola.

O fariseu pensou que era justificado por suas obras, então ele as enumerou e confiou nelas. Quanto ao publicano, ele confiava em sua fé em Deus; a força dessa fé é revelada quando ele busca a misericórdia de Deus com tal espírito contrito. A sinceridade da fé do homem é revelada pela franca confissão de seus pecados diante de um pai espiritual na Igreja, e sua fé é fortalecida ao buscar a misericórdia de Deus com inabalável insistência. E o publicano, parando de longe, não levantava sequer os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Deus, tenha misericórdia de mim, que sou pecador (Lucas 18:13).

Esses são os sinais do verdadeiro arrependimento e autoconhecimento; O profeta Davi os descreve da seguinte forma: Os sacrifícios que agradam a Deus são um espírito quebrantado;um coração quebrantado e contrito, ó Deus, não desprezarás (Sl 50:17).

O fariseu rezava como qualquer outra pessoa, mas uma oração como a dele, com um espírito altivo e inconsciente de seus pecados, é uma oração feita aos demônios, não a Deus. Aquele que ora verdadeiramente deve ser cheio de compaixão pelos outros e amor – não julgamento – pelos pecadores. O fariseu orgulhava-se de seu jejum, enquantoobjetivo do jejum é que a alma seja esmagada e humilhada, para crescer no controle dos caprichos do corpo, na purificação dos pensamentos e na renúncia às coisas mundanas. Ele se orgulhava de dizimar todos os seus bens, enquanto o objetivo do dízimo é transformar nosso egoísmo em sensibilidade para com os outros e nos libertar da avareza e do amor ao dinheiro. Este é o espírito farisaico que se opõe ao espírito humilde - que é um espírito que ama a Cristo mais do que a si mesmo. Este é o inicio de nossa jornada rumo à Páscoa. A Igreja nos ensina através desta parábola a acompanhar o jejum com humildade, para que possamos crescer na Fé, no autoconhecimento e na consciência de nossos pecados.

O objetivo do jejum é curar a alma de seus desejos corruptos, doenças espirituais e tendências perversas. Mas o jejum é estéril sem oração focada... e a oração sincera não existe sem humildade, suspiros e arrependimento.